Autor: Opina Babi

Jornalista | Social Media, 31 anos.

Como Ricardo La Volpe, técnico que Guardiola copiou, revolucionou o futebol mexicano

País azteca que recebe a Copa 2026 teve treinador argentino como peça-chave para se tornar um potente mercado da atualidade

Foto: Televisa Deportes

Para o futebol mexicano, poucos treinadores estrangeiros tiveram um impacto tão profundo quanto Ricardo La Volpe. Chegando ao México ainda como jogador no fim da década de 1970, ele construiu praticamente toda a sua carreira de treinador no país e ajudou a transformar a forma como muitas equipes entendiam o jogo. La Volpe comandou clubes como Atlante, Querétaro, Dorados, Atlético Morelia, Toluca, Atlas, Monterrey, Chivas Guadalajara e América. Em todos eles deixou a mesma marca: equipes que valorizavam a posse de bola, a saída construída desde a defesa e a ocupação racional dos espaços.

O chamado “lavolpismo” virou uma escola própria dentro do futebol mexicano. Sua principal inovação foi a famosa saída de três defensores, muitas vezes com um volante recuando entre os zagueiros para iniciar as jogadas. Hoje isso parece comum, mas nos anos 1990 e 2000 era uma ideia bastante avançada para a região. Além de desenvolver jogadores, La Volpe ajudou a formar treinadores e dirigentes que passaram a enxergar o futebol de maneira mais estratégica. O país azteca também se tornou um dos mercados mais ricos do futebol moderno, devido a forma como La Volpe mostrou ao mundo como os times de lá vinham evoluindo.

Sua influência foi tão grande que abriu caminho para a valorização de técnicos argentinos no México, facilitando a chegada e o sucesso de nomes como Tony Mohamed, Matías Almeyda, Diego Cocca e tantos outros que encontraram um ambiente já receptivo às ideias vindas da escola argentina. Também moldou o estilo de técnicos da atualidade como Ariel Holan e Jorge Almirón, que se tornou volante em suas mãos ao ser treinado por el bigodón no Dorados.

A passagem de La Volpe pela Seleção Mexicana de Futebol, entre 2002 e 2006, foi o auge de sua influência. Sob seu comando, o México apresentou um futebol ofensivo, organizado e tecnicamente refinado, conquistando admiração internacional. Na Copa do Mundo de 2006, os mexicanos lideraram um grupo que tinha Portugal, Angola e Irã, antes de serem eliminados pela Argentina apenas na prorrogação, em uma partida considerada uma das melhores daquele Mundial. Muitos analistas e torcedores ainda veem aquele ciclo como um dos mais marcantes da história recente da seleção mexicana.  

Foi justamente durante aquela Copa do Mundo que um ex-jogador recém-aposentado chamado Pep Guardiola se encantou pelo trabalho de La Volpe. Em uma coluna publicada no jornal espanhol El País, Guardiola escreveu o famoso texto “Salir de novios” (“Sair de namorados”), no qual elogiou a forma como o México construía suas jogadas desde a defesa. Pep destacou que havia uma diferença entre simplesmente começar uma jogada e realmente sair jogando, conceito central do lavolpismo. Na metáfora utilizada por Guardiola, bola e jogadores avançavam juntos “como namorados”, numa referência à harmonia dos movimentos coletivos.

Anos depois, quando Guardiola revolucionou o futebol europeu em clubes como o Barcelona, Bayern Munich e Manchester City, muitos passaram a identificar conceitos que já apareciam nos times de La Volpe: a saída sustentada desde trás, a superioridade numérica na construção e a participação ativa dos defensores na criação das jogadas. Não é exagero afirmar que o argentino ajudou a inspirar algumas das ideias que moldariam o futebol moderno, inclusive que muitos o copiaram. Poucos treinadores podem dizer que influenciaram diretamente um dos maiores técnicos da história (Guardiola), e Ricardo La Volpe pode dizer isso, pois seus conceitos foram além do futebol mexicano, atravessando o oceano para o velho continente.

Sob o Domínio do Crime: Série documental supera “O Testamento” em audiência, mas sem memes

Produção é digna de prêmios, mas fica um degrau abaixo de “Vale o Escrito”. Lá pelo menos tinha samba pra distrair entre as mortes dos bicheiros

Foto: Globoplay

Entre os documentários brasileiros lançados recentemente, poucos são tão impactantes quanto “Territórios – Sob o Domínio do Crime”, do Globoplay. A série mergulha em uma realidade que muitos preferem ignorar: o avanço das facções criminosas sobre regiões inteiras do país. Mais do que mostrar a violência, a produção revela como essas organizações ocupam espaços deixados pelo Estado, controlando territórios, impondo regras e influenciando diretamente a vida de milhões de brasileiros. É um retrato duro, mas necessário.

O documentário também funciona como um alerta. Em vários momentos, fica a sensação de que o Brasil caminha por uma estrada semelhante à percorrida pelo México, onde o poder do crime organizado se tornou um problema nacional de proporções gigantescas. Não se trata apenas de segurança pública, mas de um fenômeno social, econômico e político que afeta o cotidiano de quem vive nas áreas dominadas por essas organizações. A série consegue explicar essa complexidade sem perder a força narrativa.

O sucesso foi tão grande que a produção já ultrapassou a audiência de outro fenômeno recente do Globoplay, o documentário “O Testamento”, sobre a empresária que ficou conhecida como a “herdeira da Pernambucanas”. Mas a comparação termina nos números. Enquanto aquela série tinha momentos curiosos, personagens excêntricos e situações que até rendiam memes nas redes sociais, “Territórios – Sob o Domínio do Crime” praticamente não oferece respiro ao espectador. É uma história que provoca indignação, tristeza e preocupação do começo ao fim.

Talvez por isso eu ainda coloque “Vale o Escrito” um degrau acima entre os documentários nacionais recentes. Não pela qualidade técnica, que em ambos os casos é altíssima, mas porque a produção sobre o jogo do bicho conseguia equilibrar crime, cultura popular, samba e personagens quase folclóricos. Havia momentos de humor e leveza em meio ao caos. Já em “Territórios – Sob o Domínio do Crime” não existe esse alívio. O que vemos ali é uma sucessão de histórias marcadas por medo, sangue e lágrimas.

É um documentário excelente, digno de prêmios, mas também um dos retratos mais dolorosos do Brasil contemporâneo. Na verdade quem dá um tom mais leve nas falas é o jornalista Octavio Guedes, apenas. Tem que ter estômago pra assistir. Isso só mostra que nosso país está se afundando cada vez mais nessa guerra toda, sem conseguir ter um destino feliz como Medellín.

Brasileiro não gosta de esporte, gosta de vencedor

Frase de Wilson Baldini Jr. se encaixa agora no novo momento do Brasil: país do tennis

Foto: Estadão

O interesse do brasileiro por determinadas modalidades esportivas quase sempre acompanha o sucesso de seus principais representantes. A história mostra isso de forma recorrente. Hoje, por exemplo, o tennis vive um raro momento de popularidade graças ao fenômeno João Fonseca. De repente, muita gente passou a comentar torneios, rankings e partidas que, até pouco tempo atrás, passavam despercebidos pela maioria do público.

Não é a primeira vez que isso acontece. Houve uma época em que o Brasil era o país do boxe. As lutas de Maguila e, mais tarde, de Popó Freitas mobilizavam audiências enormes e estampavam manchetes por todo lado. Depois veio o vôlei, impulsionado por gerações vencedoras que transformaram o esporte em paixão nacional. O mesmo ocorreu com o basquete nos tempos de Oscar Schmidt e da seleção competitiva. Quando os resultados diminuíram, o interesse popular também caiu drasticamente.

A Fórmula 1 talvez seja o exemplo mais emblemático. Durante a era de Ayrton Senna, o país praticamente parava para assistir às corridas. Após sua morte, parte do público abandonou a categoria. Alguns continuaram acompanhando por causa de Rubens Barrichello ou Felipe Massa, mas a paixão coletiva jamais voltou ao mesmo nível. Agora surge Gabriel Bortoleto como esperança de uma nova geração, embora ainda seja cedo para saber se ele conseguirá despertar novamente o interesse dos brasileiros pela modalidade.

A frase do jornalista, especializado em boxe, Wilson Baldini Jr resume bem esse comportamento: “o brasileiro não gosta de esporte, gosta de vencedor”. Pode soar exagerada, mas há muita verdade nela. Quem realmente ama uma modalidade continua acompanhando nos momentos de glória e de crise. Já o grande público costuma aparecer quando surgem os títulos, as medalhas e os ídolos. No fim das contas, o esporte favorito do brasileiro quase sempre é aquele que está ganhando.

Boca Juniors deve acertar retorno de Arruabarrena, técnico da escola Bianchista

Treinador próximo de Riquelme desde os tempos de atleta já comandou o time há dez anos

Foto: Diario Olé

O possível retorno de Rodolfo Arruabarrena ao Boca Juniors, dez anos após sua primeira passagem, mostra como o clube parece buscar mais segurança do que revolução para o futuro próximo. Em um momento em que muitos torcedores sonham com nomes de grande impacto ou projetos mais ousados, a diretoria parece olhar para alguém que conhece profundamente a casa, entende a pressão da Bombonera e já conquistou títulos vestindo o azul e ouro. Além disso, existe uma relação de confiança com Juan Román Riquelme que vem de longa data. Os dois foram companheiros no Villarreal, da Espanha, experiência que certamente ajuda a explicar por que o atual presidente do Boca vê Arruabarrena como uma opção confiável para o cargo.

Quando se analisa seu trabalho como treinador, fica difícil enquadrá-lo totalmente na eterna disputa argentina entre menottistas e bilardistas. Arruabarrena não é um adepto fanático da posse de bola nem da busca pelo espetáculo acima de tudo. Ao mesmo tempo, também não representa o pragmatismo extremo que muitos associam ao bilardismo clássico. Seu futebol costuma ser equilibrado, com preocupação tática, organização defensiva e liberdade para adaptar o plano de jogo conforme o adversário.

Talvez por isso ele esteja mais próximo de uma versão moderna da escola bilardista, com muitas nuances do bianchismo (escola de Carlos Bianchi), sua porta de entrada no futebol. Seus times normalmente priorizam a competitividade e os resultados, sem abrir mão de certa qualidade na construção das jogadas. É uma visão que combina bastante com a identidade histórica do Boca Juniors, clube que tradicionalmente valoriza a entrega, a personalidade e a capacidade de vencer em cenários adversos. Na Bombonera, ganhar continua sendo a palavra mais importante do dicionário.

A questão é saber se esse perfil ainda é suficiente para um Boca que vive pressionado pela comparação com seus rivais continentais e pela obsessão de voltar a conquistar a Libertadores. Arruabarrena pode oferecer estabilidade, conhecimento do ambiente e uma sintonia natural com Riquelme, mas dificilmente será visto como um técnico capaz de promover uma transformação profunda. Se sua contratação se confirmar, a mensagem da diretoria será clara: antes de pensar em reinventar o Boca, é preciso fazê-lo voltar a competir em alto nível. E vai ser difícil.

10 anos da última Libertadores do Atlético Nacional: O que mudou no futebol colombiano?

Time conquistou o bicampeonato na competição, sendo a terceira da Colômbia em sua história

Foto: RCN Noticias

Em julho de 2026, a conquista da Libertadores da América de 2016 pelo Atlético Nacional completa dez anos. A equipe comandada por Reinaldo Rueda entrou para a história ao derrotar o Independiente del Valle na decisão e conquistar o segundo título continental do clube. Naquele momento, muitos imaginavam que o futebol colombiano viveria uma nova era de protagonismo internacional, impulsionado pela força de um elenco competitivo, organizado e que encantou boa parte da América do Sul durante aquela campanha.

Passada uma década, porém, a sensação é de que o impacto daquela conquista foi menor do que se esperava. O Atlético Nacional continuou sendo uma potência dentro da Colômbia, acumulando títulos nacionais e mantendo sua condição de principal referência do país. No cenário continental, entretanto, o clube não conseguiu transformar a conquista em uma hegemonia duradoura. As campanhas posteriores na Libertadores ficaram longe do brilho de 2016, e o futebol colombiano como um todo também não conseguiu se firmar entre as principais forças da América do Sul. Aquele título foi o terceiro do continente conquistado pelos colombianos, sendo a segunda Liberta do Atl Nacional, ao lado do título do Once Caldas de 2004.

Curiosamente, quem parece ter aproveitado melhor a experiência daquela final foi justamente o Equador. Mesmo derrotado em 2016, o Independiente del Valle se consolidou como um dos projetos mais modernos do continente, conquistando títulos da Copa Sul-Americana e da Recopa, além de se tornar presença constante nas fases decisivas das competições da Conmebol. Outros clubes equatorianos também passaram a alcançar campanhas relevantes, demonstrando uma evolução estrutural e esportiva que colocou o país em um patamar superior ao que ocupava dez anos atrás.

A trajetória acaba lembrando, em certa medida, a do histórico Atlético Nacional campeão de 1989, liderado por Francisco Maturana. Aquele time conquistou a primeira Libertadores da Colômbia e marcou época, mas também não conseguiu transformar o sucesso continental em um ciclo prolongado de domínio internacional para seus clubes. Tanto em 1989 quanto em 2016, o Verdolaga produziu equipes memoráveis e levantou a taça mais importante do continente, mas os títulos acabaram sendo capítulos isolados de excelência, sem provocar uma mudança profunda e permanente na posição do futebol colombiano dentro da América do Sul. Ao menos mantém uma das canteras que mais revelam jogadores no futebol cafetero, o que ainda o faz grande por lá.

Colômbia terá segundo turno nas eleições presidenciais

Candidato do atual presidente ficou em segundo lugar na votação deste domingo. Decisão será dia 21 de junho

Foto: RCN Notícias

A eleição presidencial da Colômbia chega ao segundo turno em um cenário de forte polarização entre dois projetos completamente diferentes para o país. De um lado está Abelardo de la Espriella, advogado de direita que terminou o primeiro turno na liderança com cerca de 44% dos votos. Do outro, Iván Cepeda, senador de esquerda ligado ao presidente Gustavo Petro, que ficou próximo dos 41%. A votação decisiva acontece em 21 de junho e promete ser uma das mais disputadas da história recente do país.  

O cenário parece inicialmente mais favorável para De la Espriella porque boa parte do eleitorado conservador e de direita já começou a se unificar ao seu redor. Lideranças tradicionais, incluindo aliados do ex-presidente Álvaro Uribe, declararam apoio ao candidato após o primeiro turno. Além disso, a preocupação crescente da população com segurança pública, narcotráfico e violência tem fortalecido seu discurso de endurecimento contra grupos criminosos, estratégia que lembra, para muitos analistas, o modelo adotado por Nayib Bukele.  

Já Cepeda aposta em outro caminho para tentar virar a disputa. Sua esperança está na mobilização dos eleitores de centro, dos jovens e dos setores que temem uma guinada muito forte à direita. O senador defende a continuidade de políticas sociais, negociações de paz com grupos armados e reformas iniciadas durante o governo Petro. Analistas apontam que parte dos eleitores moderados pode migrar para Cepeda caso considere De la Espriella excessivamente radical ou imprevisível. A taxa de participação no primeiro turno também deixou milhões de eleitores fora das urnas, o que abre espaço para mudanças no quadro eleitoral.  

No cenário internacional, a disputa também desperta atenção. O governo brasileiro de Luiz Inácio Lula da Silva tende a enxergar uma eventual vitória de Cepeda com mais simpatia política, já que ele representa a continuidade de uma linha próxima à de Petro em temas como integração regional, diálogo diplomático e políticas sociais. Por outro lado, a Argentina de Javier Milei provavelmente veria com melhores olhos uma vitória de De la Espriella, que possui discurso liberal na economia, postura mais conservadora e forte oposição à esquerda latino-americana.

Mesmo que Brasil e Argentina dificilmente façam declarações formais de apoio durante a campanha, o resultado poderá influenciar diretamente o equilíbrio político da América do Sul nos próximos anos, especialmente em temas como segurança regional, comércio, energia e integração continental. Essa é uma das razões pelas quais o segundo turno colombiano vem sendo acompanhado com tanta atenção pelos governos vizinhos.