Categoria: Futebol Internacional

Gallardo e Simeone são os favoritos para lugar de Scaloni na seleção argentina

Além da dupla formada na escola Vicente López, Pochettino e Pablo Aimar correm por fora como opções da AFA

Fotos: TyC Sports

Se Lionel Scaloni realmente decidir encerrar seu ciclo na seleção argentina ao fim deste ano, a AFA terá uma das decisões mais importantes das últimas décadas. O treinador deixaria um legado gigantesco, com 4 títulos e uma identidade de jogo consolidada, além de um grupo que voltou a colocar a Argentina entre as maiores potências do futebol mundial. A missão de escolher o sucessor seria delicada, pois não se trata apenas de encontrar um bom técnico, mas alguém capaz de manter uma geração vencedora e iniciar uma renovação pensando em 2030.

Hoje, os dois nomes mais fortes são Marcelo Gallardo e Diego Simeone. Gallardo, que recentemente recusou uma proposta para comandar a seleção uruguaia, é muito bem visto por integrantes da comissão técnica de Scaloni e por pessoas ligadas ao atual projeto da seleção. Seu perfil moderno, a capacidade de montar equipes competitivas e a experiência em grandes decisões fazem dele um candidato extremamente forte para dar continuidade ao trabalho desenvolvido nos últimos anos.

Do outro lado está Diego Simeone, que conta com grande prestígio dentro da AFA e, principalmente, junto ao presidente Claudio “Chiqui” Tapia. Além da relação próxima entre ambos, Simeone representa como poucos a essência mais competitiva do futebol argentino, muito ligada ao bilardismo. Treinar a seleção argentina sempre foi um dos grandes sonhos de sua carreira, ao lado do desejo de um dia conquistar a Libertadores pelo Estudiantes. Assumir a Albiceleste seria a oportunidade de buscar também o maior objetivo possível: conquistar uma Copa do Mundo como treinador.

Correndo por fora aparece Mauricio Pochettino. Depois do excelente trabalho realizado no último Mundial, mostrou mais uma vez sua capacidade de construir equipes competitivas mesmo partindo praticamente do zero. Seu estilo mistura conceitos do bielsismo com um menottismo mais equilibrado, valorizando intensidade, organização e protagonismo com a bola. É um técnico que reúne experiência internacional e uma filosofia que conversa bem com a identidade histórica do futebol argentino.

Caso nenhuma dessas opções se concretize, um nome ganha força internamente: Pablo Aimar. Integrante da comissão técnica de Scaloni desde o início do projeto, ele conhece profundamente o elenco, a estrutura da AFA e a cultura criada ao longo desse ciclo vitorioso. Diferentemente de Scaloni, que assumiu uma seleção desorganizada após a era Sampaoli, Aimar encontraria uma casa pronta, organizada e vencedora. Seja com Gallardo, Simeone, Pochettino ou Aimar, a Argentina teria quatro alternativas de peso para dar sequência ao trabalho que pode marcar o fim da histórica era de Lionel Scaloni.

Por acaso, ou não, a Argentina se tornou outra após morte de Maradona

Provável que Don Diego se tornou o Deus que eles tanto queriam no céu

Foto: Clarín Deportes

Há coincidências que o futebol nunca consegue explicar. E talvez a maior delas seja a transformação da Argentina depois da morte de Diego Maradona, em 30 de novembro de 2020. Não se trata de dizer que foi ele quem ganhou os títulos do céu. Trata-se de reconhecer que, desde aquele dia, algo mudou. Mudou a seleção. Mudou Lionel Messi. Mudou a forma como a Argentina passou a competir.

Maradona sempre foi uma presença constante na vida da seleção. Esteve à beira do campo como treinador na Copa de 2010, viveu intensamente cada jogo e monopolizava as câmeras por onde passava. Em 2018, na dramática vitória sobre a Nigéria, protagonizou uma das imagens mais marcantes de sua vida, com os braços erguidos nas arquibancadas e um feixe de luz em cima de sua cabeça. Para os argentinos, Don Diego era muito mais do que um ex-jogador: era uma entidade nacional, quase uma divindade. O destino, porém, foi cruel. Ele jamais viu a Argentina conquistar outro grande título depois da Copa do Mundo de 1986.

Quase oito meses após sua morte, a Argentina venceu a Copa América no Maracanã, encerrando um jejum de 28 anos. Dias depois da partida, era impossível não lembrar que outro personagem fundamental também já não estava entre nós: Alejandro Sabella, o técnico da campanha da Copa de 2014, falecido em 8 de dezembro de 2020, apenas oito dias depois de Maradona. Dois símbolos do futebol argentino partiram sem ver a geração que enfim voltaria a colocar o país no topo. Para quem gosta de poesia no esporte, é como se Diego e Sabella tivessem se transformado em duas estrelas guiando essa equipe aguerrida, intensa e obstinada, que aprendeu a vencer dando o sangue até o último minuto.

E talvez a maior transformação tenha acontecido justamente em Messi. Ainda na semana da morte de Maradona, ele prestou uma homenagem inesquecível ao marcar um gol e reproduzir exatamente a comemoração de Diego com a camisa do Newell’s Old Boys, clube pelo qual ambos passaram. Mas a mudança foi muito além daquele gesto. O Messi reservado, quase tímido, deu lugar a um líder emocional. Na Copa do Mundo de 2022, apareceu o capitão que peitou adversários, discutiu, brigou pelo grupo e eternizou o famoso “¿Qué mirás, bobo?”. Era um Messi diferente, mais argentino do que nunca, disposto a carregar o peso da camisa e da história. Se teve uma época que ele nem cantava o hino e até pediu dispensa da seleção, dessa vez ele canta a plenos pulmões: “O juremos con gloria morir”.

Coincidência? Talvez. Futebol também vive de símbolos, de crenças e de histórias que desafiam qualquer explicação racional. Ninguém pode afirmar que a morte de Maradona mudou o destino da Argentina. Mas é impossível ignorar que, desde que Diego partiu, a seleção encontrou sua identidade definitiva, Messi alcançou a plenitude como líder e Scaloni construiu uma equipe que resgatou a essência maradoniana e, ao mesmo tempo, herdou muito da organização deixada por Sabella. Entre o céu, a terra e a Argentina, existem mistérios que a ciência talvez nunca explique. E entre Maradona, Messi e a Selección existe uma conexão que os números jamais conseguirão traduzir. Nem sempre o céu explica tudo, como se afirma na música de Henrique & Juliano.

Pragmático como Bilardo, Alfaro vai encarar a melhor seleção da atualidade

Após eliminar a Alemanha, Paraguai enfrenta nada menos que o exército de Napoleão e Mbappé

Foto: FIFA WC

Gustavo Alfaro volta a mostrar nesta Copa do Mundo por que é um dos treinadores mais competitivos do futebol sul-americano. A trajetória do Paraguai começou da pior forma possível, com uma derrota diante dos Estados Unidos de Mauricio Pochettino, em um interessante duelo entre dois treinadores argentinos. Naquele primeiro jogo, o time paraguaio sofreu com a intensidade americana e viu o adversário impor seu ritmo. Mas, ao contrário de muitas seleções que se abalam após uma estreia ruim, Alfaro manteve suas convicções e trabalhou em cima do que considera inegociável: organização, disciplina tática e competitividade.

A partir dali, o Paraguai cresceu rodada após rodada. Sem abrir mão de um futebol pragmático, muito bem estruturado defensivamente e extremamente comprometido sem a bola, a equipe encontrou seu caminho na competição. É um estilo que lembra um bilardismo moderado: linhas compactas, pouca exposição, aproveitamento máximo das oportunidades e uma enorme capacidade de sofrer sem perder a organização. A grande prova desse amadurecimento veio no mata-mata, quando eliminou a Alemanha, uma das favoritas ao título, mostrando que, em Copa do Mundo, nem sempre quem controla mais a posse controla o jogo. O Paraguai soube transformar a partida exatamente no cenário que mais lhe interessava e saiu com uma classificação histórica.

O trabalho de Alfaro também ganha ainda mais valor quando se observa sua trajetória recente em Mundiais. Em 2022, comandando a seleção do Equador, ele levou uma equipe jovem para as oitavas de final, organizando um time competitivo, intenso e muito difícil de ser batido. Embora tenha sido eliminado pela Inglaterra, deixou a impressão de que havia extraído praticamente o máximo daquele elenco. Agora, no Paraguai, repete a fórmula: constrói uma equipe antes de pensar em construir um espetáculo. Seu futebol pode não ser o mais bonito para quem valoriza apenas a posse de bola, mas dificilmente deixa seus jogadores desorganizados ou vulneráveis.

O próximo desafio, porém, será o maior de todos. Pela frente está a França, provavelmente a seleção que chega em melhor momento nesta Copa do Mundo. Os franceses possuem enorme qualidade técnica, velocidade, profundidade e um poder ofensivo capaz de desmontar qualquer sistema defensivo. Para Alfaro, será mais uma oportunidade de provar que, em torneios curtos, estratégia, disciplina e competitividade podem equilibrar diferenças técnicas. Se alguém mostrou nesta Copa que sabe transformar uma equipe desacreditada em um adversário indigesto, esse alguém foi Gustavo Alfaro. Agora resta saber se seu pragmatismo será suficiente para superar aquela que, até aqui, parece ser a equipe mais forte do Mundial.

Bielsa passa vergonha em mais uma Copa

Graças a Deus nasci Bilardista!

Foto: FIFA WC

O Uruguai encerrou sua participação nesta Copa do Mundo da pior maneira possível: eliminado sem vencer uma única partida. Foram dois empates e uma derrota para a Espanha, em um jogo de baixíssimo nível técnico. A seleção espanhola também esteve muito longe de fazer uma grande atuação, mas conseguiu encontrar um lance decisivo para vencer por 1 a 0. No fim das contas, foi um verdadeiro espetáculo de erros, pouca criatividade e quase nenhuma inspiração das duas equipes.

Mais uma vez, o trabalho de Marcelo Bielsa deixa a sensação de que existe muito discurso e pouca efetividade. A ideia de jogo baseada em posse de bola, intensidade e pressão alta pode até encantar em determinados momentos, mas, quando chega a hora das grandes decisões, o que fica é a ausência de resultados. Futebol não se resume a estatísticas de posse ou volume ofensivo. O que decide campeonatos continua sendo eficiência, organização e capacidade de transformar superioridade em gols.

Após a eliminação, Bielsa ainda protagonizou uma cena lamentável ao responder de forma ríspida a uma repórter durante a entrevista no gramado. Independentemente da frustração pela derrota, espera-se que um treinador com sua experiência saiba lidar melhor com a imprensa e com o momento difícil. A atitude apenas reforçou a imagem de um técnico muitas vezes visto como excessivamente convicto de suas próprias ideias, mesmo quando os resultados não correspondem às expectativas.

O Mundial termina como um duro golpe para a seleção uruguaia. Com um elenco talentoso e tradição em competições internacionais, esperava-se muito mais do que uma campanha sem vitórias e uma eliminação precoce. No futebol, conceitos e filosofias têm seu valor, mas a história é escrita pelos resultados. Quando eles não aparecem, sobra apenas a frustração de uma campanha que ficará marcada como uma das mais decepcionantes da história recente da Celeste.

A eliminação apenas reforça um roteiro que já se repetiu diversas vezes na carreira de Marcelo Bielsa. Depois do enorme fracasso na Copa do Mundo de 2002, quando comandava uma talentosa seleção argentina que sequer conseguiu passar da fase de grupos, vieram outras campanhas decepcionantes em Mundiais. Com o Chile, apesar dos elogios ao estilo de jogo, os resultados também ficaram muito abaixo do esperado saindo nas oitavas em 2010. Mais uma vez, o discurso, a filosofia e a posse de bola não se transformaram em conquistas.

No futebol, ideias bonitas precisam ser acompanhadas de títulos e campanhas marcantes. Bielsa continua sendo reverenciado por muitos como um gênio, mas sua trajetória em Copas do Mundo está muito mais associada às frustrações do que aos grandes feitos. E, vendo mais um fracasso do bielsismo no maior palco do futebol, só posso repetir uma frase: graças a Deus, sou bilardista.

No comando do Equador, Beccacece estreia no velho estilo bielsista

Seleção tricolor criou milhares de chances, mas não finalizou no alvo para garantir o resultado

Foto: Selección Ecuador

Sebastián Beccacece fez sua estreia em Copa do Mundo e se tornou o terceiro treinador argentino a comandar uma seleção no torneio, depois de Mauricio Pochettino, pelos Estados Unidos, e Gustavo Alfaro, pelo Paraguai. Contra a Costa do Marfim, o Equador mostrou exatamente aquilo que já era esperado de uma equipe treinada por Beccacece: muita posse de bola, circulação constante e uma clara influência da escola de Marcelo Bielsa. O problema é que, mais uma vez, a filosofia funcionou até a entrada da área. Na hora de decidir, faltou o principal: o gol.

A derrota por 1 a 0 acabou sendo um castigo para a falta de eficiência equatoriana. O Equador teve posse, teve iniciativa, criou oportunidades e finalizou bastante. Houve chutes para fora, bolas na trave e algumas chegadas perigosas. Mas eficiência passou longe. A sensação foi de que a seleção equatoriana poderia passar dois dias treinando exclusivamente finalizações, porque a construção das jogadas acontece, mas a conclusão não acompanha. Ter a bola é importante, mas transformar domínio em resultado continua sendo o grande desafio desta geração.

Também pesa a diferença de material humano. Beccacece tenta implementar conceitos parecidos com os que influenciaram treinadores como Bielsa e que hoje aparecem em seleções como a dos Estados Unidos de Pochettino. Só que o Equador possui características diferentes. Muitos de seus jogadores ainda atuam em ligas latino-americanas, como Brasil, México, Colômbia e no próprio futebol equatoriano. É uma seleção competitiva, mas que ainda carrega traços muito próprios do futebol local, sem a mesma capacidade técnica e velocidade de execução apresentada por equipes mais consolidadas.

Em alguns momentos, o Equador lembra até a LDU: dominante quando encontra condições favoráveis, mas com dificuldades para transformar superioridade em resultados concretos. Mesmo com uma torcida esmagadoramente equatoriana nas arquibancadas e um ambiente praticamente de jogo em casa, a equipe acabou derrotada por 1 a 0. Beccacece manteve sua identidade, seguiu fiel à cartilha bielsista e controlou boa parte das ações. Mas o futebol continua premiando quem coloca a bola na rede. E nisso, pelo menos nesta estreia, o Equador ficou devendo.

Em duelo de treinadores argentinos, Estados Unidos de Pochettino atropela Paraguai de Alfaro

Seleção anfitriã atropelou na estreia mostrando que aprendeu algo diferente com técnico bielsista

Foto: FIFA

A segunda noite da Copa do Mundo reservou um interessante duelo argentino à beira do campo. De um lado, Gustavo Alfaro, conhecido por suas equipes organizadas e pela inspiração em conceitos mais próximos do bilardismo. Do outro, Mauricio Pochettino, discípulo declarado de Marcelo Bielsa e defensor de um futebol mais agressivo, intenso e protagonista. No confronto entre Paraguai e Estados Unidos, o placar de 4 a 1 mostrou que, desta vez, a escola bielsista levou ampla vantagem.

Desde que assumiu a seleção dos Estados Unidos, em 2024, Pochettino trabalhou para consolidar uma identidade clara de jogo. O resultado apareceu em campo. A equipe norte-americana apresentou organização, pressão alta, movimentação constante e uma capacidade impressionante de alternar entre atacar e defender sem perder o equilíbrio. Atuando em casa, a seleção mostrou maturidade e confiança, características que nem sempre fizeram parte da história do futebol masculino do país.

O mais interessante foi perceber como essa geração norte-americana pareceu diferente das anteriores. Durante muitos anos, os Estados Unidos compensaram limitações técnicas com força física e disciplina tática. Agora, a equipe exibiu qualidade na circulação da bola, entendimento coletivo e jogadores capazes de tomar decisões rápidas em espaços reduzidos. Não foi apenas uma vitória; foi uma demonstração de evolução de um projeto que ganhou forma nos últimos anos e que encontrou na Copa do Mundo a oportunidade perfeita para se apresentar ao mundo.

Já o Paraguai de Gustavo Alfaro viveu uma noite para esquecer. Mesmo conseguindo marcar um gol, a seleção pouco ameaçou e acabou dominada do início ao fim. O duelo funcionou como um retrato de duas ideias distintas de futebol. De um lado, o bielismo adaptado por Pochettino, baseado em intensidade, posse e iniciativa. Do outro, um modelo mais conservador que não encontrou respostas. No fim, o treinador argentino dos Estados Unidos deu uma verdadeira aula ao compatriota e transformou um confronto equilibrado no papel em um massacre dentro de campo, com direito a goleada e uma das atuações mais convincentes desta Copa até aqui.