Por acaso, ou não, a Argentina se tornou outra após morte de Maradona

Provável que Don Diego se tornou o Deus que eles tanto queriam no céu

Foto: Clarín Deportes

Há coincidências que o futebol nunca consegue explicar. E talvez a maior delas seja a transformação da Argentina depois da morte de Diego Maradona, em 30 de novembro de 2020. Não se trata de dizer que foi ele quem ganhou os títulos do céu. Trata-se de reconhecer que, desde aquele dia, algo mudou. Mudou a seleção. Mudou Lionel Messi. Mudou a forma como a Argentina passou a competir.

Maradona sempre foi uma presença constante na vida da seleção. Esteve à beira do campo como treinador na Copa de 2010, viveu intensamente cada jogo e monopolizava as câmeras por onde passava. Em 2018, na dramática vitória sobre a Nigéria, protagonizou uma das imagens mais marcantes de sua vida, com os braços erguidos nas arquibancadas e um feixe de luz em cima de sua cabeça. Para os argentinos, Don Diego era muito mais do que um ex-jogador: era uma entidade nacional, quase uma divindade. O destino, porém, foi cruel. Ele jamais viu a Argentina conquistar outro grande título depois da Copa do Mundo de 1986.

Quase oito meses após sua morte, a Argentina venceu a Copa América no Maracanã, encerrando um jejum de 28 anos. Dias depois da partida, era impossível não lembrar que outro personagem fundamental também já não estava entre nós: Alejandro Sabella, o técnico da campanha da Copa de 2014, falecido em 8 de dezembro de 2020, apenas oito dias depois de Maradona. Dois símbolos do futebol argentino partiram sem ver a geração que enfim voltaria a colocar o país no topo. Para quem gosta de poesia no esporte, é como se Diego e Sabella tivessem se transformado em duas estrelas guiando essa equipe aguerrida, intensa e obstinada, que aprendeu a vencer dando o sangue até o último minuto.

E talvez a maior transformação tenha acontecido justamente em Messi. Ainda na semana da morte de Maradona, ele prestou uma homenagem inesquecível ao marcar um gol e reproduzir exatamente a comemoração de Diego com a camisa do Newell’s Old Boys, clube pelo qual ambos passaram. Mas a mudança foi muito além daquele gesto. O Messi reservado, quase tímido, deu lugar a um líder emocional. Na Copa do Mundo de 2022, apareceu o capitão que peitou adversários, discutiu, brigou pelo grupo e eternizou o famoso “¿Qué mirás, bobo?”. Era um Messi diferente, mais argentino do que nunca, disposto a carregar o peso da camisa e da história. Se teve uma época que ele nem cantava o hino e até pediu dispensa da seleção, dessa vez ele canta a plenos pulmões: “O juremos con gloria morir”.

Coincidência? Talvez. Futebol também vive de símbolos, de crenças e de histórias que desafiam qualquer explicação racional. Ninguém pode afirmar que a morte de Maradona mudou o destino da Argentina. Mas é impossível ignorar que, desde que Diego partiu, a seleção encontrou sua identidade definitiva, Messi alcançou a plenitude como líder e Scaloni construiu uma equipe que resgatou a essência maradoniana e, ao mesmo tempo, herdou muito da organização deixada por Sabella. Entre o céu, a terra e a Argentina, existem mistérios que a ciência talvez nunca explique. E entre Maradona, Messi e a Selección existe uma conexão que os números jamais conseguirão traduzir. Nem sempre o céu explica tudo, como se afirma na música de Henrique & Juliano.

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