Categoria: Futebol Argentino

De La Plata para Minas: Eduardo Domínguez faz trabalho eficiente no Atlético MG

Foto: TyC Sports

Eduardo Domínguez é um daqueles treinadores argentinos que tornam difícil separar o homem da escola de futebol que o formou. E, no caso dele, a pergunta é inevitável: afinal, Domínguez é menottista ou bilardista? A resposta mais justa é que ele está muito mais próximo do bilardismo, embora não seja um bilardista ortodoxo. Sua passagem pelo Estudiantes de La Plata — clube historicamente associado à linhagem de Osvaldo Zubeldía, Carlos Bilardo e Alejandro Sabella — ajudou a consolidar uma identidade baseada em organização, competitividade, estudo do adversário, bola parada, ocupação racional dos espaços e, sobretudo, capacidade de sobreviver aos diferentes momentos de uma partida. Não por acaso, Domínguez terminou sua passagem pelo Estudiantes com cinco títulos e como o segundo treinador mais vencedor da história do clube, atrás apenas de Zubeldía.

Mas seria injusto reduzir Domínguez a um simples discípulo de Bilardo. Ele pertence a uma geração que absorveu diferentes escolas e transformou o futebol argentino em algo mais híbrido. Há nele princípios que lembram o bilardismo — a preparação minuciosa, a importância da estrutura defensiva, a competitividade e a valorização das jogadas de bola parada —, mas também existe uma preocupação maior com a construção do jogo e com a utilização da posse de bola. É um treinador pragmático: não acredita que exista uma única maneira de jogar. Seu futebol procura controlar o contexto da partida e encontrar a melhor solução para cada adversário. Foi justamente essa combinação de organização e capacidade de adaptação que fez seu trabalho no Estudiantes ganhar tanto prestígio. Em 163 partidas pelo clube, foram 72 vitórias, 49 empates e 42 derrotas, com 54,19% de aproveitamento.

No Atlético Mineiro, Domínguez chegou em fevereiro de 2026, depois de uma passagem extremamente vitoriosa pelo Estudiantes, assinando contrato até dezembro de 2027. O começo, porém, esteve longe de ser perfeito. O Galo terminou o Campeonato Mineiro como vice-campeão e teve dificuldades importantes no início do Brasileirão. Em junho, após 24 partidas em todas as competições, o argentino acumulava 11 vitórias, três empates e dez derrotas, exatamente 50% de aproveitamento. No Campeonato Brasileiro, naquele momento, eram sete vitórias, três empates e oito derrotas.

O interessante é que Domínguez não abandonou suas convicções quando os resultados demoraram a aparecer. Aos poucos, o Atlético foi adquirindo justamente aquilo que caracteriza seus trabalhos: organização, força competitiva e capacidade de crescer durante a temporada. Em agosto, a transformação ficou evidente. O Galo chegou a nove partidas consecutivas sem perder depois da vitória por 3 a 0 sobre o Grêmio, resultado que levou a equipe aos 32 pontos e à oitava colocação do Brasileirão. Poucos dias depois, veio outro capítulo importante: o Atlético empatou por 2 a 2 com o Red Bull Bragantino, depois de vencer o jogo de ida por 1 a 0, e garantiu vaga nas quartas de final da Copa Sul-Americana.

É justamente aí que Eduardo Domínguez começa a parecer cada vez mais com aquilo que o futebol argentino historicamente produziu de melhor: um treinador que entende que competir também é uma forma de jogar. Ele não é Menotti, porque não coloca a estética e a liberdade ofensiva acima de tudo; tampouco é Bilardo, porque não transforma a estratégia em uma ciência fechada e absoluta. Domínguez é, talvez, um bilardista moderno, influenciado pela tradição do Estudiantes, mas atualizado para um futebol em que a flexibilidade tática é tão importante quanto a disciplina.

E talvez seja essa a grande chave para entender o atual Atlético Mineiro. Domínguez não chegou ao Brasil para inventar uma nova escola. Chegou para recuperar uma velha ideia argentina: um time precisa saber jogar, mas antes precisa saber competir. E, depois de um início irregular, o Galo começa a mostrar justamente essa característica. O Atlético de Domínguez ainda pode evoluir muito, mas já existe uma identidade. E identidade, para um treinador argentino, costuma ser o primeiro passo para construir algo que dure.

River de Coudet precisa acordar pra vida

Elenco estrelado parece estar com preguiça de jogar, pois sua maioria já ganhou de tudo

Foto: Sport.tv

O River Plate voltou da pausa da Copa do Mundo exatamente da mesma forma que encerrou o primeiro semestre: sem intensidade, sem confiança e, principalmente, sem qualquer sinal de evolução. O problema é que essa versão do time já era conhecida desde o início do trabalho de Eduardo Coudet. A pausa serviu para pouco.

A perda do título para o Belgrano parece ter deixado marcas em um elenco que, em vez de reagir, transmite a sensação de que perdeu ainda mais a competitividade. O River tem jogadores de enorme qualidade, muitos deles acostumados a conquistar os maiores títulos do futebol. Há atletas com Libertadores, Champions League e até Copa do Mundo no currículo. Mas, dentro de campo, falta aquilo que sempre caracterizou o River: fome de vencer.

Durante meses, muita gente apontou Marcelo Gallardo como o principal responsável pela queda de rendimento da equipe. De fato, seu ciclo dava sinais claros de desgaste, e uma mudança parecia inevitável. Mas a troca de comando, por si só, não resolveu nada. Pelo contrário: o River segue preso aos mesmos problemas, e o trabalho de Coudet ainda não conseguiu apresentar uma identidade capaz de convencer.

O mais preocupante é a postura da equipe. O River parece apático, sem urgência e sem a sensação de que cada partida realmente vale alguma coisa. E isso não faz sentido. O clube ainda tem pela frente duas competições importantes, que sobraram para a temporada: a Copa Sul-Americana e o Campeonato Argentino. Se o time não encontrar motivação para disputar esses torneios, vai jogar por quê?

O River ainda tem objetivos na temporada, ainda pode conquistar um título e ainda pode terminar o ano de cabeça erguida. Mas, para isso, precisa mudar de postura imediatamente. Porque, mantendo esse futebol burocrático e sem ambição, o risco é encerrar mais uma temporada sem levantar nenhuma taça. E, para um clube do tamanho do “millionario” e para um elenco tão estrelado, isso é simplesmente inaceitável.

Gallardo e Simeone são os favoritos para lugar de Scaloni na seleção argentina

Além da dupla formada na escola Vicente López, Pochettino e Pablo Aimar correm por fora como opções da AFA

Fotos: TyC Sports

Se Lionel Scaloni realmente decidir encerrar seu ciclo na seleção argentina ao fim deste ano, a AFA terá uma das decisões mais importantes das últimas décadas. O treinador deixaria um legado gigantesco, com 4 títulos e uma identidade de jogo consolidada, além de um grupo que voltou a colocar a Argentina entre as maiores potências do futebol mundial. A missão de escolher o sucessor seria delicada, pois não se trata apenas de encontrar um bom técnico, mas alguém capaz de manter uma geração vencedora e iniciar uma renovação pensando em 2030.

Hoje, os dois nomes mais fortes são Marcelo Gallardo e Diego Simeone. Gallardo, que recentemente recusou uma proposta para comandar a seleção uruguaia, é muito bem visto por integrantes da comissão técnica de Scaloni e por pessoas ligadas ao atual projeto da seleção. Seu perfil moderno, a capacidade de montar equipes competitivas e a experiência em grandes decisões fazem dele um candidato extremamente forte para dar continuidade ao trabalho desenvolvido nos últimos anos.

Do outro lado está Diego Simeone, que conta com grande prestígio dentro da AFA e, principalmente, junto ao presidente Claudio “Chiqui” Tapia. Além da relação próxima entre ambos, Simeone representa como poucos a essência mais competitiva do futebol argentino, muito ligada ao bilardismo. Treinar a seleção argentina sempre foi um dos grandes sonhos de sua carreira, ao lado do desejo de um dia conquistar a Libertadores pelo Estudiantes. Assumir a Albiceleste seria a oportunidade de buscar também o maior objetivo possível: conquistar uma Copa do Mundo como treinador.

Correndo por fora aparece Mauricio Pochettino. Depois do excelente trabalho realizado no último Mundial, mostrou mais uma vez sua capacidade de construir equipes competitivas mesmo partindo praticamente do zero. Seu estilo mistura conceitos do bielsismo com um menottismo mais equilibrado, valorizando intensidade, organização e protagonismo com a bola. É um técnico que reúne experiência internacional e uma filosofia que conversa bem com a identidade histórica do futebol argentino.

Caso nenhuma dessas opções se concretize, um nome ganha força internamente: Pablo Aimar. Integrante da comissão técnica de Scaloni desde o início do projeto, ele conhece profundamente o elenco, a estrutura da AFA e a cultura criada ao longo desse ciclo vitorioso. Diferentemente de Scaloni, que assumiu uma seleção desorganizada após a era Sampaoli, Aimar encontraria uma casa pronta, organizada e vencedora. Seja com Gallardo, Simeone, Pochettino ou Aimar, a Argentina teria quatro alternativas de peso para dar sequência ao trabalho que pode marcar o fim da histórica era de Lionel Scaloni.

Pochettino foi o melhor técnico argentino na Copa; Bielsa o pior, como sempre

Seis treinadores da escola porteña marcaram a trajetória de suas seleções no Mundial 2026

Foto: Telemundo Deportes

Os técnicos argentinos voltaram a mostrar sua força nesta Copa do Mundo, mas cada um deixou uma impressão diferente. Para mim, dos seis que estavam na competição, o grande destaque foi Mauricio Pochettino. O trabalho realizado com os Estados Unidos foi diferenciado e merece enorme reconhecimento. Pegou uma seleção que historicamente nunca teve grande tradição e conseguiu transformá-la em um time competitivo, organizado e que até incorporou um pouco da catimba latina, algo impensável há alguns anos. Foi, sem dúvida, o treinador argentino que mais valorizou seu trabalho neste Mundial.

Na segunda posição coloco Lionel Scaloni. Chegar a uma segunda final consecutiva de Copa do Mundo é um feito reservado a pouquíssimos técnicos. Ele repetiu o que Carlos Bilardo havia conseguido décadas atrás, em 1990; e manteve a Argentina entre as maiores potências do planeta. Independentemente do resultado da decisão, consolidou um ciclo histórico para a seleção argentina.

O terceiro lugar fica com Gustavo Alfaro. Eliminar a Alemanha foi uma demonstração clara da identidade que ele consegue dar às suas equipes: organização, disciplina tática e um sistema defensivo extremamente sólido. Logo atrás aparece Sebastián Beccacece. Mesmo enfrentando turbulências no Equador, conseguiu uma vitória marcante sobre a Alemanha e deixou o cargo de maneira digna, sendo eliminado pelos anfitriões, o México, após uma campanha que mostrou evolução da equipe.

Na reta final do ranking está Néstor Lorenzo. A Colômbia tinha elenco para produzir muito mais, mas o treinador nunca conseguiu assumir o controle do vestiário. Acabou se rendendo à dependência de James Rodríguez e deixou no banco jogadores que poderiam dar muito mais intensidade e dinamismo ao time.

Em último lugar, Marcelo Bielsa. Novamente, sua passagem por uma Copa termina de forma decepcionante. O Uruguai jamais conseguiu atuar como uma equipe de verdade, e a relação desgastada entre elenco e treinador ficou evidente durante o torneio. A melancolia da campanha contrastou com os tempos do Maestro Tabárez, quando a Celeste tinha identidade, união e competitividade. Em geral, os técnicos argentinos seguem seus princípios e continuarão dominantes no mercado da bola.

Argentina e Colômbia precisam se reformular para 2030

Copa do Mundo mostrou o quanto as duas seleções devem aprender a viver sem seus camisas 10 daqui pra frente

Foto: TyC Sports

A Copa do Mundo de 2026 deixou um recado muito claro para Argentina e Colômbia: é hora de iniciar uma grande reformulação. Pensando em 2030, não faz sentido imaginar que as duas seleções chegarão competitivas mantendo praticamente a mesma base. O ciclo mudou, o futebol mudou e, principalmente, os protagonistas também estão mudando. Por coincidência, ambas foram as finalistas da última Copa América, sendo as seleções do continente que também foram mais longe no Mundial deste ano.

No caso da Argentina, o maior desafio será aprender a viver sem Lionel Messi. Nenhum jogador será capaz de substituí-lo individualmente, porque isso simplesmente não existe. O caminho será construir uma equipe com novas lideranças, uma identidade coletiva forte e dar espaço para uma geração que já começa a aparecer. Alguns nomes mais jovens da atual seleção devem permanecer, mas boa parte do elenco precisará ser renovada para que a equipe chegue forte ao próximo Mundial.

A Colômbia vive uma situação semelhante. James Rodríguez foi o grande símbolo de uma geração histórica, mas o futebol colombiano precisa olhar para frente. É hora de deixar de depender do camisa 10 e montar uma seleção pensando no futuro, aproveitando alguns atletas que ainda podem contribuir, mas abrindo espaço para novos protagonistas. Permanecer preso ao passado pode custar mais um ciclo perdido.

Na minha visão, cerca de 70% do elenco das duas seleções precisa ser renovado até 2030. Não significa descartar toda a experiência, mas entender que um novo ciclo exige novas ideias, novas lideranças e jogadores fisicamente preparados para disputar uma Copa do Mundo em alto nível. Argentina e Colômbia têm talento de sobra nas categorias de base. Agora, falta coragem para iniciar essa transição antes que seja tarde demais.

Por acaso, ou não, a Argentina se tornou outra após morte de Maradona

Provável que Don Diego se tornou o Deus que eles tanto queriam no céu

Foto: Clarín Deportes

Há coincidências que o futebol nunca consegue explicar. E talvez a maior delas seja a transformação da Argentina depois da morte de Diego Maradona, em 30 de novembro de 2020. Não se trata de dizer que foi ele quem ganhou os títulos do céu. Trata-se de reconhecer que, desde aquele dia, algo mudou. Mudou a seleção. Mudou Lionel Messi. Mudou a forma como a Argentina passou a competir.

Maradona sempre foi uma presença constante na vida da seleção. Esteve à beira do campo como treinador na Copa de 2010, viveu intensamente cada jogo e monopolizava as câmeras por onde passava. Em 2018, na dramática vitória sobre a Nigéria, protagonizou uma das imagens mais marcantes de sua vida, com os braços erguidos nas arquibancadas e um feixe de luz em cima de sua cabeça. Para os argentinos, Don Diego era muito mais do que um ex-jogador: era uma entidade nacional, quase uma divindade. O destino, porém, foi cruel. Ele jamais viu a Argentina conquistar outro grande título depois da Copa do Mundo de 1986.

Quase oito meses após sua morte, a Argentina venceu a Copa América no Maracanã, encerrando um jejum de 28 anos. Dias depois da partida, era impossível não lembrar que outro personagem fundamental também já não estava entre nós: Alejandro Sabella, o técnico da campanha da Copa de 2014, falecido em 8 de dezembro de 2020, apenas oito dias depois de Maradona. Dois símbolos do futebol argentino partiram sem ver a geração que enfim voltaria a colocar o país no topo. Para quem gosta de poesia no esporte, é como se Diego e Sabella tivessem se transformado em duas estrelas guiando essa equipe aguerrida, intensa e obstinada, que aprendeu a vencer dando o sangue até o último minuto.

E talvez a maior transformação tenha acontecido justamente em Messi. Ainda na semana da morte de Maradona, ele prestou uma homenagem inesquecível ao marcar um gol e reproduzir exatamente a comemoração de Diego com a camisa do Newell’s Old Boys, clube pelo qual ambos passaram. Mas a mudança foi muito além daquele gesto. O Messi reservado, quase tímido, deu lugar a um líder emocional. Na Copa do Mundo de 2022, apareceu o capitão que peitou adversários, discutiu, brigou pelo grupo e eternizou o famoso “¿Qué mirás, bobo?”. Era um Messi diferente, mais argentino do que nunca, disposto a carregar o peso da camisa e da história. Se teve uma época que ele nem cantava o hino e até pediu dispensa da seleção, dessa vez ele canta a plenos pulmões: “O juremos con gloria morir”.

Coincidência? Talvez. Futebol também vive de símbolos, de crenças e de histórias que desafiam qualquer explicação racional. Ninguém pode afirmar que a morte de Maradona mudou o destino da Argentina. Mas é impossível ignorar que, desde que Diego partiu, a seleção encontrou sua identidade definitiva, Messi alcançou a plenitude como líder e Scaloni construiu uma equipe que resgatou a essência maradoniana e, ao mesmo tempo, herdou muito da organização deixada por Sabella. Entre o céu, a terra e a Argentina, existem mistérios que a ciência talvez nunca explique. E entre Maradona, Messi e a Selección existe uma conexão que os números jamais conseguirão traduzir. Nem sempre o céu explica tudo, como se afirma na música de Henrique & Juliano.