Principal legado de Rick no sertanejo foi estourar Gino & Geno

Dupla já experiente estava desistindo da música até receber produção musical e composições de Rick para virada na carreira

Foto: Portal G1

Rick tem uma história enorme no sertanejo, tanto pelos sucessos de Rick & Renner quanto pelas composições que marcaram outras vozes. Mas, para mim, seu principal legado tem nome e sobrenome: o renascimento de Gino & Geno. Ao apostar numa dupla veterana que estava longe dos grandes holofotes, Rick fez aquilo que parecia improvável: ajudou dois artistas com décadas de estrada a viverem uma nova fase de consagração, conquistando inclusive uma geração que pouco conhecia sua história.

Essa transformação começou com a admiração de um fã. Na passagem por Divinópolis, o contato com os discos de Gino & Geno levou Rick a procurar aqueles artistas que ele tanto gostava de ouvir. Vieram a conversa no restaurante e, depois, o encontro no sítio de Gino, onde a aproximação virou parceria musical. A primeira composição de Rick e Gino juntos foi a “Churrasco de Paixão”. Enquanto a própria dupla já demonstrava dúvidas sobre seu espaço no mercado, Rick enxergava repertório, personalidade e um talento que merecia voltar ao centro do palco.

A retomada ganhou forma em 2000, com o álbum Coração Cigano, produzido por Rick sem cobrar nada e feito nos estúdios da famosa Gravodisc. A música que deu nome ao disco também é uma composição de Rick, que tornou-se um dos grandes símbolos dessa virada dos artistas experientes que sonhavam em se recolocar no mercado. “Coração Cigano” foi sucesso ao encontrar as vozes certas, após passar por diversos artistas que não quisseram gravar ela. E Gino & Geno encontraram uma nova oportunidade de mostrar sua força fazendo um feat com Rick & Renner.

O grande mérito de Rick foi entender a identidade de Gino & Geno. A repaginada preservou o jeito dos dois e deu ainda uma sonoridade capaz de alcançar outro público. O humor, a irreverência, o romantismo e aquela presença tão particular ganharam força em produções que valorizavam suas vozes. Gino & Geno podiam fazer o público rir, dançar e sofrer de amor dentro do mesmo repertório. Essa combinação virou uma assinatura reconhecível no sertanejo dos anos 2000. Para mim, o ponto mais alto dessa fase é o Ao Vivo em Divinópolis, de 2004, primeiro DVD da dupla gravado durante a Expo Divinópolis.

Foto: Arquivo Pessoal

É um trabalho que merece ser lembrado pela qualidade musical e pela energia de Gino & Geno no palco. A produção de Rick, os arranjos de Maestro Pinocchio e a força da talentosa banda (que também gravou o Acústico Rick & Renner); dão corpo ao espetáculo, com uma riqueza instrumental que faz diferença em cada música. É daqueles registros em que repertório, interpretação e acompanhamento se encontram no lugar certo — e que continuam bons muito depois de passar a novidade do lançamento. Composições de Rick como “Bate a Bota no Chão”, “Ela chorou de Amor”, “Vou beber Veneno”, “Cara de Boi”, entre tantas outras marcam esse trabalho irretocável.

Num mercado tão interessado em apresentar o próximo rosto jovem, Gino & Geno provaram que veteranos também podiam protagonizar uma explosão de sucesso. Tinham experiência, carisma e muito a oferecer; Rick teve sensibilidade para perceber isso e competência para transformar essa percepção em música. Os anos de sucesso que vieram depois também pertencem, evidentemente, ao talento e ao trabalho dos dois. Mas a participação de Rick nessa virada é gigantesca. O que foi sua apurada intuição musical naquele momento?! Além de deixar sua própria discografia, ele ajudou a devolver ao sertanejo uma dupla que se tornaria um de seus grandes pilares. Poucos legados são tão bonitos quanto fazer o Brasil ouvir novamente quem ainda tinha tanto para cantar.

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