Como Ricardo La Volpe, técnico que Guardiola copiou, revolucionou o futebol mexicano

País azteca que recebe a Copa 2026 teve treinador argentino como peça-chave para se tornar um potente mercado da atualidade

Foto: Televisa Deportes

Para o futebol mexicano, poucos treinadores estrangeiros tiveram um impacto tão profundo quanto Ricardo La Volpe. Chegando ao México ainda como jogador no fim da década de 1970, ele construiu praticamente toda a sua carreira de treinador no país e ajudou a transformar a forma como muitas equipes entendiam o jogo. La Volpe comandou clubes como Atlante, Querétaro, Dorados, Atlético Morelia, Toluca, Atlas, Monterrey, Chivas Guadalajara e América. Em todos eles deixou a mesma marca: equipes que valorizavam a posse de bola, a saída construída desde a defesa e a ocupação racional dos espaços.

O chamado “lavolpismo” virou uma escola própria dentro do futebol mexicano. Sua principal inovação foi a famosa saída de três defensores, muitas vezes com um volante recuando entre os zagueiros para iniciar as jogadas. Hoje isso parece comum, mas nos anos 1990 e 2000 era uma ideia bastante avançada para a região. Além de desenvolver jogadores, La Volpe ajudou a formar treinadores e dirigentes que passaram a enxergar o futebol de maneira mais estratégica. O país azteca também se tornou um dos mercados mais ricos do futebol moderno, devido a forma como La Volpe mostrou ao mundo como os times de lá vinham evoluindo.

Sua influência foi tão grande que abriu caminho para a valorização de técnicos argentinos no México, facilitando a chegada e o sucesso de nomes como Tony Mohamed, Matías Almeyda, Diego Cocca e tantos outros que encontraram um ambiente já receptivo às ideias vindas da escola argentina. Também moldou o estilo de técnicos da atualidade como Ariel Holan e Jorge Almirón, que se tornou volante em suas mãos ao ser treinado por el bigodón no Dorados.

A passagem de La Volpe pela Seleção Mexicana de Futebol, entre 2002 e 2006, foi o auge de sua influência. Sob seu comando, o México apresentou um futebol ofensivo, organizado e tecnicamente refinado, conquistando admiração internacional. Na Copa do Mundo de 2006, os mexicanos lideraram um grupo que tinha Portugal, Angola e Irã, antes de serem eliminados pela Argentina apenas na prorrogação, em uma partida considerada uma das melhores daquele Mundial. Muitos analistas e torcedores ainda veem aquele ciclo como um dos mais marcantes da história recente da seleção mexicana.  

Foi justamente durante aquela Copa do Mundo que um ex-jogador recém-aposentado chamado Pep Guardiola se encantou pelo trabalho de La Volpe. Em uma coluna publicada no jornal espanhol El País, Guardiola escreveu o famoso texto “Salir de novios” (“Sair de namorados”), no qual elogiou a forma como o México construía suas jogadas desde a defesa. Pep destacou que havia uma diferença entre simplesmente começar uma jogada e realmente sair jogando, conceito central do lavolpismo. Na metáfora utilizada por Guardiola, bola e jogadores avançavam juntos “como namorados”, numa referência à harmonia dos movimentos coletivos.

Anos depois, quando Guardiola revolucionou o futebol europeu em clubes como o Barcelona, Bayern Munich e Manchester City, muitos passaram a identificar conceitos que já apareciam nos times de La Volpe: a saída sustentada desde trás, a superioridade numérica na construção e a participação ativa dos defensores na criação das jogadas. Não é exagero afirmar que o argentino ajudou a inspirar algumas das ideias que moldariam o futebol moderno, inclusive que muitos o copiaram. Poucos treinadores podem dizer que influenciaram diretamente um dos maiores técnicos da história (Guardiola), e Ricardo La Volpe pode dizer isso, pois seus conceitos foram além do futebol mexicano, atravessando o oceano para o velho continente.

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