Ano terrível pra emissora esquecer

O ano de 2026 tem sido um pesadelo para a poderosa Rede Globo. Primeiro veio a Copa do Mundo. Acostumada durante décadas a praticamente ser sinônimo de Copa na televisão brasileira, a Globo desta vez não teve 100% do Mundial em suas mãos. Transmitiu partidas importantes, é verdade, inclusive jogos do Brasil e do mata-mata, mas já não teve aquela exclusividade e aquela centralidade absoluta de outros tempos.
Agora veio talvez o episódio mais simbólico do ano: faltando três dias para o primeiro turno da eleição presidencial, a Globo cancelou seu tradicional debate. A emissora recebeu decisões judiciais que alteraram as regras previamente estabelecidas — uma delas proibindo o púlpito vazio destinado a Lula e outra determinando a participação de Renan Santos — e, depois da desistência de Flávio Bolsonaro, decidiu simplesmente cancelar o programa. Lula, que já havia informado que não iria ao debate, estava no Flow Podcast. Resultado: o debate mais tradicional da televisão brasileira simplesmente não aconteceu.
A Globo diz que seu propósito ao realizar debates é promover a discussão de ideias e oferecer ao eleitor a oportunidade de comparar projetos, relacionando isso ao fortalecimento da democracia. Mas eu discordo dessa dramatização de que, sem o debate da Globo, “a democracia perde”. Quem decide a eleição é o brasileiro na urna no domingo. A Globo perde um dos acontecimentos mais importantes de sua cobertura eleitoral; a democracia continua sendo exercida pelo eleitor, independentemente de quem vença.
E é impossível ouvir esse discurso sem lembrar de 1989. Depois do segundo debate entre Lula e Fernando Collor, o Jornal Nacional exibiu uma edição que se tornou um dos episódios mais controversos da história da emissora. A própria Memória Globo registra que a reportagem foi acusada de selecionar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula, além de conceder mais tempo ao candidato do PRN. A repercussão foi tamanha que a Globo posteriormente decidiu não mais editar debates políticos daquela maneira. Portanto, quando a emissora se coloca quase como guardiã indispensável do debate democrático, sua própria história recomenda um pouco mais de cautela.
E 2026 já vinha sendo uma eleição problemática para a Globo antes desta quinta-feira. Na minha avaliação, as sabatinas foram péssimas. Em vários momentos, pareciam muito mais interrogatórios do que entrevistas destinadas a permitir que o eleitor conhecesse propostas. Independentemente do candidato sentado na bancada, o tom frequentemente parecia mais interessado no confronto entre entrevistador e entrevistado do que em extrair respostas claras sobre aquilo que realmente interessa ao país.
Enquanto isso, outras emissoras conseguiram ocupar espaço na cobertura eleitoral, e os podcasts se consolidaram ainda mais como alternativa. O próprio presidente e candidato à reeleição, Lula, escolheu estar no Flow justamente na noite em que aconteceria o debate da Globo. Flávio Bolsonaro, segundo colocado nas pesquisas divulgadas nesta reta final, desistiu poucas horas antes do programa. E Renan Santos, inicialmente fora pelos critérios de representação parlamentar, conseguiu judicialmente o direito de participar. No meio desse caos, a Globo resolveu que não haveria debate.
É um desfecho melancólico para uma emissora que durante décadas transformou o debate da véspera da eleição em um dos grandes acontecimentos da política brasileira. E talvez seja isso que mais chame atenção em 2026: a Globo parece ter perdido parte daquela capacidade de transformar determinados acontecimentos nacionais em eventos obrigatórios. No esporte, está cada dia pior. No entretenimento e nas novelas, enfrenta questionamentos e concorrência por falta de qualidade. Domingo só tem apanhado do SBT. E agora até seu tradicional debate presidencial terminou cancelado poucas horas antes de começar.
Para mim, a crise não é da política porque não houve debate na Globo. A crise é da própria Globo, que precisa olhar para dentro e entender por que tantas coisas deram errado neste ano. Tem muita coisa para ser revista em 2027. Pelo jeito não é só o futuro do Louro Mané no programa Mais Você que preocupa na emissora.