Categoria: Futebol Argentino

Venceu o Bilardismo: Belgrano é campeão argentino pela primeira vez

Sob o comando de Zielinski, clube de Córdoba vive conquista inédita ao derrotar o favorito, River Plate

Foto: TyC Sports

O futebol argentino viveu neste domingo um daqueles capítulos que parecem escritos para virar filme. O Club Atlético Belgrano conquistou pela primeira vez um título nacional ao derrotar o River Plate por 3 a 2, no estádio Estadio Mario Alberto Kempes, e levantar o tão sonhado Torneo Apertura. Um feito histórico para um clube acostumado a lutar, sofrer e crescer na marra. Jogando praticamente em casa, empurrado por Córdoba inteira, el Pirata transformou a final em uma batalha emocional e entregou uma atuação que ficará marcada para sempre na memória de sua torcida.  

O título também simboliza uma vitória das ideias de Ricardo Zielinski, um técnico com essência bilardista, pragmático, competitivo e obcecado por sobrevivência dentro do jogo. Do outro lado estava Eduardo Coudet, identificado com um futebol mais agressivo e ofensivo, muito ligado à escola menotista. Mas foi expulso durante o jogo, inclusive. No fim, venceu o treinador que entende o caos, que sabe transformar limitação em combustível e entrega. Zielinski armou um Belgrano compacto, intenso e emocionalmente fortíssimo para suportar a pressão de enfrentar o gigante River em uma decisão.  

E não foi um título construído em um jogo isolado. O Belgrano cresceu rodada após rodada, amadureceu durante o Apertura e chegou ao mata-mata acreditando que poderia competir contra qualquer um. O time ganhou identidade, confiança e principalmente espírito coletivo. Talvez não tivesse o elenco mais estrelado do campeonato, mas teve algo que muitas equipes milionárias não conseguem comprar: fome competitiva. Em cada dividida, em cada bola disputada, o Belgrano parecia jogar pela oportunidade de mudar a própria história.

Por isso o título soa tão merecido. Porque derrubar o favorito River Plate em uma final já seria gigante por si só, mas fazer isso jogando com coragem, sangue nos olhos e sustentando emocionalmente um jogo tão pesado transforma a conquista em algo ainda maior. Córdoba virou festa, o time entrou definitivamente para a história do futebol argentino e Ricardo Zielinski eternizou seu nome no clube. O Belgrano não conquistou apenas um troféu. Conquistou um lugar eterno entre os campeões nacionais da Argentina.

Além de Scaloni, mais 5 treinadores argentinos estarão na Copa do Mundo

País da melhor escola técnica de futebol mantém tradição de exportar seus comandantes para outras seleções

Foto: TyC Sports

Seis nomes da escola técnica argentina de futebol estarão na Copa do Mundo de 2026. Além de Lionel Scaloni, atual campeão mundial com a Argentina, outros cinco treinadores argentinos representarão o país de albiceleste no maior torneio do planeta. O verdadeiro país do futebol segue exportando não apenas craques dentro de campo, mas também algumas das maiores mentes táticas do esporte. Aliás, a Argentina será novamente o país com mais técnicos na Copa do Mundo, reforçando sua influência histórica no jogo.

Desde que a Argentina conquistou a Copa do Mundo de 1978 sob o comando de César Luis Menotti e, anos depois, o Mundial de 1986 com Carlos Bilardo, o futebol argentino passou a viver uma eterna divisão filosófica. De um lado, os menottistas, defensores do jogo ofensivo, da posse de bola, da estética e da criatividade. Do outro, os bilardistas, mais pragmáticos, intensos, competitivos e obcecados pelo resultado. Em 2026, os treinadores argentinos presentes no Mundial carregarão traços dessas escolas históricas — com uma exceção importante: Marcelo Bielsa, criador de sua própria corrente, o “bielsismo”.

Marcelo Bielsa é justamente o caso mais único do futebol mundial. Comandando o Uruguai, Bielsa não é menottista nem bilardista. Sua filosofia transcende essa divisão. O “bielsismo” é baseado em intensidade máxima, pressão alta, verticalidade, obsessão tática e um futebol emocional, quase anárquico em alguns momentos. Seus times atacam o tempo inteiro, marcam individualmente em praticamente todo o campo e vivem no limite físico e mental. Bielsa influenciou treinadores como Pep Guardiola, Tata Martino, Beccacece, Sampaoli e Fernando Diniz; mesmo sem nunca ter conquistado uma Copa do Mundo. O Uruguai atual joga num ritmo sufocante, com transições rápidas e agressividade constante.

Foto: TyC Sports

Lionel Scaloni representa um equilíbrio raro entre as duas escolas. Campeão do mundo com a Argentina em 2022, Scaloni nasceu mais próximo do bilardismo pela competitividade e pela capacidade de adaptação aos jogos, mas incorporou elementos modernos e associativos que aproximam sua seleção do menottismo em alguns momentos. Sua Scaloneta” é extremamente inteligente taticamente: sabe pressionar, sabe sofrer, sabe controlar a posse e sabe atacar em velocidade. Scaloni talvez seja o grande símbolo do futebol argentino contemporâneo justamente porque não se prende a dogmas.

Gustavo Alfaro, hoje no Paraguai, é um bilardista clássico. Seus times são organizados defensivamente, intensos na marcação e emocionalmente muito competitivos. Alfaro valoriza compactação, bolas paradas e transições rápidas. Não é um treinador que prioriza espetáculo, mas sim eficiência. Foi assim que conseguiu reorganizar seleções desacreditadas ao longo da carreira. O Paraguai atual reflete exatamente isso: um time duro, físico, resiliente e extremamente difícil de enfrentar em jogos eliminatórios.

Mauricio Pochettino, comandante dos Estados Unidos, tem raízes fortíssimas no bielsismo. Foi jogador de Bielsa e absorveu muito de sua intensidade sem necessariamente copiar tudo. Seu futebol mistura pressão alta, saída de bola organizada e velocidade pelos lados do campo. Pochettino é mais equilibrado emocionalmente que el loco Bielsa e trabalha melhor os momentos de controle do jogo, mas ainda carrega essa essência ofensiva e agressiva. Dentro da divisão argentina tradicional, ele se aproxima mais do menottismo moderno.

Na mesma linha aparece Sebastián Beccacece, hoje treinador do Equador. Discípulo direto de Bielsa e ex-braço direito de Jorge Sampaoli, Beccacece vive intensamente o jogo. Seu estilo é extremamente ofensivo, vertical e agressivo sem a bola. O Equador ganhou uma identidade de pressão constante e muita velocidade pelos corredores. Em vários momentos, suas equipes parecem jogar num caos organizado, algo muito característico da influência bielsista.

Por fim, Néstor Lorenzo, técnico da Colômbia, talvez seja o mais “bilardista silencioso” entre todos. Sua equipe é extremamente equilibrada, competitiva e madura taticamente. Lorenzo não busca posse excessiva nem um futebol necessariamente vistoso. Prefere organização, intensidade sem bola e ataques objetivos, aproveitando muito a qualidade individual de seus jogadores. A Colômbia atual sabe controlar espaços e competir em alto nível contra qualquer adversário.

A Copa do Mundo de 2026 também será uma vitrine da influência argentina no futebol mundial. Seis maestros, seis estilos diferentes e três grandes correntes filosóficas: o pragmatismo bilardista, o romantismo menottista e a revolução permanente do bielsismo. A Argentina segue exportando muito mais do que jogadores. Exporta ideias, identidade e maneiras completamente distintas de enxergar o futebol.

Boca Juniors precisa salvar a temporada seguindo vivo na Libertadores

Time do presidente Riquelme tem duas semanas para decidir se o ano ainda vai prestar ou não

Foto: TyC Sports

O Boca Juniors chega nas duas últimas rodadas da fase de grupos da Libertadores pressionado e vivendo um dos momentos mais preocupantes dos últimos anos. No Grupo D ao lado de Universidad Católica, Cruzeiro e Barcelona de Guayaquil – com apenas seis pontos conquistados – o time argentino praticamente transformou os próximos jogos em decisões. Para seguir vivo no torneio continental, o Boca precisa vencer os dois compromissos restantes e ainda torcer por combinações de resultados. A situação é delicada para um clube acostumado ao protagonismo sul-americano, mas que hoje transmite muito mais insegurança do que confiança dentro de campo.

O elenco até possui nomes importantes, e o principal deles é Leandro Paredes. Campeão do Mundo com a Argentina, o volante é a grande referência técnica e emocional da equipe, mas também vive um problema importante neste momento decisivo: está pendurado com cartões amarelos. Qualquer deslize pode tirar justamente seu jogador mais experiente de uma possível partida decisiva. E em um time que já apresenta enorme dificuldade de criação, organização e personalidade, perder Paredes seria praticamente um desastre para um Boca que parece perdido taticamente. Além dele, Laurato Blaco e A. Costa também estão por um fio.

O trabalho do técnico Claudio Úbeda também vem sendo bastante questionado. O Boca se tornou um time apático, previsível e sem intensidade, muito distante da identidade histórica que sempre marcou o clube. Nem mesmo La Bombonera tem conseguido empurrar a equipe como antes. Eliminado do Apertura pelo Huracán, o clube agora concentra todas as forças na Libertadores, justamente porque já não tem outra prioridade no semestre. E talvez isso seja a única notícia minimamente positiva para um elenco que precisa acordar imediatamente para não transformar 2026 em um fracasso ainda maior.

As próximas duas semanas podem definir completamente o rumo da temporada xeneize. O Boca ainda luta para decidir se continuará vivo na Libertadores, se ao menos cairá para a Sul-Americana ou se ficará sem competições continentais no restante do ano, disputando apenas o Clausura, pois até da Copa Argentina o time já saiu. Mais do que resultados, o clube precisa aproveitar a pausa da Copa do Mundo para reorganizar ideias, ajustar o elenco sem depender de Paredes e Merentiel, para reencontrar um padrão de jogo minimamente competitivo. Porque, hoje, o Boca parece um time sem alma, sem confiança e sem futebol.

Um Menottista e um Bilardista decidem o título do Apertura na Argentina

Eduardo Coudet e Ricardo Zielinski se enfrentam em duelo de tradicionais escolas do futebol argentino

Fotos: Clarín Deportes

A final do Apertura 2026 coloca frente a frente duas ideias muito diferentes de futebol argentino. De um lado, o River Plate de Eduardo Coudet, um técnico que chegou cercado de pressão para reconstruir um clube que viveu praticamente uma década sob a identidade de Marcelo Gallardo. Mesmo com aquele intervalo antes do retorno de Gallardo, o River continuou sendo associado ao estilo intenso, dominante e competitivo que marcou sua era mais vencedora. Coudet assumiu justamente a missão mais difícil possível: criar um novo River sem apagar completamente a herança deixada pelo antigo comandante. E, aos poucos, o time começa a ganhar os traços do treinador, ainda que existam ajustes técnicos importantes a serem encontrados.

O estilo de Eduardo Coudet conversa muito com a escola mais “menottista” do futebol argentino por conta de sua inspiração em Ramón Díaz. Não necessariamente no sentido ofensivo de jogo, mas na obsessão pela competitividade, pela intensidade e pela adaptação ao contexto do que faz em campo. O River atual é um time que pressiona baixo, tenta acelerar a circulação da bola e joga com muita agressividade sem ela. Ainda existe certa irregularidade, especialmente na organização defensiva e na definição do time ideal, mas o River já demonstra uma identidade em construção. E sem a pressão de disputar a Libertadores nesta temporada, já que está na Sul-Americana, o clube vê o Apertura como prioridade absoluta. Existe também um detalhe simbólico importante: Gallardo conquistou praticamente tudo pelo River, mas nunca levantou justamente o troféu do Apertura, algo que Martín Demichelis conseguiu em sua passagem pelo clube.

Do outro lado aparece o Belgrano, de Ricardo Zielinski, um técnico extremamente respeitado no futebol argentino pela capacidade de montar equipes competitivas e emocionalmente fortes. Zielinski já passou por clubes como Atlético Tucumán, Estudiantes de La Plata, Independiente, Lanús e o próprio Belgrano em outras oportunidades. Seu futebol se aproxima mais da escola “bilardista” no sentido de valorizar organização coletiva, leitura tática e inteligência emocional durante a partida mesmo colocando a defesa como principal protagonista no jogo. O Belgrano talvez não tenha o brilho técnico do River, mas compensa com entrega, disciplina e uma capacidade enorme de competir em qualquer cenário.

A campanha do Belgrano carrega também um peso simbólico dentro do futebol argentino. Durante boa parte do campeonato, o clube foi tratado como surpresa, quase como um intruso em meio aos gigantes de Buenos Aires. Mas a verdade é que a equipe de Córdoba construiu sua vaga com méritos absolutos. O time cresceu rodada após rodada, mostrou personalidade nos jogos decisivos e chega à final sem nenhum complexo de inferioridade. Existe no Belgrano uma representação muito forte do futebol do interior argentino, historicamente menosprezado pela centralização em Buenos Aires. E talvez isso transforme essa decisão em algo ainda maior para o clube e para sua torcida.

No domingo que vem, às 15h30 da tarde, no estádio Estádio Mario Alberto Kempes, a final promete ser também um choque de filosofias. O River de Coudet tentará impor intensidade, ritmo e pressão. O Belgrano de Zielinski apostará na competitividade, na concentração e na força coletiva. Mais do que uma disputa de elenco ou camisa, será uma decisão marcada pelo confronto entre duas maneiras muito argentinas de enxergar o futebol. E o Belgrano já mostrou ao longo deste Apertura que não chegou até aqui para apenas ser coadjuvante da decisão.

Algoz do River no descenso 2011, Belgrano vai para a final do Apertura após calar La Paternal

Clube de Córdoba despachou o Argentinos Jrs nos pênaltis e jogará decisão no Mário Kempes

Foto: TyC Sports

O futebol argentino adora histórias carregadas de simbolismo, e essa final do Apertura entrega exatamente isso. O Belgrano, eternizado como o algoz do rebaixamento do River Plate em 2011, volta a cruzar o caminho dos millonarios agora em um cenário completamente diferente: uma decisão de título nacional. Em Córdoba, no estádio Mario Alberto Kempes, o clima já é de mobilização total para uma partida que promete parar o país no próximo domingo, 15h30 da tarde. Para o Belgrano, é muito mais do que uma final. É a maior oportunidade esportiva da história recente do clube. Os cordobeses chegaram na decisão após o empate em 1 vs 1 terminar na disputa de pênaltis os classificando e deixando a casa do Argentinos Juniors, La Paternal, em silêncio.

O time comandado por Ricardo Zielinski chega à decisão sendo a grande surpresa da temporada. O crescimento do Belgrano ao longo do campeonato foi construído muito mais na competitividade, na entrega e na força emocional do que propriamente em um futebol vistoso. É um time extremamente bilardista, que sabe sofrer, sabe travar o jogo e não demonstra qualquer receio de enfrentar camisas pesadas. Talvez o Argentinos Jrs tivesse um repertório técnico mais refinado para encarar o River em uma final, mas o Belgrano compensou isso na raça, no sangue, suor e lágrimas que sempre marcaram sua identidade.

Do outro lado, o River Plate de Eduardo Coudet chega pressionado pela obrigação de vencer. O time tem talento, elenco e poder ofensivo para decidir partidas grandes, mas ainda apresenta problemas claros de encaixe, principalmente defensivamente. Em alguns momentos da temporada, o River mostrou fragilidade em jogos mais físicos e emocionais, justamente o tipo de cenário em que o Belgrano costuma crescer. E finais argentinas raramente são decididas apenas na parte técnica. O emocional, a atmosfera e a capacidade de suportar pressão costumam pesar tanto quanto a qualidade individual.

Por isso, a expectativa é de uma das finais mais emocionantes dos últimos anos no futebol porteño. Existe rivalidade histórica, contexto emocional, estilos completamente diferentes e uma atmosfera de decisão continental. O campeão deste semestre carregará não apenas o título nacional, mas também a sensação de representar a força do futebol argentino em um cenário internacional cada vez mais competitivo. E, para a Argentina, que segue vivendo um período dourado no futebol, fica também aquela sensação inevitável de continuidade: a de um país que já começa a sonhar até mesmo com um possível tetracampeonato mundial daqui alguns dias.

River elimina Di María no Monumental e vai para a final do Apertura

Time de Coudet espera por Belgrano ou Argentinos Jrs na decisão

Foto: TyC Sports

O River Plate está na final do Torneio Apertura 2026 do Campeonato Argentino. A equipe comandada por Eduardo Coudet eliminou o Rosario Central liderado por Ángel Di María em um jogo muito mais brigado do que bem jogado. O River apresentou um futebol feio, pouco criativo e longe de empolgar, mas aproveitou o fator casa no Monumental e venceu graças a um pênalti convertido por Facundo Colidio. No fim, valeu o resultado. E no mata-mata argentino, muitas vezes é isso que importa.

Mas, sendo justa, o Rosario Central merecia muito mais essa vaga na decisão. O time foi mais organizado em vários momentos, competiu melhor e mostrou mais vontade de jogar futebol. Só que o futebol argentino tem dessas coisas: jogo truncado, arbitragem pressionada, clima pesado, detalhe decidindo classificação. O River, mesmo sem encantar, tem camisa, peso e experiência. E agora chega em mais uma final nacional, ainda que sem convencer totalmente sua torcida.

Do outro lado, a semifinal entre Belgrano e Argentinos Juniors vai decidir o adversário da final. Na teoria, o Argentinos Juniors parece ter muito mais futebol para agregar em uma decisão. É um time mais interessante tecnicamente e que pode entregar um jogo mais competitivo contra o River. Já o Belgrano entra muito mais pela entrega e pela força emocional. Ambos podem se complicar em uma estratégia retranqueira. Enquanto isso, a Argentina segue vivendo aquele charme absurdo do outono portenho.

Buenos Aires fica ainda mais bonita nessa época do ano, com as árvores em tons amarronzados e alaranjados tomando conta das ruas. Mesmo com o frio chegando, existe uma atmosfera muito própria do futebol argentino nessa época: estádio cheio, fumaça, camisa pesada, vinho, café e o assado que segue sendo, sem exagero, o melhor do mundo. Agora os argentinos aguardam mais uma final do River, mesmo sem brilho, porque no fim das contas o que move o futebol por lá é exatamente isso: sobreviver e ganhar.