
A segunda rodada da Copa do Mundo voltou a expor uma discussão que acompanha o futebol sul-americano há anos. Tanto Sebastián Beccacece, no Equador, quanto Marcelo Bielsa, no Uruguai, tropeçaram novamente em resultados que deixaram suas seleções em situação delicada. O Equador ficou no empate sem gols diante de Curaçao, enquanto o Uruguai empatou por 2 a 2 com Cabo Verde. Em comum, os dois jogos tiveram a marca registrada dos times comandados por discípulos da escola bielsista: muita movimentação, intensidade e volume de jogo, mas pouca capacidade de transformar superioridade em vitórias.
O chamado “bielsismo” sempre encantou torcedores, jornalistas e até outros treinadores. A proposta ofensiva, a pressão alta e a coragem para atacar são conceitos que ajudaram a revolucionar o futebol moderno. O problema é que Copa do Mundo não premia intenções. Como dizia Zagallo, um Mundial é composto por oito finais. Cada partida exige maturidade competitiva, leitura de contexto e eficiência. Quando um time cria muito e não marca, ou quando se expõe demais defensivamente em busca de um ideal estético, o resultado costuma ser o mesmo: pontos perdidos.
O empate do Equador contra Curaçao talvez seja o exemplo mais claro disso. Diante de um adversário teoricamente inferior, a seleção de Beccacece teve dificuldades para transformar posse de bola e iniciativa em chances realmente perigosas. Já o Uruguai de Bielsa conseguiu marcar duas vezes contra Cabo Verde, mas voltou a apresentar fragilidades defensivas incompatíveis com uma equipe que sonha em competir entre as melhores do mundo. São erros que não podem ser tratados como detalhes em um torneio tão curto. Em Copa do Mundo, eficiência vale tanto quanto qualidade técnica.
Talvez a exceção mais interessante entre os treinadores influenciados por Bielsa seja Mauricio Pochettino. Embora tenha absorvido conceitos do mestre argentino, seu trabalho atual nos Estados Unidos parece seguir um caminho diferente, mais próximo do menotismo e de referências como José Pekerman na Colômbia de 2014. Há mais equilíbrio entre ataque e defesa, entre ideia e resultado. E é justamente esse equilíbrio que parece faltar ao bielsismo quando o cenário é uma Copa do Mundo. Porque, no fim das contas, Mundiais não são vencidos por quem apresenta a filosofia mais sedutora, mas por quem consegue transformar boas ideias em vitórias. E, até aqui, Bielsa e seus herdeiros seguem devendo essa resposta nos momentos mais decisivos. Nem precisamos lembrar da bagunça de Jorge Sampaoli na Argentina de 2018…