Categoria: Futebol Argentino

Algoz do River no descenso 2011, Belgrano vai para a final do Apertura após calar La Paternal

Clube de Córdoba despachou o Argentinos Jrs nos pênaltis e jogará decisão no Mário Kempes

Foto: TyC Sports

O futebol argentino adora histórias carregadas de simbolismo, e essa final do Apertura entrega exatamente isso. O Belgrano, eternizado como o algoz do rebaixamento do River Plate em 2011, volta a cruzar o caminho dos millonarios agora em um cenário completamente diferente: uma decisão de título nacional. Em Córdoba, no estádio Mario Alberto Kempes, o clima já é de mobilização total para uma partida que promete parar o país no próximo domingo, 15h30 da tarde. Para o Belgrano, é muito mais do que uma final. É a maior oportunidade esportiva da história recente do clube. Os cordobeses chegaram na decisão após o empate em 1 vs 1 terminar na disputa de pênaltis os classificando e deixando a casa do Argentinos Juniors, La Paternal, em silêncio.

O time comandado por Ricardo Zielinski chega à decisão sendo a grande surpresa da temporada. O crescimento do Belgrano ao longo do campeonato foi construído muito mais na competitividade, na entrega e na força emocional do que propriamente em um futebol vistoso. É um time extremamente bilardista, que sabe sofrer, sabe travar o jogo e não demonstra qualquer receio de enfrentar camisas pesadas. Talvez o Argentinos Jrs tivesse um repertório técnico mais refinado para encarar o River em uma final, mas o Belgrano compensou isso na raça, no sangue, suor e lágrimas que sempre marcaram sua identidade.

Do outro lado, o River Plate de Eduardo Coudet chega pressionado pela obrigação de vencer. O time tem talento, elenco e poder ofensivo para decidir partidas grandes, mas ainda apresenta problemas claros de encaixe, principalmente defensivamente. Em alguns momentos da temporada, o River mostrou fragilidade em jogos mais físicos e emocionais, justamente o tipo de cenário em que o Belgrano costuma crescer. E finais argentinas raramente são decididas apenas na parte técnica. O emocional, a atmosfera e a capacidade de suportar pressão costumam pesar tanto quanto a qualidade individual.

Por isso, a expectativa é de uma das finais mais emocionantes dos últimos anos no futebol porteño. Existe rivalidade histórica, contexto emocional, estilos completamente diferentes e uma atmosfera de decisão continental. O campeão deste semestre carregará não apenas o título nacional, mas também a sensação de representar a força do futebol argentino em um cenário internacional cada vez mais competitivo. E, para a Argentina, que segue vivendo um período dourado no futebol, fica também aquela sensação inevitável de continuidade: a de um país que já começa a sonhar até mesmo com um possível tetracampeonato mundial daqui alguns dias.

River elimina Di María no Monumental e vai para a final do Apertura

Time de Coudet espera por Belgrano ou Argentinos Jrs na decisão

Foto: TyC Sports

O River Plate está na final do Torneio Apertura 2026 do Campeonato Argentino. A equipe comandada por Eduardo Coudet eliminou o Rosario Central liderado por Ángel Di María em um jogo muito mais brigado do que bem jogado. O River apresentou um futebol feio, pouco criativo e longe de empolgar, mas aproveitou o fator casa no Monumental e venceu graças a um pênalti convertido por Facundo Colidio. No fim, valeu o resultado. E no mata-mata argentino, muitas vezes é isso que importa.

Mas, sendo justa, o Rosario Central merecia muito mais essa vaga na decisão. O time foi mais organizado em vários momentos, competiu melhor e mostrou mais vontade de jogar futebol. Só que o futebol argentino tem dessas coisas: jogo truncado, arbitragem pressionada, clima pesado, detalhe decidindo classificação. O River, mesmo sem encantar, tem camisa, peso e experiência. E agora chega em mais uma final nacional, ainda que sem convencer totalmente sua torcida.

Do outro lado, a semifinal entre Belgrano e Argentinos Juniors vai decidir o adversário da final. Na teoria, o Argentinos Juniors parece ter muito mais futebol para agregar em uma decisão. É um time mais interessante tecnicamente e que pode entregar um jogo mais competitivo contra o River. Já o Belgrano entra muito mais pela entrega e pela força emocional. Ambos podem se complicar em uma estratégia retranqueira. Enquanto isso, a Argentina segue vivendo aquele charme absurdo do outono portenho.

Buenos Aires fica ainda mais bonita nessa época do ano, com as árvores em tons amarronzados e alaranjados tomando conta das ruas. Mesmo com o frio chegando, existe uma atmosfera muito própria do futebol argentino nessa época: estádio cheio, fumaça, camisa pesada, vinho, café e o assado que segue sendo, sem exagero, o melhor do mundo. Agora os argentinos aguardam mais uma final do River, mesmo sem brilho, porque no fim das contas o que move o futebol por lá é exatamente isso: sobreviver e ganhar.

Di María comanda Rosario Central no mata-mata do Campeonato Argentino

Vivendo o sonho de seu retorno triunfal ao time do coração, craque mostra que é sim o Top 3 da história na terra de Messi

Foto: TyC Sports

O Rosario Central segue embalado no mata-mata do Campeonato Argentino e venceu o Independiente por 3 a 1 em uma atuação que mostrou muito mais do que talento. Mostrou personalidade. O time saiu atrás no placar, mas buscou a virada com gols de Ángel Di María, Cantizano e Verón, confirmando a classificação e incendiando o Gigante de Arroyito mais uma vez. E quando o jogo apertou, apareceu ele: Di María. O camisa 11 chamou a responsabilidade, empatou a partida ainda no fim do primeiro tempo e liderou emocionalmente um time que parece acreditar muito no próprio destino.

Di María está vivendo uma das fases mais bonitas da carreira. Talvez não pela explosão física de antigamente, mas pela conexão emocional com o futebol. Jogando no clube do coração, com a braçadeira de capitão, ele parece leve, feliz e completamente entregue ao Rosário Central. Para muita gente, inclusive para mim, Ángel Di María já está no top 3 da história do futebol argentino. Acima dele, só Messi e Maradona — e aí cada um escolhe sua ordem. “Dimagia” tem algo que poucos tiveram: protagonismo em geração campeã, gols decisivos, carreira gigantesca na Europa e agora esse retorno quase poético ao clube onde tudo começou.

Esse Rosario Central também carrega muito da identidade que Miguel Ángel Russo deixou antes de sua saída. É um time competitivo, intenso, emocionalmente forte e que sabe sofrer. Existe ali uma mistura curiosa entre o pragmatismo do bilardismo e momentos de futebol mais ofensivo e associativo nas linhas Lavolpianas aplicadas pelo técnico Jorge Almirón. Não é um time preso a um único modelo. Ele sabe pressionar, sabe atacar espaço, sabe jogar com o coração argentino que transforma mata-mata em guerra emocional. E quando você junta isso com um líder técnico como Di María, o Rosario Central vira um adversário perigosíssimo.

A sensação é que o Central chegou no momento certo da temporada. Embalado, confiante e com um estádio pulsando junto. Em mata-mata argentino, isso pesa demais. O time pode, sim, chegar a mais uma final. E se isso acontecer, vai ter muito da genialidade de Di María, mas também muito do espírito coletivo construído nos últimos anos. O time da cidade abençoada do futebol porteño voltou a ser aquela equipe chata, competitiva e apaixonante que ninguém gosta de enfrentar quando o campeonato entra na fase decisiva.

Feliz cumpleaños, Maestro Bilardo

Maior técnico da história da Argentina, ‘el doctor’ completa 88 anos de vida, enfrentando doença degenerativa

Foto: Clarín Deportes

O maestro mor do futebol, Carlos Bilardo completou nesta semana, 88 anos de vida. Figura emblemática do futebol argentino, ele não é apenas lembrado pelos títulos, mas principalmente por ter criado uma filosofia própria dentro do esporte. Para muitos, é o maior treinador da história da Seleção Argentina, alguém que transformou a forma de competir e pensar o jogo, sempre com um olhar obsessivo pelos detalhes e pela vitória. “El doctor” foi um técnico muito além dos gramados, usando sua profissão, a Medicina, para ter um estilo diferenciado e uma visão única que o fez ser lendário.

A consagração máxima veio na Copa do Mundo FIFA de 1986, quando liderou a Argentina ao título mundial, tendo como grande protagonista Diego Maradona. A conquista não apenas eternizou seu nome, como também consolidou o chamado “Bilardismo” — uma escola que valoriza estratégia, disciplina tática e o resultado acima de qualquer estética. Bilardo não queria só ganhar, queria controlar cada variável possível dentro de um jogo. Da sua ‘escola’ saíram devotos como Diego Simeone, Carlos Bianchi, Diego Dabove, Lionel Scaloni e Alejandro Sabella.

Mas a genialidade de Bilardo sempre veio acompanhada de histórias peculiares, quase folclóricas. Uma das mais conhecidas aconteceu em 2004, quando, comandando o Estudiantes de La Plata, deu uma mistura de coca-cola com cafiaspirina ao jogador Marcos Angeleri durante uma partida contra o Quilmes. A ideia? Ajudar na recuperação física, o acordar e manter o atleta em campo, evidenciando seu estilo nada convencional e sua disposição de ir além dos métodos tradicionais.

Atualmente, Bilardo enfrenta uma doença degenerativa desde 2014, vivendo de forma mais reservada em casa, cercado de cuidados e carinho. Ainda assim, segue recebendo visitas frequentes, especialmente de ex-jogadores daquela geração histórica de 1986, que fazem questão de retribuir tudo o que ele representou em suas carreiras. Nos últimos anos, seu estado tem sido considerado estável, dentro das limitações da doença, e há um conforto simbólico que emociona: ele pôde ver e reconhecer a conquista da Seleção Argentina na Copa do Mundo FIFA de 2022.

Existe uma imagem marcante dele, sentado no sofá, assistindo a uma entrevista de Lionel Messi com a taça nas mãos — um retrato silencioso de alguém que ajudou a construir o caminho para que a Argentina voltasse ao topo do mundo. Entre a genialidade e a obsessão, Bilardo construiu uma carreira que vai muito além das quatro linhas. Sua influência segue viva no futebol argentino até hoje, dividindo opiniões, mas sempre impondo respeito. Afinal, poucos treinadores conseguiram deixar uma marca tão forte, criando não só um time vencedor, mas uma verdadeira forma de enxergar o futebol.

(Foto feita na última segunda (16), dia em que Bilardo comemorou seu aniversário em casa)

River Plate: Coudet estreia com vitória e já imprime seu estilo de jogo

Los millonarios venceram o Huracán no Estádio Tomás Ducó com gols de Driussi e Montiel

Foto: TyC Sports

A estreia de Eduardo Coudet no comando do River Plate começou com vitória. Jogando no tradicional Estádio Tomás Adolfo Ducó, em Buenos Aires, o River venceu o Huracán por 2 a 1, dando os primeiros sinais do que o treinador pretende implementar na equipe. Foi um jogo de estreia com alguns ajustes ainda em andamento, mas já com ideias claras dentro de campo.

Coudet armou o River no esquema 4-2-3-1, estrutura que costuma privilegiar intensidade na pressão e movimentação constante no ataque. O time tentou ocupar o campo ofensivo e acelerar as transições, características marcantes do estilo do treinador. Dentro desse desenho, o River encontrou seus gols com Sebastián Driussi e Gonzalo Montiel, que garantiram o resultado positivo logo na primeira partida da nova era.

Apesar da vitória, ficou claro que a equipe ainda está em fase de adaptação ao modelo de jogo. O River conseguiu chegar ao ataque em diversos momentos, mas ainda carece de maior precisão nos encaixes das jogadas e, principalmente, nas finalizações. A construção ofensiva mostrou bons sinais, mas a definição das jogadas ainda precisa evoluir para transformar volume em gols.

Para um primeiro jogo, no entanto, o saldo é positivo. Vencer fora de casa contra um adversário tradicional como o Huracán sempre tem peso, ainda mais em um cenário de início de trabalho. Agora, o desafio de Coudet será ajustar os mecanismos ofensivos e dar mais fluidez ao time para que o River consiga transformar sua proposta de jogo em um futebol mais contundente nas próximas rodadas.

A próxima parada já tem data e palco especial: a estreia de Coudet diante da torcida no Monumental de Núñez será neste domingo, contra o Sarmiento, no que promete ser o primeiro grande teste do novo River dentro de casa. A torcida tem se mostrado ansiosa para a nova era do clube, dessa vez longe de Gallardo! ⚽

Trabalho de Crespo exige tempo, assim como o de Gareca

Dois dos melhores técnicos argentinos da atualidade precisam de mercado estável para seus estilos darem resultado

Foto: TyC Sports

No futebol sul-americano, é interessante observar como o trabalho de Hernán Crespo dialoga em vários pontos com a filosofia de Ricardo Gareca. Os dois treinadores não são do tipo que chegam prometendo revoluções imediatas. Pelo contrário: apostam em organização tática, repetição de movimentos e construção de identidade. Isso faz com que seus trabalhos muitas vezes precisem de tempo para maturar, algo cada vez mais raro no futebol brasileiro, onde a ansiedade por resultados costuma atropelar processos.

Taticamente, Crespo costuma montar equipes muito estruturadas. Em seus melhores momentos, como no título da Copa Sul-Americana de 2020 pelo Defensa y Justicia, utilizou variações com três zagueiros, alas muito participativos e saída de bola bem trabalhada desde a defesa. É um treinador que valoriza pressão coordenada e ocupação racional dos espaços.

Logo depois, em 2021, foi contratado pelo São Paulo Futebol Clube e rapidamente marcou sua passagem ao conquistar o Campeonato Paulista 2021 sobre o Palmeiras, quebrando um jejum de títulos do clube e se tornando o primeiro técnico estrangeiro a vencer o torneio em 46 anos. Após essa primeira etapa no Brasil, seguiu carreira no futebol internacional, passando por clubes do Oriente Médio, antes de retornar ao São Paulo anos depois, em um contexto de reconstrução esportiva; porém, após pressão por desempenho e sem liberdade de trabalho, acabou demitido. 

Foto: TyC Sports

Já Gareca prefere estruturas mais clássicas, normalmente em 4-3-3 ou 4-2-3-1, com posse de bola, circulação paciente e confiança no talento ofensivo dos jogadores. Foi assim que conduziu a Seleção Peruana de Futebol de volta a uma Copa do Mundo FIFA de 2018 depois de 36 anos. Gareca seguiu no cargo até 2022, período em que ainda foi vice-campeão da Copa América 2019 e chegou à repescagem para o Mundial de 2022, quando o Peru acabou eliminado pela Austrália; após sete anos e 96 jogos no comando, deixou a seleção por não aceitar a redução salarial proposta pela federação peruana.

Depois de um período sem clube, o treinador voltou ao cenário internacional ao assumir a Seleção Chilena de Futebol em 2024, com a missão de reconstruir a equipe e disputar competições continentais, mas o ciclo acabou sendo curto e, no momento, ele se encontra novamente sem clube, avaliando novas oportunidades no futebol sul-americano ou em seleções.

Apesar das diferenças de desenho tático, Crespo e Gareca compartilham uma mesma matriz conceitual: acreditam em futebol ofensivo, em times organizados e em protagonismo com a bola. Nesse sentido, ambos estão muito mais próximos da tradição do César Luis Menotti do que do pragmatismo histórico de Carlos Bilardo. Ou seja, a ideia de jogo vem antes do resultado imediato — e isso explica por que seus trabalhos ganham força quando existe continuidade.

Depois da saída do São Paulo FC, o futuro de Crespo ainda é um ponto aberto, mas seu perfil parece dialogar melhor com mercados que valorizam projeto. A Argentina sempre será um caminho natural, mas ligas como a mexicana ou até algumas da Europa — especialmente em clubes de médio porte que gostam de treinadores jovens e ideias modernas — podem oferecer o ambiente ideal. Crespo ainda é um técnico em construção, mas com identidade clara. E no futebol atual, ter essa identidade já é metade do caminho para voltar mais forte.