Categoria: Futebol Argentino

Bielsa passa vergonha em mais uma Copa

Graças a Deus nasci Bilardista!

Foto: FIFA WC

O Uruguai encerrou sua participação nesta Copa do Mundo da pior maneira possível: eliminado sem vencer uma única partida. Foram dois empates e uma derrota para a Espanha, em um jogo de baixíssimo nível técnico. A seleção espanhola também esteve muito longe de fazer uma grande atuação, mas conseguiu encontrar um lance decisivo para vencer por 1 a 0. No fim das contas, foi um verdadeiro espetáculo de erros, pouca criatividade e quase nenhuma inspiração das duas equipes.

Mais uma vez, o trabalho de Marcelo Bielsa deixa a sensação de que existe muito discurso e pouca efetividade. A ideia de jogo baseada em posse de bola, intensidade e pressão alta pode até encantar em determinados momentos, mas, quando chega a hora das grandes decisões, o que fica é a ausência de resultados. Futebol não se resume a estatísticas de posse ou volume ofensivo. O que decide campeonatos continua sendo eficiência, organização e capacidade de transformar superioridade em gols.

Após a eliminação, Bielsa ainda protagonizou uma cena lamentável ao responder de forma ríspida a uma repórter durante a entrevista no gramado. Independentemente da frustração pela derrota, espera-se que um treinador com sua experiência saiba lidar melhor com a imprensa e com o momento difícil. A atitude apenas reforçou a imagem de um técnico muitas vezes visto como excessivamente convicto de suas próprias ideias, mesmo quando os resultados não correspondem às expectativas.

O Mundial termina como um duro golpe para a seleção uruguaia. Com um elenco talentoso e tradição em competições internacionais, esperava-se muito mais do que uma campanha sem vitórias e uma eliminação precoce. No futebol, conceitos e filosofias têm seu valor, mas a história é escrita pelos resultados. Quando eles não aparecem, sobra apenas a frustração de uma campanha que ficará marcada como uma das mais decepcionantes da história recente da Celeste.

A eliminação apenas reforça um roteiro que já se repetiu diversas vezes na carreira de Marcelo Bielsa. Depois do enorme fracasso na Copa do Mundo de 2002, quando comandava uma talentosa seleção argentina que sequer conseguiu passar da fase de grupos, vieram outras campanhas decepcionantes em Mundiais. Com o Chile, apesar dos elogios ao estilo de jogo, os resultados também ficaram muito abaixo do esperado saindo nas oitavas em 2010. Mais uma vez, o discurso, a filosofia e a posse de bola não se transformaram em conquistas.

No futebol, ideias bonitas precisam ser acompanhadas de títulos e campanhas marcantes. Bielsa continua sendo reverenciado por muitos como um gênio, mas sua trajetória em Copas do Mundo está muito mais associada às frustrações do que aos grandes feitos. E, vendo mais um fracasso do bielsismo no maior palco do futebol, só posso repetir uma frase: graças a Deus, sou bilardista.

Bielsa e Beccacece mostram que estilo bielsista não cabe em Copa do Mundo

Foto: Diario Olé

A segunda rodada da Copa do Mundo voltou a expor uma discussão que acompanha o futebol sul-americano há anos. Tanto Sebastián Beccacece, no Equador, quanto Marcelo Bielsa, no Uruguai, tropeçaram novamente em resultados que deixaram suas seleções em situação delicada. O Equador ficou no empate sem gols diante de Curaçao, enquanto o Uruguai empatou por 2 a 2 com Cabo Verde. Em comum, os dois jogos tiveram a marca registrada dos times comandados por discípulos da escola bielsista: muita movimentação, intensidade e volume de jogo, mas pouca capacidade de transformar superioridade em vitórias.

O chamado “bielsismo” sempre encantou torcedores, jornalistas e até outros treinadores. A proposta ofensiva, a pressão alta e a coragem para atacar são conceitos que ajudaram a revolucionar o futebol moderno. O problema é que Copa do Mundo não premia intenções. Como dizia Zagallo, um Mundial é composto por oito finais. Cada partida exige maturidade competitiva, leitura de contexto e eficiência. Quando um time cria muito e não marca, ou quando se expõe demais defensivamente em busca de um ideal estético, o resultado costuma ser o mesmo: pontos perdidos.

O empate do Equador contra Curaçao talvez seja o exemplo mais claro disso. Diante de um adversário teoricamente inferior, a seleção de Beccacece teve dificuldades para transformar posse de bola e iniciativa em chances realmente perigosas. Já o Uruguai de Bielsa conseguiu marcar duas vezes contra Cabo Verde, mas voltou a apresentar fragilidades defensivas incompatíveis com uma equipe que sonha em competir entre as melhores do mundo. São erros que não podem ser tratados como detalhes em um torneio tão curto. Em Copa do Mundo, eficiência vale tanto quanto qualidade técnica.

Talvez a exceção mais interessante entre os treinadores influenciados por Bielsa seja Mauricio Pochettino. Embora tenha absorvido conceitos do mestre argentino, seu trabalho atual nos Estados Unidos parece seguir um caminho diferente, mais próximo do menotismo e de referências como José Pekerman na Colômbia de 2014. Há mais equilíbrio entre ataque e defesa, entre ideia e resultado. E é justamente esse equilíbrio que parece faltar ao bielsismo quando o cenário é uma Copa do Mundo. Porque, no fim das contas, Mundiais não são vencidos por quem apresenta a filosofia mais sedutora, mas por quem consegue transformar boas ideias em vitórias. E, até aqui, Bielsa e seus herdeiros seguem devendo essa resposta nos momentos mais decisivos. Nem precisamos lembrar da bagunça de Jorge Sampaoli na Argentina de 2018…

No comando do Equador, Beccacece estreia no velho estilo bielsista

Seleção tricolor criou milhares de chances, mas não finalizou no alvo para garantir o resultado

Foto: Selección Ecuador

Sebastián Beccacece fez sua estreia em Copa do Mundo e se tornou o terceiro treinador argentino a comandar uma seleção no torneio, depois de Mauricio Pochettino, pelos Estados Unidos, e Gustavo Alfaro, pelo Paraguai. Contra a Costa do Marfim, o Equador mostrou exatamente aquilo que já era esperado de uma equipe treinada por Beccacece: muita posse de bola, circulação constante e uma clara influência da escola de Marcelo Bielsa. O problema é que, mais uma vez, a filosofia funcionou até a entrada da área. Na hora de decidir, faltou o principal: o gol.

A derrota por 1 a 0 acabou sendo um castigo para a falta de eficiência equatoriana. O Equador teve posse, teve iniciativa, criou oportunidades e finalizou bastante. Houve chutes para fora, bolas na trave e algumas chegadas perigosas. Mas eficiência passou longe. A sensação foi de que a seleção equatoriana poderia passar dois dias treinando exclusivamente finalizações, porque a construção das jogadas acontece, mas a conclusão não acompanha. Ter a bola é importante, mas transformar domínio em resultado continua sendo o grande desafio desta geração.

Também pesa a diferença de material humano. Beccacece tenta implementar conceitos parecidos com os que influenciaram treinadores como Bielsa e que hoje aparecem em seleções como a dos Estados Unidos de Pochettino. Só que o Equador possui características diferentes. Muitos de seus jogadores ainda atuam em ligas latino-americanas, como Brasil, México, Colômbia e no próprio futebol equatoriano. É uma seleção competitiva, mas que ainda carrega traços muito próprios do futebol local, sem a mesma capacidade técnica e velocidade de execução apresentada por equipes mais consolidadas.

Em alguns momentos, o Equador lembra até a LDU: dominante quando encontra condições favoráveis, mas com dificuldades para transformar superioridade em resultados concretos. Mesmo com uma torcida esmagadoramente equatoriana nas arquibancadas e um ambiente praticamente de jogo em casa, a equipe acabou derrotada por 1 a 0. Beccacece manteve sua identidade, seguiu fiel à cartilha bielsista e controlou boa parte das ações. Mas o futebol continua premiando quem coloca a bola na rede. E nisso, pelo menos nesta estreia, o Equador ficou devendo.

Em duelo de treinadores argentinos, Estados Unidos de Pochettino atropela Paraguai de Alfaro

Seleção anfitriã atropelou na estreia mostrando que aprendeu algo diferente com técnico bielsista

Foto: FIFA

A segunda noite da Copa do Mundo reservou um interessante duelo argentino à beira do campo. De um lado, Gustavo Alfaro, conhecido por suas equipes organizadas e pela inspiração em conceitos mais próximos do bilardismo. Do outro, Mauricio Pochettino, discípulo declarado de Marcelo Bielsa e defensor de um futebol mais agressivo, intenso e protagonista. No confronto entre Paraguai e Estados Unidos, o placar de 4 a 1 mostrou que, desta vez, a escola bielsista levou ampla vantagem.

Desde que assumiu a seleção dos Estados Unidos, em 2024, Pochettino trabalhou para consolidar uma identidade clara de jogo. O resultado apareceu em campo. A equipe norte-americana apresentou organização, pressão alta, movimentação constante e uma capacidade impressionante de alternar entre atacar e defender sem perder o equilíbrio. Atuando em casa, a seleção mostrou maturidade e confiança, características que nem sempre fizeram parte da história do futebol masculino do país.

O mais interessante foi perceber como essa geração norte-americana pareceu diferente das anteriores. Durante muitos anos, os Estados Unidos compensaram limitações técnicas com força física e disciplina tática. Agora, a equipe exibiu qualidade na circulação da bola, entendimento coletivo e jogadores capazes de tomar decisões rápidas em espaços reduzidos. Não foi apenas uma vitória; foi uma demonstração de evolução de um projeto que ganhou forma nos últimos anos e que encontrou na Copa do Mundo a oportunidade perfeita para se apresentar ao mundo.

Já o Paraguai de Gustavo Alfaro viveu uma noite para esquecer. Mesmo conseguindo marcar um gol, a seleção pouco ameaçou e acabou dominada do início ao fim. O duelo funcionou como um retrato de duas ideias distintas de futebol. De um lado, o bielismo adaptado por Pochettino, baseado em intensidade, posse e iniciativa. Do outro, um modelo mais conservador que não encontrou respostas. No fim, o treinador argentino dos Estados Unidos deu uma verdadeira aula ao compatriota e transformou um confronto equilibrado no papel em um massacre dentro de campo, com direito a goleada e uma das atuações mais convincentes desta Copa até aqui.

Juan Pablo Vojvoda é o novo técnico do Racing

Próximo da escola menottista, treinador é experiente e quer lutar por títulos com atual elenco

Foto: Telemundo Deportes

A chegada de Juan Pablo Vojvoda ao Racing marca uma mudança interessante de rumo em Avellaneda. Depois da era Gustavo Costas, marcada por muita intensidade emocional e identificação com o clube, a diretoria parece apostar em um treinador de perfil mais estratégico e moderno. Vojvoda construiu sua reputação com trabalho de campo, organização tática e capacidade de fazer equipes competitivas mesmo sem os maiores investimentos do mercado.

Embora seja argentino com experiências em times como Talleres e Unión La Calera (CHI), Vojvoda ganhou projeção internacional principalmente no Brasil, onde realizou um trabalho histórico no Fortaleza. Foi lá que mostrou sua principal característica: a habilidade de transformar times comuns em equipes difíceis de enfrentar. Seus times costumam ser agressivos na marcação, organizados sem a bola e muito dinâmicos no ataque, sempre buscando ocupar espaços e pressionar o adversário.

Dentro da velha discussão do futebol argentino, Vojvoda parece estar mais próximo da escola menottista do que da bilardista. Ele valoriza a construção das jogadas, o protagonismo e a ideia de que o time deve impor seu estilo de jogo. Ao mesmo tempo, não é um treinador preso a dogmas. Sua leitura moderna do futebol faz com que adapte esquemas e estratégias de acordo com as características do elenco e dos adversários.

O Racing encontra um cenário diferente daquele que Vojvoda viveu em Fortaleza. Na Academia, a cobrança por títulos é permanente e a paciência costuma ser menor. Por outro lado, ele chega a um clube com tradição, estrutura e jogadores capazes de executar suas ideias. Se conseguir implementar rapidamente seus conceitos, pode montar uma equipe bastante competitiva para os torneios argentinos e continentais.

A verdade é que a contratação de Vojvoda tem tudo para ser uma das mais interessantes do futebol argentino nos próximos meses. Não se trata apenas de trocar um treinador por outro, mas de adotar uma nova identidade dentro de campo. Se a aposta der certo, o Racing pode ganhar não apenas um técnico, mas um projeto de jogo capaz de recolocar o clube entre os grandes protagonistas da América do Sul.

Como Ricardo La Volpe, técnico que Guardiola copiou, revolucionou o futebol mexicano

País azteca que recebe a Copa 2026 teve treinador argentino como peça-chave para se tornar um potente mercado da atualidade

Foto: Televisa Deportes

Para o futebol mexicano, poucos treinadores estrangeiros tiveram um impacto tão profundo quanto Ricardo La Volpe. Chegando ao México ainda como jogador no fim da década de 1970, ele construiu praticamente toda a sua carreira de treinador no país e ajudou a transformar a forma como muitas equipes entendiam o jogo. La Volpe comandou clubes como Atlante, Querétaro, Dorados, Atlético Morelia, Toluca, Atlas, Monterrey, Chivas Guadalajara e América. Em todos eles deixou a mesma marca: equipes que valorizavam a posse de bola, a saída construída desde a defesa e a ocupação racional dos espaços.

O chamado “lavolpismo” virou uma escola própria dentro do futebol mexicano. Sua principal inovação foi a famosa saída de três defensores, muitas vezes com um volante recuando entre os zagueiros para iniciar as jogadas. Hoje isso parece comum, mas nos anos 1990 e 2000 era uma ideia bastante avançada para a região. Além de desenvolver jogadores, La Volpe ajudou a formar treinadores e dirigentes que passaram a enxergar o futebol de maneira mais estratégica. O país azteca também se tornou um dos mercados mais ricos do futebol moderno, devido a forma como La Volpe mostrou ao mundo como os times de lá vinham evoluindo.

Sua influência foi tão grande que abriu caminho para a valorização de técnicos argentinos no México, facilitando a chegada e o sucesso de nomes como Tony Mohamed, Matías Almeyda, Diego Cocca e tantos outros que encontraram um ambiente já receptivo às ideias vindas da escola argentina. Também moldou o estilo de técnicos da atualidade como Ariel Holan e Jorge Almirón, que se tornou volante em suas mãos ao ser treinado por el bigodón no Dorados.

A passagem de La Volpe pela Seleção Mexicana de Futebol, entre 2002 e 2006, foi o auge de sua influência. Sob seu comando, o México apresentou um futebol ofensivo, organizado e tecnicamente refinado, conquistando admiração internacional. Na Copa do Mundo de 2006, os mexicanos lideraram um grupo que tinha Portugal, Angola e Irã, antes de serem eliminados pela Argentina apenas na prorrogação, em uma partida considerada uma das melhores daquele Mundial. Muitos analistas e torcedores ainda veem aquele ciclo como um dos mais marcantes da história recente da seleção mexicana.  

Foi justamente durante aquela Copa do Mundo que um ex-jogador recém-aposentado chamado Pep Guardiola se encantou pelo trabalho de La Volpe. Em uma coluna publicada no jornal espanhol El País, Guardiola escreveu o famoso texto “Salir de novios” (“Sair de namorados”), no qual elogiou a forma como o México construía suas jogadas desde a defesa. Pep destacou que havia uma diferença entre simplesmente começar uma jogada e realmente sair jogando, conceito central do lavolpismo. Na metáfora utilizada por Guardiola, bola e jogadores avançavam juntos “como namorados”, numa referência à harmonia dos movimentos coletivos.

Anos depois, quando Guardiola revolucionou o futebol europeu em clubes como o Barcelona, Bayern Munich e Manchester City, muitos passaram a identificar conceitos que já apareciam nos times de La Volpe: a saída sustentada desde trás, a superioridade numérica na construção e a participação ativa dos defensores na criação das jogadas. Não é exagero afirmar que o argentino ajudou a inspirar algumas das ideias que moldariam o futebol moderno, inclusive que muitos o copiaram. Poucos treinadores podem dizer que influenciaram diretamente um dos maiores técnicos da história (Guardiola), e Ricardo La Volpe pode dizer isso, pois seus conceitos foram além do futebol mexicano, atravessando o oceano para o velho continente.