América do Sul já fez curva à Direita

Como está o mapa sudaca após eleições na Colômbia. Brasil vive momento eleitoral decisivo para o continente

Foto: Brasil Paralelo

A América do Sul atravessa uma das maiores transformações políticas dos últimos anos. Depois de um longo período marcado pela presença de governos de esquerda e centro-esquerda, o continente assiste à consolidação de uma nova onda conservadora. O movimento ganhou força com a eleição de Javier Milei na Argentina, em 2023, e avançou significativamente entre 2025 e 2026. Atualmente, sete dos doze países sul-americanos são governados por presidentes identificados com a direita ou centro-direita. O fenômeno não se limita a uma única corrente ideológica: reúne liberais, conservadores tradicionais e lideranças nacionalistas, com propostas distintas, mas frequentemente associadas à redução da intervenção estatal, ao fortalecimento da segurança pública e à revisão de políticas econômicas adotadas por governos anteriores.

Na Argentina, Javier Milei tornou-se um dos principais símbolos dessa transformação, defendendo reformas econômicas liberais, austeridade fiscal e diminuição do tamanho do Estado. No Chile, José Antonio Kast, eleito em dezembro de 2025, encerrou o ciclo da esquerda de Gabriel Boric, levando ao poder uma agenda conservadora centrada na segurança, imigração e economia. No Paraguai, Santiago Peña, presidente desde 2023, representa a continuidade da tradição conservadora do Partido Colorado, com políticas favoráveis ao investimento privado e à estabilidade econômica. Já no Uruguai, Yamandú Orsi representa uma importante exceção regional: eleito em 2024 pelo Frente Amplio, mantém o país sob uma administração de centro-esquerda, demonstrando que a guinada conservadora não ocorreu de maneira uniforme em todo o continente.

A transformação também alcançou países historicamente associados à esquerda latino-americana. Na Bolívia, Rodrigo Paz, eleito em outubro de 2025, encerrou quase duas décadas de predominância política do Movimento ao Socialismo, apresentando uma alternativa de centro-direita voltada à recuperação econômica e à reorganização das finanças públicas. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella, eleito em junho de 2026, sucedeu Gustavo Petro e promoveu uma mudança significativa na orientação política do país. Conservador e defensor de medidas rigorosas contra a criminalidade, aproximou-se de lideranças internacionais de direita, incluindo Javier Milei. No Peru, Keiko Fujimori finalmente conquistou a Presidência em 2026, depois de três derrotas eleitorais anteriores, levando ao governo uma plataforma conservadora associada ao legado político de seu pai, Alberto Fujimori. No Equador, Daniel Noboa, reeleito em 2025, consolidou uma administração de centro-direita, priorizando o enfrentamento ao crime organizado, a atração de investimentos e o fortalecimento da segurança nacional.

Entretanto, nem toda a América do Sul aderiu à nova onda política. Na Venezuela, Delcy Rodríguez permanece à frente de um governo vinculado ao chavismo, movimento socialista que domina a política venezuelana há décadas. Na Guiana, Irfaan Ali, do Partido Progressista do Povo, lidera uma administração de orientação própria, historicamente associada à centro-esquerda, embora marcada por políticas favoráveis ao crescimento econômico e à exploração petrolífera. No Suriname, Jennifer Geerlings-Simons, eleita em 2025, também representa uma corrente política geralmente identificada com a esquerda. Portanto, além do Brasil, Uruguai, Venezuela, Guiana e Suriname continuam fora do bloco de governos classificados como de direita.

É justamente nesse cenário de “sulamerica azul” que o Brasil chega ao segundo turno das eleições presidenciais de 2026, marcado para 25 de outubro. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, representante da esquerda brasileira e candidato à continuidade de seu governo. Do outro, Flávio Bolsonaro, representante da direita e herdeiro político do movimento liderado por seu pai, Jair Bolsonaro. A disputa ultrapassa as fronteiras nacionais pelo peso econômico, territorial e diplomático do Brasil na América do Sul. Uma vitória de Lula preservaria o país entre os governos de esquerda e centro-esquerda da região, enquanto uma vitória de Flávio Bolsonaro ampliaria o número de administrações identificadas com a direita.

O continente mudou consideravelmente nos últimos anos, e agora os brasileiros terão a palavra final sobre o próprio destino político. No dia 25 de outubro, saberemos se o Brasil continuará vermelho no mapa ideológico sul-americano ou se também fará a curva à direita, acompanhando a transformação política vivida por grande parte de seus vizinhos.

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