Categoria: Libertadores da América

Melhor cidade da Colômbia, Medellín recebe o Flamengo na Libertadores

Qualidade de vida, beleza e cultura definem a cidade que renasceu das cinzas para a eterna primavera

Foto: Arquivo Pessoal

Medellín já foi sinônimo de medo. Hoje, é um dos maiores símbolos de reinvenção urbana do mundo. Nas últimas duas décadas e meia, a cidade colombiana deixou para trás o estigma dos anos 80 e 90 — marcados pela violência associada a desgraça do Pablo Escobar — e se transformou em um exemplo global de mobilidade, urbanismo e qualidade de vida. Um verde verdolaga, na cor do Atlético Nacional, reluz pela cidade que salta aos olhos de quem visita e nunca mais quer ir embora.

Com metrô eficiente, teleféricos integrando comunidades e uma quantidade impressionante de áreas verdes, Medellín hoje respira organização, segurança e bem-estar. É a arborizada das Américas, vibrante e, sobretudo, viva com sua eterna primavera (apelido recebido pelo seu clima durante o ano). Uma cidade que aprendeu a se reconstruir — e fez isso com identidade própria.

E essa identidade aparece com força quando o sol se põe. A vida noturna de Medellín é uma das mais animadas da América Latina, com ruas cheias, música em todos os cantos e uma energia contagiante. Bairros como El Poblado, Provenza e Laureles são o coração dessa experiência: seguros, modernos, cheios de bares, restaurantes e gente do mundo inteiro.

E para quem visita no fim do ano, a cidade entrega um espetáculo à parte com sua famosa iluminação natalina, considerada uma das mais bonitas do continente. No futebol, Medellín também pulsa forte. O tradicional Estádio Atanasio Girardot é um dos grandes templos esportivos da Colômbia — palco de jogos históricos e também de megashows de artistas como J Balvin, Maluma, Karol G, Carlos Vives, Ryan Castro – mais recentementee Bad Bunny.

Foto: Telemedellín

É ali que o Independiente Medellín recebe o Flamengo pela Libertadores nesta semana, em um cenário que mistura paixão, festa e tradição. O clube é protagonista do clássico mais popular do país, o “Clássico Paisa”, contra o Atlético Nacional — um duelo que ainda hoje mantém a divisão de torcidas no estádio, algo cada vez mais raro no futebol sul-americano.

E Medellín também guarda histórias curiosas que conectam música e esporte. Antes de se tornar um fenômeno global, Maluma sonhava com o futebol. Passou pelas categorias de base de clubes como Envigado FC, Atlético Nacional e La Equidad, e chegou a jogar no próprio Atanasio Girardot.

A Colômbia pode até ter perdido um possível jogador daquela geração talentosa, mas ganhou um dos maiores astros pop do planeta. Medellín é isso: uma cidade que mistura passado e futuro, cultura e transformação, futebol e música. E, definitivamente, um dos destinos mais incríveis que você pode escolher conhecer na América Latina.

Guatapé, cerca de 2h de Medellín, proporciona um dos melhores passeios pela região (Foto: Arquivo Pessoal)

Garoto narrando a final da Libertadores na montanha ao lado de cachorro caramelo é a imagem do ano

A Champions League tem glamour, mas só a Libertadores proporciona certas coisas

Foto: @Pol_deportes

Não é todo dia que nasce diante da gente um símbolo do jornalismo raiz, aquele jornalismo que não precisa de credencial VIP nem câmera 4K para existir. Pol Deportes, um menino de apenas 15 anos chamado Cliver Sánchez, ganhou o mundo quando narrou aa grande final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras do alto de uma montanha – cercado por crianças e por um cachorro caramelo que parecia seu assistente oficial. Enquanto alguns procuravam um estúdio perfeito, Pol transformou a precariedade em palco. Aquele vídeo não mostrou só um narrador: mostrou uma vocação.

A trajetória de Pol sempre foi guiada por essa obstinação doce de quem nasceu pra contar histórias. Ele começou registrando jogos de bairro, criando seus conteúdos, treinando a voz e a emoção na marra, sem nenhum luxo — só vontade. Mesmo novinho, ele já tinha algo que muito adulto bem formado não tem: verdade. Nada nele é montado. Nada é artificial. Ele narra com o coração, com o ambiente, com o improviso, com a vida pulsando ao redor. E talvez por isso tenha encantado tanta gente. Antes mesmo do jogo ele estava fazendo toda cobertura, ao lado de um coleguinha. Fez lives e se meteu no meio da torcida flamenguista à caminho do estádio para cantar “Acabou o caô, o Guerrero chegou!

E a prova de que talento abre portas veio esta semana, quando Pol narrou pela primeira vez direto da cabine de um estádio profissional. E não qualquer jogo: simplesmente Sporting Cristal x Alianza Lima, um dos clássicos mais importantes do Peru. Aquele menino que narrava do alto de uma montanha agora narrava de dentro, no ponto mais nobre de um estádio, onde tantos sonham chegar. Foi resultado de esforço, autenticidade e da força de uma internet que ainda sabe reconhecer talento quando vê.

No fim das contas, Pol Deportes representa uma frase que deveria estar colada no espelho de todo aspirante a jornalista: quem quer fazer jornalismo de verdade sempre dá um jeito. Seja na arquibancada, na montanha, na rua de barro, na cabine profissional ou com um cachorro caramelo como produtor. Pol já descobriu o que muita gente passa a vida inteira tentando aprender: quando a paixão é real, o dom futebolístico aparece. E o mundo escuta. Pena que a sua seleção não irá para a Copa do Mundo, mas ele, pode ir!

Aniversário do melhor de todos os tempos

É tempo de Garrincha, meu anjo-da-guarda (da pá-virada)

Foto: Arquivo Pessoal

Hoje o futebol celebra o nascimento de um gênio: Manoel Francisco dos Santos, o eterno Mané, o inesquecível Garrincha. Um homem de pernas tortas, mas de talento puro e inquestionável. O craque que virou o símbolo da alegria em campo, o driblador que desmontava zagueiros e arrancava sorrisos até dos adversários. O Botafogo foi seu palco, e ali, um jovem chamado Jairzinho — que mais tarde seria o Furacão da Copa de 70 — pulava o muro de General Severiano só para ver o ídolo treinar. Era Garrincha quem ensinava, sem precisar falar, o que era ser livre dentro das quatro linhas.

Garrincha era mais do que um jogador: era um espetáculo. Enquanto muitos dependem de gatorade e treinos de alta performance, para ele bastava um campo, uma bola e um par de pernas tortas para transformar o impossível em rotina. Sua energia parecia vir do samba, da boemia, da Portela e da Mocidade Independente. Era do carnaval tanto quanto era do futebol. O Brasil não o amava apenas por seus dribles, mas por sua autenticidade. Garrincha não jogava, ele brincava — e essa leveza é o que o tornava imortal.

Dentro e fora de campo, sua personalidade era forte, inquieta e intensa. Garrincha era o retrato do brasileiro que vive entre a dor e a alegria, mas escolhe sorrir mesmo assim. Seu sorriso era tão famoso quanto seus dribles — um convite para lembrar que o futebol, acima de tudo, é diversão. Cada gol, cada arrancada, cada finta de Garrincha era um pedaço de arte popular, uma homenagem à simplicidade e à genialidade que convivem em quem é realmente do povo.

Quando nasci, em um 30 de outubro, Deus me deu um anjo-da-guarda de chuteiras (e da pá-virada igual a mim). Tinha que ser ele, do dia 28. O homem que escrevia torto por linhas e pernas tortas, mas sempre escrevia bonito. No destino, herdei um pouco dessa essência: o amor pelo futebol, pela liberdade, pela alegria sem explicação. Garrincha foi e sempre será o reflexo do que encanta, improvisa e emociona.

Não por acaso, vi seu time do coração conquistar a América no Monumental ano passado – melhor não falarmos do Botafogo nesta temporada. Que imensa honra ver aquela conquista de perto. Pude sentir Garrincha comigo naquele dia, assim como sinto a cada dia que piso em um estádio ou onde eu estiver. Feliz aniversário, ao maior do futebol!

Tiago Nunes quer repetir feito de Bauza com a LDU na Libertadores

Trabalho do técnico brasileiro tem pontos em conum com DT argentino, campeão da América em 2008 junto ao time equatoriano

Foto: LDU/@Libertadores

A LDU de Quito fez história em 2008, ao conquistar a América sob o comando de Edgardo “Patón” Bauza. A equipe equatoriana não apenas quebrou barreiras geográficas, como também provou a força de um projeto ousado, liderado por um treinador que sempre acreditou na escola menottista: futebol ofensivo, corajoso e de imposição. Naquela Libertadores, a LDU mostrou que não se intimidava diante de gigantes, vencendo o Fluminense em pleno Maracanã e entrando para a galeria dos campeões continentais de forma épica.

Quase duas décadas depois, a história parece se repetir. Ontem, a LDU voltou a viver uma noite mágica ao eliminar o São Paulo no Morumbi pela Libertadores, agora sob o comando do técnico brasileiro Tiago Nunes. A equipe já havia eliminado o Botafogo nas oitavas de final. Assim como Bauza, Nunes carrega a essência do pensamento menottista, que valoriza a construção de jogo, a busca pela posse de bola e a ideia de que atacar é o melhor caminho para se impor. Contra o Tricolor, a LDU mostrou maturidade, disciplina e, ao mesmo tempo, personalidade para segurar a pressão de mais de 50 mil torcedores e 26 finalizações do ataque moldado pelo técnico Hernán Crespo.

A conexão entre Bauza e Tiago Nunes vai além da coincidência de títulos ou classificações marcantes. Ambos representam uma linhagem de técnicos que priorizam o espetáculo sem abrir mão da competitividade. A LDU de Bauza encantava pela ousadia e coragem, enquanto a de Tiago Nunes impressiona pela organização e intensidade nas jogadas que decidem jogos. Dois estilos diferentes, mas unidos pela mesma raiz filosófica: a crença de que o futebol pode ser inteso, defensivo e vencedor ao mesmo tempo.

Se em 2008 a LDU surpreendeu o continente com sua conquista inédita, hoje ela se reafirma como protagonista do Equador. País este que quer a vaga definitiva de terceira força da América, já que seus vizinhos estão deixando esse posto passar. A camisa que Bauza ajudou a tornar histórica segue aprontando seus feitos, agora guiada pelas mãos de um brasileiro que bebe da mesma fonte futebolística sonhando em repetir o feito. E a América, mais uma vez, precisa olhar para Quito com respeito e admiração.

Foto: Clarín Deportes

River de Gallardo precisa acordar pra vida e ter gana de vencer

Time estrelado faz temporada mediana desde o início do ano, jogando com preguiça e sem ambição por títulos

Foto: Arquivo Pessoal

O River Plate vive um momento delicado e precisa repensar urgentemente sua postura dentro e fora de campo. O time, que já foi sinônimo de garra e competitividade, hoje parece apático, sem a mesma fome de vitória que o consagrou em anos como 2015 e 2018. O elenco atual é formado por jogadores que já conquistaram praticamente tudo: Copa do Mundo, títulos na Europa, Libertadores, fortunas acumuladas. Mas justamente por isso falta a motivação que diferencia um time vencedor de um time apenas competente. Em campo, o River tem perdido a cabeça com facilidade, e sem ambição não há camisa pesada que resolva. Justamente esses quesitos podem pesar na eliminação da Libertadores.

Marcelo Gallardo, técnico símbolo de liderança e grande responsável pelas conquistas da última década, também tem sua parcela de culpa. Suas atitudes têm irritado torcedores e imprensa: quando vence, fala; quando perde ou empata, se cala. Esse comportamento passa uma mensagem ruim, como se só fosse válido se manifestar nos momentos bons, fugindo das responsabilidades nos maus resultados. Tanto no Campeonato Argentino quanto na Libertadores, a falta de autocrítica e a postura fechada de Gallardo alimentam ainda mais as críticas.

Dentro de campo, algumas peças têm se tornado problemas em vez de soluções. Acuña é um jogador de temperamento explosivo, que muitas vezes prejudica mais do que ajuda. Miguel Borja, quando entra, parece alheio, não consegue mudar o jogo nem impor presença. Facundo Colidio, que já teve atuações promissoras, hoje vive uma fase péssima, sem confiança e sem impacto. Juan Fer Quintero voltou, mas parece carregar mais peso do que futebol, lembrando o pior de Higuaín, e até aqui não acrescenta em nada. São nomes importantes, mas que não entregam o que se espera de jogadores do River Plate.

Se nada mudar, o River corre o risco de se apequenar dentro das competições que disputa. A camisa é gigante, mas a atitude tem sido pequena. O clube precisa de jogadores famintos, de comando firme e de um treinador que entenda que também deve dar explicações nas derrotas. Quem mostra um pouco disso no atual elenco estrelado talvez seja Seba Driussi. Sem sede de vitória, sem autocrítica e sem coragem de encarar os problemas, o River Plate não vai reencontrar o caminho da grandeza que um dia fez dele o time mais temido da América.

Foto: @riverplate

Copa do Mundo de Clubes: Um alento e diversão em meio à tantas notícias ruins do dia a dia

Criticamos a criação do torneio e ficamos com um pé atrás antes de tudo acontecer. Agora amamos a competição como nenhuma outra;

Foto: Getty Imagens

A verdade é que todo mundo torceu o nariz quando anunciaram o novo formato da Copa do Mundo de Clubes. Calendário apertado, times cansados, excesso de jogos, times aleatórios juntos… mas bastou a bola rolar pra gente perceber o quanto esse torneio podia ser especial. A começar pela trilha sonora que escolheram para o tema da competição – Freed From Desire.

De repente, um jogo inimaginável meses atrás numa terça à tarde virou desculpa pra sair mais cedo do trabalho, encontrar os amigos, abrir uma cerveja e apostar uns trocados (com responsabilidade, claro). A vida ganhou pequenas alegrias inesperadas — um respiro no meio da rotina pesada e, principalmente, das manchetes tristes como as da guerra entre Irã e Israel. O futebol fez o que sabe fazer de melhor: uniu, distraiu, emocionou.

Foi como viver um Carnaval fora de época. Intenso, colorido, imprevisível. E, como todo bom Carnaval, a graça está na dosagem certa. Se tivesse Mundial de Clubes todo fim de semana, perdia a magia. Mas do jeito que foi — concentrado, raro, vibrante — virou experiência pra guardar na memória. O mais curioso é ver no campo o que antes só era possível no videogame: confronto entre Palmeiras e Inter Miami, Flamengo contra Chelsea, Boca versus Bayern, River vs Internazionale.

Dessa vez não é só naquele jogo único de dezembro, entre o campeão da Libertadores e o da Champions. Agora é fase de grupos, oitavas, quartas… virou realidade. E que incrível foi acompanhar essa primeira etapa. Além dos cavalinhos do Fantástico que agora estão trabalhando como nunca na Central da Copa. Até deram uma nova chance para o gato francês Petit Gateau, mascote das Olimpíadas do ano passado.

Talvez o torneio das seleções não emocione tanto quanto esse. Porque aqui tem paixão de clube, rivalidade continental, torcida raiz, e aquela vontade genuína de vencer o outro por história — e não só por bandeira. E vamos combinar que tirando países como Argentina, México, África do Sul, Colômbia e Uruguai, poucas torcidas de seleção fazem a diferença em um estádio de Copa.

Que venha 2029! Quem sabe com jogos aqui mesmo, no Brasil, com sol, churrasco, pepsi e estádio cheio. Porque se a gente duvidava, hoje não duvida mais: o Mundial de Clubes deu certo. E a gente já está com saudade. Quem diria!