Clubes comandados por Verón e Riquelme estão nas finais do continente

Estudiantes e Boca Jrs chegam para decisões da Libertadores e da Sulamericana com técnicos bilardistas

Foto: TyC Sports

O futebol argentino está novamente no centro das atenções da América do Sul. Estudiantes de La Plata e Boca Juniors, dois gigantes históricos do continente, chegaram às finais da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana de 2026, respectivamente. Mais do que duas classificações, as campanhas representam a resiliência de um futebol que, mesmo diante da superioridade financeira dos clubes brasileiros, continua encontrando caminhos para competir em alto nível. E existe um ingrediente especial nessa história: Juan Sebastián Verón e Juan Román Riquelme, dois dos maiores jogadores argentinos das últimas décadas, hoje comandam os destinos de Estudiantes e Boca como presidentes. Ambos carregam uma profunda identificação com suas instituições e ajudam a preservar uma cultura futebolística que atravessa gerações, especialmente aquela que valoriza a competitividade, a disciplina e a capacidade de vencer confrontos decisivos.

O Estudiantes de Verón é, talvez, a representação mais evidente dessa resistência. Tetracampeão da Libertadores, o clube de La Plata busca seu quinto título continental justamente diante do Palmeiras, adversário que derrotou na histórica decisão de 1968, quando começou a construir sua dinastia sob o comando de Osvaldo Zubeldía. Atualmente dirigido pelo uruguaio Alexander Medina, que se declara adepto do bilardismo, o Pincha apresenta um futebol competitivo, de forte organização defensiva, intensidade na marcação e enorme capacidade de adaptação aos adversários. Medina compreende que o resultado está acima de qualquer preocupação estética, princípio fundamental da escola de Carlos Bilardo, que fez história como jogador e treinador do Estudiantes. A classificação diante do Flamengo, no Maracanã, mesmo atuando boa parte do segundo tempo com um jogador a menos, sintetiza essa identidade. O goleiro Fernando Muslera, decisivo nas cobranças de pênaltis, tornou-se um dos símbolos da campanha, enquanto nomes como Guido Carrillo, Ezequiel Piovi, Marcos Rojo e Edwuin Cetré oferecem experiência, liderança e qualidade ao conjunto. É o velho Estudiantes, moldado por Zubeldía e Bilardo, mostrando que sua filosofia permanece viva.

Do outro lado está o Boca Juniors, comandado institucionalmente por Juan Román Riquelme, que tenta conquistar novamente a Copa Sul-Americana, competição vencida pelo clube em 2004 e 2005. O adversário será o Atlético-MG, em uma decisão que promete colocar frente a frente duas camisas pesadíssimas do continente. Sob o comando de Rodolfo Arruabarrena, o Boca recuperou características historicamente associadas aos seus melhores momentos. Diferentemente de Medina, Arruabarrena pertence à escola bianchista, construída sob a influência de Carlos Bianchi, treinador com quem conquistou a Libertadores de 2000 como jogador. O chamado bianchismo compartilha com o bilardismo a valorização da organização defensiva, do pragmatismo e da inteligência competitiva, mas acrescenta uma característica muito particular: a tranquilidade para enfrentar ambientes hostis e a capacidade de transformar equipes em especialistas em decisões. O Boca de Arruabarrena carrega essa personalidade, demonstrada na vitória por 3 a 1 sobre o Vasco, no Maracanã, depois da derrota em Buenos Aires. Leandro Paredes, decisivo na classificação, lidera um elenco que também conta com o poder de decisão de Miguel Merentiel e a intensidade de Santiago Ascacíbar. É um Boca que não precisa dominar todos os momentos de uma partida para encontrar o caminho da vitória, exatamente como acontecia nos tempos de Bianchi.

Fora das quatro linhas, Verón e Riquelme merecem um capítulo especial. O presidente do Estudiantes vem trabalhando para consolidar um projeto de continuidade institucional, valorização da identidade do clube e fortalecimento de sua estrutura esportiva. Verón compreende como poucos o significado de vestir a camisa do Pincha e procura transformar essa identificação em um modelo de gestão capaz de manter o clube competitivo diante de adversários economicamente mais poderosos. Riquelme, por sua vez, assumiu o desafio de devolver ao Boca Juniors o protagonismo internacional, colocando sua experiência como ídolo a serviço de uma instituição marcada por cobranças gigantescas.

Sua gestão enfrenta críticas e pressões, mas a chegada a uma nova decisão continental representa um resultado importante, além dos assados toda segunda. São dois presidentes com personalidades diferentes, mas unidos pela convicção de que a história, a tradição e o sentimento de pertencimento continuam sendo fundamentais na construção de equipes vencedoras. Verón preserva a mística bilardista do Estudiantes, enquanto Riquelme, protagonista da era mais vitoriosa de Bianchi, procura recuperar no Boca aquela mentalidade que transformou o clube em uma potência continental.

As finais de 2026 também representam um reencontro simbólico com duas das escolas mais vencedoras do futebol argentino. De um lado, o bilardismo, que nasceu das ideias de Zubeldía e ganhou projeção mundial com Carlos Bilardo. Do outro, o bianchismo, consagrado pelas conquistas internacionais de Carlos Bianchi no Vélez Sarsfield e no Boca. Embora apresentem particularidades, são filosofias que compartilham uma convicção: o futebol se decide nos detalhes, na preparação, na disciplina e, principalmente, na capacidade de competir. Diante de Palmeiras e Atlético-MG, os argentinos tentarão provar que dinheiro e grandes investimentos não são suficientes para determinar quem levanta uma taça.

E independentemente dos resultados, Verón e Riquelme já protagonizam um capítulo especial: dois antigos maestros do futebol argentino, agora dirigentes, recolocando seus clubes no palco mais importante do continente. A Argentina continua viva, competitiva e, acima de tudo, fiel à sua história.

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