Treinador próximo de Riquelme desde os tempos de atleta já comandou o time há dez anos
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O possível retorno de Rodolfo Arruabarrena ao Boca Juniors, dez anos após sua primeira passagem, mostra como o clube parece buscar mais segurança do que revolução para o futuro próximo. Em um momento em que muitos torcedores sonham com nomes de grande impacto ou projetos mais ousados, a diretoria parece olhar para alguém que conhece profundamente a casa, entende a pressão da Bombonera e já conquistou títulos vestindo o azul e ouro. Além disso, existe uma relação de confiança com Juan Román Riquelme que vem de longa data. Os dois foram companheiros no Villarreal, da Espanha, experiência que certamente ajuda a explicar por que o atual presidente do Boca vê Arruabarrena como uma opção confiável para o cargo.
Quando se analisa seu trabalho como treinador, fica difícil enquadrá-lo totalmente na eterna disputa argentina entre menottistas e bilardistas. Arruabarrena não é um adepto fanático da posse de bola nem da busca pelo espetáculo acima de tudo. Ao mesmo tempo, também não representa o pragmatismo extremo que muitos associam ao bilardismo clássico. Seu futebol costuma ser equilibrado, com preocupação tática, organização defensiva e liberdade para adaptar o plano de jogo conforme o adversário.
Talvez por isso ele esteja mais próximo de uma versão moderna da escola bilardista, com muitas nuances do bianchismo (escola de Carlos Bianchi), sua porta de entrada no futebol. Seus times normalmente priorizam a competitividade e os resultados, sem abrir mão de certa qualidade na construção das jogadas. É uma visão que combina bastante com a identidade histórica do Boca Juniors, clube que tradicionalmente valoriza a entrega, a personalidade e a capacidade de vencer em cenários adversos. Na Bombonera, ganhar continua sendo a palavra mais importante do dicionário.
A questão é saber se esse perfil ainda é suficiente para um Boca que vive pressionado pela comparação com seus rivais continentais e pela obsessão de voltar a conquistar a Libertadores. Arruabarrena pode oferecer estabilidade, conhecimento do ambiente e uma sintonia natural com Riquelme, mas dificilmente será visto como um técnico capaz de promover uma transformação profunda. Se sua contratação se confirmar, a mensagem da diretoria será clara: antes de pensar em reinventar o Boca, é preciso fazê-lo voltar a competir em alto nível. E vai ser difícil.
Riquelme confirmou que vai despachar Claudio Úbeda. Gareca é desejo antigo do clube
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A possível chegada de Ricardo Gareca ao Boca Juniors desperta curiosidade não apenas pelo peso de seu nome no futebol sul-americano, mas também pelo estilo de jogo que costuma implementar em suas equipes. Ao longo da carreira, o treinador argentino construiu uma identidade baseada em organização tática, equilíbrio entre defesa e ataque e valorização da posse de bola. Considerado por muitos um técnico de influência menottista, Gareca costuma defender um futebol propositivo, com equipes que buscam controlar as partidas através da técnica e da construção das jogadas.
Diferentemente de treinadores que apostam em um futebol excessivamente defensivo ou totalmente ofensivo, Gareca procura um ponto de equilíbrio. Suas equipes geralmente apresentam linhas compactas, boa ocupação de espaços e uma saída de bola trabalhada desde a defesa. O objetivo é controlar o ritmo do jogo e reduzir os erros que possam oferecer oportunidades ao adversário, sem abrir mão da busca pelo protagonismo.
Outro ponto marcante de seu trabalho é a confiança nos jogadores de velocidade pelos lados do campo. Gareca gosta de equipes capazes de acelerar as jogadas rapidamente após recuperar a posse, explorando os espaços deixados pelos rivais. Ao mesmo tempo, costuma exigir bastante movimentação dos atacantes, que participam não apenas da finalização das jogadas, mas também da construção ofensiva.
A passagem histórica pela seleção peruana talvez seja o melhor exemplo de sua filosofia. Sob seu comando, o Peru apresentou um futebol competitivo, organizado e, em muitos momentos, bastante agradável de assistir vivendo a melhor fase da seleção peruana até hoje. Gareca conseguiu potencializar atletas que não eram considerados estrelas internacionais e transformou o conjunto em sua principal força, algo que costuma ser uma de suas maiores virtudes.
Nos bastidores do Boca Juniors, cresce a expectativa de que essa filosofia possa desembarcar em La Bombonera nos próximos meses. Após a confirmação de Juan Román Riquelme de que Claudio Úbeda não seguirá no comando da equipe, a tendência é que a mudança seja oficializada ao fim de junho. O grande sonho da diretoria é contar com Ricardo Gareca já em julho, durante a pausa da Copa do Mundo, iniciando um novo ciclo em um dos clubes mais exigentes do continente. Caso a negociação avance, o Boca apostará em um treinador experiente, identificado com um futebol de proposta ofensiva e que acredita na força do jogo coletivo para alcançar resultados.
Sob o comando de Zielinski, clube de Córdoba vive conquista inédita ao derrotar o favorito, River Plate
Foto: TyC Sports
O futebol argentino viveu neste domingo um daqueles capítulos que parecem escritos para virar filme. O Club Atlético Belgrano conquistou pela primeira vez um título nacional ao derrotar o River Plate por 3 a 2, no estádio Estadio Mario Alberto Kempes, e levantar o tão sonhado Torneo Apertura. Um feito histórico para um clube acostumado a lutar, sofrer e crescer na marra. Jogando praticamente em casa, empurrado por Córdoba inteira, elPirata transformou a final em uma batalha emocional e entregou uma atuação que ficará marcada para sempre na memória de sua torcida.
O título também simboliza uma vitória das ideias de Ricardo Zielinski, um técnico com essência bilardista, pragmático, competitivo e obcecado por sobrevivência dentro do jogo. Do outro lado estava Eduardo Coudet, identificado com um futebol mais agressivo e ofensivo, muito ligado à escola menotista. Mas foi expulso durante o jogo, inclusive. No fim, venceu o treinador que entende o caos, que sabe transformar limitação em combustível e entrega. Zielinski armou um Belgrano compacto, intenso e emocionalmente fortíssimo para suportar a pressão de enfrentar o gigante River em uma decisão.
E não foi um título construído em um jogo isolado. O Belgrano cresceu rodada após rodada, amadureceu durante o Apertura e chegou ao mata-mata acreditando que poderia competir contra qualquer um. O time ganhou identidade, confiança e principalmente espírito coletivo. Talvez não tivesse o elenco mais estrelado do campeonato, mas teve algo que muitas equipes milionárias não conseguem comprar: fome competitiva. Em cada dividida, em cada bola disputada, o Belgrano parecia jogar pela oportunidade de mudar a própria história.
Por isso o título soa tão merecido. Porque derrubar o favorito River Plate em uma final já seria gigante por si só, mas fazer isso jogando com coragem, sangue nos olhos e sustentando emocionalmente um jogo tão pesado transforma a conquista em algo ainda maior. Córdoba virou festa, o time entrou definitivamente para a história do futebol argentino e Ricardo Zielinski eternizou seu nome no clube. O Belgrano não conquistou apenas um troféu. Conquistou um lugar eterno entre os campeões nacionais da Argentina.
País da melhor escola técnica de futebol mantém tradição de exportar seus comandantes para outras seleções
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Seis nomes da escola técnica argentina de futebol estarão na Copa do Mundo de 2026. Além de Lionel Scaloni, atual campeão mundial com a Argentina, outros cinco treinadores argentinos representarão o país de albiceleste no maior torneio do planeta. O verdadeiro país do futebol segue exportando não apenas craques dentro de campo, mas também algumas das maiores mentes táticas do esporte. Aliás, a Argentina será novamente o país com mais técnicos na Copa do Mundo, reforçando sua influência histórica no jogo.
Desde que a Argentina conquistou a Copa do Mundo de 1978 sob o comando de César Luis Menotti e, anos depois, o Mundial de 1986 com Carlos Bilardo, o futebol argentino passou a viver uma eterna divisão filosófica. De um lado, os menottistas, defensores do jogo ofensivo, da posse de bola, da estética e da criatividade. Do outro, os bilardistas, mais pragmáticos, intensos, competitivos e obcecados pelo resultado. Em 2026, os treinadores argentinos presentes no Mundial carregarão traços dessas escolas históricas — com uma exceção importante: Marcelo Bielsa, criador de sua própria corrente, o “bielsismo”.
Marcelo Bielsa é justamente o caso mais único do futebol mundial. Comandando o Uruguai, Bielsa não é menottista nem bilardista. Sua filosofia transcende essa divisão. O “bielsismo” é baseado em intensidade máxima, pressão alta, verticalidade, obsessão tática e um futebol emocional, quase anárquico em alguns momentos. Seus times atacam o tempo inteiro, marcam individualmente em praticamente todo o campo e vivem no limite físico e mental. Bielsa influenciou treinadores como Pep Guardiola, Tata Martino, Beccacece, Sampaoli e Fernando Diniz; mesmo sem nunca ter conquistado uma Copa do Mundo. O Uruguai atual joga num ritmo sufocante, com transições rápidas e agressividade constante.
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Já Lionel Scaloni representa um equilíbrio raro entre as duas escolas. Campeão do mundo com a Argentina em 2022, Scaloni nasceu mais próximo do bilardismo pela competitividade e pela capacidade de adaptação aos jogos, mas incorporou elementos modernos e associativos que aproximam sua seleção do menottismo em alguns momentos. Sua“Scaloneta” é extremamente inteligente taticamente: sabe pressionar, sabe sofrer, sabe controlar a posse e sabe atacar em velocidade. Scaloni talvez seja o grande símbolo do futebol argentino contemporâneo justamente porque não se prende a dogmas.
Gustavo Alfaro, hoje no Paraguai, é um bilardista clássico. Seus times são organizados defensivamente, intensos na marcação e emocionalmente muito competitivos. Alfaro valoriza compactação, bolas paradas e transições rápidas. Não é um treinador que prioriza espetáculo, mas sim eficiência. Foi assim que conseguiu reorganizar seleções desacreditadas ao longo da carreira. O Paraguai atual reflete exatamente isso: um time duro, físico, resiliente e extremamente difícil de enfrentar em jogos eliminatórios.
Mauricio Pochettino, comandante dos Estados Unidos, tem raízes fortíssimas no bielsismo. Foi jogador de Bielsa e absorveu muito de sua intensidade sem necessariamente copiar tudo. Seu futebol mistura pressão alta, saída de bola organizada e velocidade pelos lados do campo. Pochettino é mais equilibrado emocionalmente que el loco Bielsa e trabalha melhor os momentos de controle do jogo, mas ainda carrega essa essência ofensiva e agressiva. Dentro da divisão argentina tradicional, ele se aproxima mais do menottismo moderno.
Na mesma linha aparece Sebastián Beccacece, hoje treinador do Equador. Discípulo direto de Bielsa e ex-braço direito de Jorge Sampaoli, Beccacece vive intensamente o jogo. Seu estilo é extremamente ofensivo, vertical e agressivo sem a bola. O Equador ganhou uma identidade de pressão constante e muita velocidade pelos corredores. Em vários momentos, suas equipes parecem jogar num caos organizado, algo muito característico da influência bielsista.
Por fim, Néstor Lorenzo, técnico da Colômbia, talvez seja o mais “bilardista silencioso” entre todos. Sua equipe é extremamente equilibrada, competitiva e madura taticamente. Lorenzo não busca posse excessiva nem um futebol necessariamente vistoso. Prefere organização, intensidade sem bola e ataques objetivos, aproveitando muito a qualidade individual de seus jogadores. A Colômbia atual sabe controlar espaços e competir em alto nível contra qualquer adversário.
A Copa do Mundo de 2026 também será uma vitrine da influência argentina no futebol mundial. Seis maestros, seis estilos diferentes e três grandes correntes filosóficas: o pragmatismo bilardista, o romantismo menottista e a revolução permanente do bielsismo. A Argentina segue exportando muito mais do que jogadores. Exporta ideias, identidade e maneiras completamente distintas de enxergar o futebol.
Time do presidente Riquelme tem duas semanas para decidir se o ano ainda vai prestar ou não
Foto: TyC Sports
O Boca Juniors chega nas duas últimas rodadas da fase de grupos da Libertadores pressionado e vivendo um dos momentos mais preocupantes dos últimos anos. No Grupo D ao lado de Universidad Católica, Cruzeiro e Barcelona de Guayaquil – com apenas seis pontos conquistados – o time argentino praticamente transformou os próximos jogos em decisões. Para seguir vivo no torneio continental, o Boca precisa vencer os dois compromissos restantes e ainda torcer por combinações de resultados. A situação é delicada para um clube acostumado ao protagonismo sul-americano, mas que hoje transmite muito mais insegurança do que confiança dentro de campo.
O elenco até possui nomes importantes, e o principal deles é Leandro Paredes. Campeão do Mundo com a Argentina, o volante é a grande referência técnica e emocional da equipe, mas também vive um problema importante neste momento decisivo: está pendurado com cartões amarelos. Qualquer deslize pode tirar justamente seu jogador mais experiente de uma possível partida decisiva. E em um time que já apresenta enorme dificuldade de criação, organização e personalidade, perder Paredes seria praticamente um desastre para um Boca que parece perdido taticamente. Além dele, Laurato Blaco e A. Costa também estão por um fio.
O trabalho do técnico Claudio Úbeda também vem sendo bastante questionado. O Boca se tornou um time apático, previsível e sem intensidade, muito distante da identidade histórica que sempre marcou o clube. Nem mesmo La Bombonera tem conseguido empurrar a equipe como antes. Eliminado do Apertura pelo Huracán, o clube agora concentra todas as forças na Libertadores, justamente porque já não tem outra prioridade no semestre. E talvez isso seja a única notícia minimamente positiva para um elenco que precisa acordar imediatamente para não transformar 2026 em um fracasso ainda maior.
As próximas duas semanas podem definir completamente o rumo da temporada xeneize. O Boca ainda luta para decidir se continuará vivo na Libertadores, se ao menos cairá para a Sul-Americana ou se ficará sem competições continentais no restante do ano, disputando apenas o Clausura, pois até da Copa Argentina o time já saiu. Mais do que resultados, o clube precisa aproveitar a pausa da Copa do Mundo para reorganizar ideias, ajustar o elenco sem depender de Paredes e Merentiel, para reencontrar um padrão de jogo minimamente competitivo. Porque, hoje, o Boca parece um time sem alma, sem confiança e sem futebol.
Eduardo Coudet e Ricardo Zielinski se enfrentam em duelo de tradicionais escolas do futebol argentino
Fotos: Clarín Deportes
A final do Apertura 2026 coloca frente a frente duas ideias muito diferentes de futebol argentino. De um lado, o River Plate de Eduardo Coudet, um técnico que chegou cercado de pressão para reconstruir um clube que viveu praticamente uma década sob a identidade de Marcelo Gallardo. Mesmo com aquele intervalo antes do retorno de Gallardo, o River continuou sendo associado ao estilo intenso, dominante e competitivo que marcou sua era mais vencedora. Coudet assumiu justamente a missão mais difícil possível: criar um novo River sem apagar completamente a herança deixada pelo antigo comandante. E, aos poucos, o time começa a ganhar os traços do treinador, ainda que existam ajustes técnicos importantes a serem encontrados.
O estilo de Eduardo Coudet conversa muito com a escola mais “menottista” do futebol argentino por conta de sua inspiração em Ramón Díaz. Não necessariamente no sentido ofensivo de jogo, mas na obsessão pela competitividade, pela intensidade e pela adaptação ao contexto do que faz em campo. O River atual é um time que pressiona baixo, tenta acelerar a circulação da bola e joga com muita agressividade sem ela. Ainda existe certa irregularidade, especialmente na organização defensiva e na definição do time ideal, mas o River já demonstra uma identidade em construção. E sem a pressão de disputar a Libertadores nesta temporada, já que está na Sul-Americana, o clube vê o Apertura como prioridade absoluta. Existe também um detalhe simbólico importante: Gallardo conquistou praticamente tudo pelo River, mas nunca levantou justamente o troféu do Apertura, algo que Martín Demichelis conseguiu em sua passagem pelo clube.
Do outro lado aparece o Belgrano, de Ricardo Zielinski, um técnico extremamente respeitado no futebol argentino pela capacidade de montar equipes competitivas e emocionalmente fortes. Zielinski já passou por clubes como Atlético Tucumán, Estudiantes de La Plata, Independiente, Lanús e o próprio Belgrano em outras oportunidades. Seu futebol se aproxima mais da escola “bilardista” no sentido de valorizar organização coletiva, leitura tática e inteligência emocional durante a partida mesmo colocando a defesa como principal protagonista no jogo. O Belgrano talvez não tenha o brilho técnico do River, mas compensa com entrega, disciplina e uma capacidade enorme de competir em qualquer cenário.
A campanha do Belgrano carrega também um peso simbólico dentro do futebol argentino. Durante boa parte do campeonato, o clube foi tratado como surpresa, quase como um intruso em meio aos gigantes de Buenos Aires. Mas a verdade é que a equipe de Córdoba construiu sua vaga com méritos absolutos. O time cresceu rodada após rodada, mostrou personalidade nos jogos decisivos e chega à final sem nenhum complexo de inferioridade. Existe no Belgrano uma representação muito forte do futebol do interior argentino, historicamente menosprezado pela centralização em Buenos Aires. E talvez isso transforme essa decisão em algo ainda maior para o clube e para sua torcida.
No domingo que vem, às 15h30 da tarde, no estádio Estádio Mario Alberto Kempes, a final promete ser também um choque de filosofias. O River de Coudet tentará impor intensidade, ritmo e pressão. O Belgrano de Zielinski apostará na competitividade, na concentração e na força coletiva. Mais do que uma disputa de elenco ou camisa, será uma decisão marcada pelo confronto entre duas maneiras muito argentinas de enxergar o futebol. E o Belgrano já mostrou ao longo deste Apertura que não chegou até aqui para apenas ser coadjuvante da decisão.