Possível retorno do bilardista ao Timão pode dar novo gás à equipe após fracasso do dinizismo

A demissão de Fernando Diniz, após mais uma derrota do Corinthians no Campeonato Brasileiro, encerra um trabalho que começou cercado de expectativas, mas terminou vítima de suas próprias limitações. O dinizismo, tão celebrado por sua proposta de jogo apoiado, construção desde a defesa e valorização da posse de bola, voltou a demonstrar um problema recorrente: a dificuldade de sustentar seus princípios quando os resultados desaparecem. Com o Corinthians ameaçado pelo rebaixamento, a diretoria procura uma solução imediata. E um dos nomes mais fortes é justamente o de Ramón Díaz, treinador argentino que conhece o clube, conquistou títulos e já demonstrou capacidade de recuperar equipes em situações delicadas.
A primeira passagem de “Don Ramón” pelo Corinthians, entre julho de 2024 e abril de 2025, deixou resultados importantes. Contratado quando o clube enfrentava uma séria ameaça de rebaixamento, o argentino reorganizou a equipe, recuperou a competitividade e protagonizou uma arrancada impressionante de nove vitórias consecutivas na reta final do Brasileirão de 2024. O trabalho ganhou sua maior recompensa em março de 2025, quando o Corinthians conquistou o Campeonato Paulista diante do Palmeiras, encerrando um jejum de seis anos sem títulos. Ramón tornou-se o primeiro treinador argentino a conquistar o Paulistão pelo clube, deixando uma marca significativa na história alvinegra.
Entretanto, falar de Ramón Díaz significa necessariamente falar de Emiliano Díaz, seu filho e auxiliar técnico. Os dois formam uma parceria consolidada há muitos anos, construída sobre confiança, divisão de responsabilidades e uma compreensão compartilhada do futebol. Emiliano está longe de ser um simples assistente de banco de reservas. Participa diretamente dos treinamentos, da preparação tática, da organização ofensiva e defensiva e da comunicação com os jogadores. Enquanto Ramón representa a experiência, a liderança e a autoridade da comissão técnica, Emiliano acrescenta intensidade, participação ativa e proximidade com o elenco.
Um eventual retorno ao Corinthians significaria, portanto, a volta de uma dupla que já conhece os bastidores, as exigências e a pressão de trabalhar no Parque São Jorge. Do ponto de vista futebolístico, Ramón Díaz representa uma escola argentina bastante diferente daquela defendida por Fernando Diniz. Natural de La Rioja e revelado como jogador pelo River Plate, Ramón construiu sua identidade dentro de uma cultura futebolística marcada pela competitividade e pelo pragmatismo. Seu trabalho apresenta características que podem ser associadas ao bilardismo, embora não seja correto classificá-lo como discípulo direto de Carlos Salvador Bilardo. Assim como a corrente bilardista, Ramón valoriza a organização coletiva, a disciplina tática, a adaptação ao adversário e, sobretudo, a eficiência competitiva.
Não existe obrigação de dominar a posse de bola ou construir jogadas elaboradas desde o goleiro. O importante é compreender as circunstâncias da partida e encontrar os caminhos necessários para vencer. É justamente nesse aspecto que aparece o grande contraponto ao dinizismo. Enquanto Fernando Diniz procura estabelecer uma identidade baseada na circulação da bola, na aproximação entre jogadores e na construção ofensiva desde o campo defensivo, Ramón Díaz costuma trabalhar com maior flexibilidade. Suas equipes podem explorar transições rápidas, utilizar diferentes sistemas defensivos, fortalecer a marcação e buscar soluções mais diretas quando necessário. Isso não significa abandonar a qualidade técnica ou jogar exclusivamente de maneira defensiva. Significa compreender que o futebol oferece diferentes caminhos para alcançar o resultado.
O dinizismo exige que os jogadores se adaptem a uma ideia muito particular de futebol; o pragmatismo de Ramón procura adaptar a ideia às características dos jogadores disponíveis. Para o Corinthians atual, essa mudança poderia representar um benefício imediato. Em um momento de instabilidade, a equipe necessita recuperar a confiança, diminuir os espaços oferecidos aos adversários e voltar a competir com intensidade. Ramón e Emiliano já demonstraram capacidade de trabalhar sob pressão e conhecem parte dos jogadores que encontrariam novamente no clube. A experiência anterior também reduziria o período de adaptação, algo fundamental em uma competição na qual cada ponto pode fazer diferença.
Evidentemente, o retorno não seria garantia de sucesso, especialmente porque o próprio trabalho da dupla apresentou oscilações antes da saída em 2025. O possível reencontro entre Ramón Díaz e Corinthians também coloca em discussão duas maneiras distintas de compreender o futebol. De um lado, o dinizismo, com sua proposta autoral, estética e de forte identidade posicional-relacional, mas que frequentemente encontra dificuldades quando perde eficiência e confiança. Do outro, uma abordagem argentina mais pragmática, próxima de princípios bilardistas, que entende a vitória como consequência da preparação, da organização e da capacidade de adaptação.
O Corinthians não precisa necessariamente de um futebol bonito ou de longas sequências de passes. Precisa, antes de tudo, recuperar sua competitividade. E Ramón Díaz, ao lado de Emiliano, já mostrou que sabe conduzir esse processo. Se o retorno realmente acontecer, será mais uma oportunidade para a dupla argentina demonstrar que conhece os caminhos para reconstruir um Corinthians em crise. O mesmo treinador que chegou em 2024 para afastar o fantasma do rebaixamento e terminou levantando uma taça diante do maior rival poderá encontrar novamente um clube pressionado, necessitando de respostas urgentes. Mais do que uma simples troca de treinadores, seria uma mudança de filosofia: sair da rigidez de uma identidade de jogo para buscar a flexibilidade de um futebol orientado pelas circunstâncias. Afinal, uma das grandes lições associadas ao bilardismo é que não basta ter uma ideia de futebol. É preciso saber utilizá-la para competir e vencer.