Categoria: Futebol Internacional

Trabalho de Crespo exige tempo, assim como o de Gareca

Dois dos melhores técnicos argentinos da atualidade precisam de mercado estável para seus estilos darem resultado

Foto: TyC Sports

No futebol sul-americano, é interessante observar como o trabalho de Hernán Crespo dialoga em vários pontos com a filosofia de Ricardo Gareca. Os dois treinadores não são do tipo que chegam prometendo revoluções imediatas. Pelo contrário: apostam em organização tática, repetição de movimentos e construção de identidade. Isso faz com que seus trabalhos muitas vezes precisem de tempo para maturar, algo cada vez mais raro no futebol brasileiro, onde a ansiedade por resultados costuma atropelar processos.

Taticamente, Crespo costuma montar equipes muito estruturadas. Em seus melhores momentos, como no título da Copa Sul-Americana de 2020 pelo Defensa y Justicia, utilizou variações com três zagueiros, alas muito participativos e saída de bola bem trabalhada desde a defesa. É um treinador que valoriza pressão coordenada e ocupação racional dos espaços.

Logo depois, em 2021, foi contratado pelo São Paulo Futebol Clube e rapidamente marcou sua passagem ao conquistar o Campeonato Paulista 2021 sobre o Palmeiras, quebrando um jejum de títulos do clube e se tornando o primeiro técnico estrangeiro a vencer o torneio em 46 anos. Após essa primeira etapa no Brasil, seguiu carreira no futebol internacional, passando por clubes do Oriente Médio, antes de retornar ao São Paulo anos depois, em um contexto de reconstrução esportiva; porém, após pressão por desempenho e sem liberdade de trabalho, acabou demitido. 

Foto: TyC Sports

Já Gareca prefere estruturas mais clássicas, normalmente em 4-3-3 ou 4-2-3-1, com posse de bola, circulação paciente e confiança no talento ofensivo dos jogadores. Foi assim que conduziu a Seleção Peruana de Futebol de volta a uma Copa do Mundo FIFA de 2018 depois de 36 anos. Gareca seguiu no cargo até 2022, período em que ainda foi vice-campeão da Copa América 2019 e chegou à repescagem para o Mundial de 2022, quando o Peru acabou eliminado pela Austrália; após sete anos e 96 jogos no comando, deixou a seleção por não aceitar a redução salarial proposta pela federação peruana.

Depois de um período sem clube, o treinador voltou ao cenário internacional ao assumir a Seleção Chilena de Futebol em 2024, com a missão de reconstruir a equipe e disputar competições continentais, mas o ciclo acabou sendo curto e, no momento, ele se encontra novamente sem clube, avaliando novas oportunidades no futebol sul-americano ou em seleções.

Apesar das diferenças de desenho tático, Crespo e Gareca compartilham uma mesma matriz conceitual: acreditam em futebol ofensivo, em times organizados e em protagonismo com a bola. Nesse sentido, ambos estão muito mais próximos da tradição do César Luis Menotti do que do pragmatismo histórico de Carlos Bilardo. Ou seja, a ideia de jogo vem antes do resultado imediato — e isso explica por que seus trabalhos ganham força quando existe continuidade.

Depois da saída do São Paulo FC, o futuro de Crespo ainda é um ponto aberto, mas seu perfil parece dialogar melhor com mercados que valorizam projeto. A Argentina sempre será um caminho natural, mas ligas como a mexicana ou até algumas da Europa — especialmente em clubes de médio porte que gostam de treinadores jovens e ideias modernas — podem oferecer o ambiente ideal. Crespo ainda é um técnico em construção, mas com identidade clara. E no futebol atual, ter essa identidade já é metade do caminho para voltar mais forte.

Galvão estreia pelo SBT na vice-liderança em embate contra Craque Neto

“Galvão FC” foi bem promovido na grade da emissora e não tem gritaria como no concorrente. Continua sendo a melhor opção para as noites de segunda-feira

Foto: Reprodução

A estreia de Galvão Bueno no SBT marca um daqueles momentos que entram para a história da televisão brasileira. Depois de décadas sendo a voz oficial das grandes transmissões esportivas da Globo, Galvão começa um novo capítulo em uma emissora que respira entretenimento popular e proximidade com o público. E começou bem: vice-liderança na audiência, ficando atrás apenas da Globo, que exibia o Big Brother Brasil e um especial sobre os Mamonas Assassinas. Não é pouca coisa. É sinal claro de que o público quis ver essa nova fase.

O programa é um debate de verdade. Todo mundo fala, todo mundo é ouvido. Mesmo com o Galvão — que, como a gente sabe, adora uma boa narrativa e não economiza palavras — o formato não vira gritaria, não vira bagunça. Há organização, há respeito e há espaço para opinião. A presença de Ratinho deu um tempero especial, mostrando que o SBT soube misturar perfis diferentes sem perder o controle da mesa. É um programa que dá gosto de assistir porque tem conteúdo, mas também tem leveza.

Galvão está visivelmente feliz. E isso a gente já vinha comentando na coluna: ele precisava de novos ares. No SBT, ele parece mais solto, mais à vontade, menos engessado do que em seus últimos anos na Globo. A mudança de emissora fez bem. Ele continua sendo o grande comunicador de sempre, com a experiência de quem atravessou gerações, mas agora com um brilho diferente no olhar — aquele brilho de quem está se divertindo de novo fazendo televisão. Seu programa na Band em 2025 também foi legal, mas lá agora, no mesmo horário tem o “Apito Final” de Craque Neto como concorrente. Nesta segunda ele ficou em apenas 5º lugar na audiência.

Algo que comprova a leveza e felicidade de Galvão na nova casa, foi vê-lo participando do Passa ou Repassa, no Domingo Legal, levando tortada na cara e rindo de si mesmo. É outro Galvão. Ou melhor: talvez seja o Galvão de sempre, mas sem amarras. Ver um ícone histórico da TV se permitindo brincar, sair do pedestal e se misturar ao espírito irreverente do SBT é muito mais interessante do que acompanhá-lo preso a um formato rígido. Essa nova fase promete — e, pelo começo, será marcante. Além disso, ele continua sendo a melhor opção para as noites de segunda.

Como vai ser o River Plate de Eduardo Coudet

Menottista articulador, substituto de Gallardo terá tarefa difícil com elenco estrelado e preguiçoso

Foto: Clarín Deportes

A chegada de Eduardo Coudet ao comando do River Plate promete inaugurar uma nova fase no clube, marcada por intensidade e protagonismo. Conhecido por seu perfil competitivo e pela obsessão por times agressivos, o treinador argentino costuma montar equipes que não esperam o jogo acontecer: elas provocam o erro do adversário. A pressão alta e a tentativa constante de recuperar a bola no campo ofensivo devem se tornar marcas registradas dessa nova etapa.

O estilo de Coudet é essencialmente ofensivo e vertical. Seus times atacam com velocidade, buscando transições rápidas e objetivas, especialmente após a recuperação da posse. A ideia é sufocar o rival, acelerar o ritmo da partida e transformar roubadas de bola em oportunidades claras de gol. Esse comportamento exige preparo físico elevado e sincronização coletiva, dois pontos que naturalmente passam a ser prioridade na rotina de treinamentos.

Taticamente, ele costuma trabalhar com estruturas como 4-1-3-2 ou 4-2-3-1, privilegiando meias próximos e atacantes móveis. A compactação entre os setores é fundamental para que a pressão funcione de forma coordenada. Além disso, Coudet valoriza jogadores dinâmicos, capazes de alternar funções e participar tanto da construção quanto da finalização das jogadas. O time tende a ser curto, intenso e constantemente ativo sem a bola.

Foto: TyC Sports

Ao mesmo tempo, embora tenha uma identidade muito clara, Coudet não é inflexível. Ele costuma adaptar detalhes do sistema às características do elenco disponível, potencializando atletas criativos ou explorando a profundidade pelos lados quando necessário. No River, a expectativa é de um futebol vibrante, competitivo e agressivo, que combine tradição ofensiva com uma dose extra de intensidade e pressão constante.

Antes de retornar agora como treinador, Coudet viveu o River dentro de campo. Revelado pelo clube, ele atuou como meia nos anos 1990 e integrou um dos períodos mais vitoriosos da história riverplatense, trabalhando principalmente sob o comando de Ramón Díaz, seu treinador mais marcante na época. Como técnico, acumulou passagens por clubes importantes como Rosario Central, Racing Club, Internacional, Celta de Vigo e Atlético Mineiro, consolidando-se como um treinador de perfil moderno e competitivo.

Agora, ele terá o enorme desafio de substituir Marcelo Gallardo, considerado o maior técnico da história do River Plate, carregando a responsabilidade de manter o clube no topo e, ao mesmo tempo, construir sua própria identidade à beira do campo. Vai ser complicado, com o atual elenco preguiçoso que o time tem.

Ser mulher no futebol brasileiro é um inferno

Fazer carreira fora, para quem pode, muitas vezes é uma válvula de escape

Foto: O Globo

Ser mulher no futebol brasileiro é, muitas vezes, um exercício diário de resistência. O preconceito atravessa todos os setores: começa na arquibancada, ecoa nas redes sociais e se infiltra dentro de campo, especialmente quando falamos de árbitras e repórteres. A cobrança é sempre maior, a desconfiança é automática e o erro — que para os homens é “normal do jogo” — para a mulher vira sentença definitiva. No Jornalismo Esportivo, então, a barreira é ainda mais cruel: não basta estudar, entender de tática, mercado e bastidores. É preciso provar, todos os dias, que você “merece” estar ali. Neste fim de semana, foi a vez da árbitra, Daiane Muniz, sofrer com comentários horríveis por parte de um jogador no Paulistão.

Enquanto isso, países vizinhos mostram que é possível fazer diferente. Em mercados como o mexicano e o argentino, as mulheres conquistaram mais espaço diante das câmeras, nos estúdios e na beira do campo — e, principalmente, mais respeito. Não é que não exista machismo, ele está em toda parte. Mas há abertura real para crescimento profissional. Lá, repórteres e apresentadoras não são vistas como “enfeite” de transmissão. São jornalistas de verdade. São protagonistas. São vozes que analisam, opinam e pautam. E além disso, são muito respeitadas pelas torcidas.

Eu tive a sorte — e digo sorte mesmo — de construir carreira no futebol mexicano e argentino. Se dependesse exclusivamente do mercado brasileiro, talvez eu não tivesse nem 70% da trajetória que consegui consolidar. Trabalhar fora me deu rodagem, autoridade e reconhecimento que, muitas vezes, são negados aqui dentro. É duro admitir, mas o Brasil ainda trata a mulher no esporte como exceção, quando ela já deveria ser regra.

E o problema vai além do campo. O Brasil vive um retrocesso preocupante em relação à vida e ao respeito à mulher. Durante anos, apontaram o dedo para o México como o país com uma das maiores taxas de feminicídio do mundo. Hoje, o Brasil flerta perigosamente com esse topo vergonhoso. O machismo estrutural que deslegitima uma árbitra é o mesmo que silencia uma vítima. A pergunta que fica é simples e dolorosa: até quando vamos tratar a presença feminina no futebol — e na sociedade — como algo que precisa ser tolerado, e não respeitado?

Galvão está mais leve e feliz no SBT

Narrador se mostra muito à vontade como em nenhuma outra fase de sua carreira

Foto: Arquivo Pessoal

A estreia de Galvão Bueno no SBT, marcada para o dia 02, tem um peso simbólico enorme na televisão brasileira. Depois de décadas sendo a voz oficial das Copas do Mundo na Globo, ele agora inicia um novo capítulo em uma emissora que sempre sonhou em tê-lo no elenco. Não é apenas mais um contrato: é a união de duas marcas fortes que, por caminhos diferentes, construíram história na TV aberta. O SBT sempre quis Galvão. E, no fundo, faltava mesmo essa marca do SBT na carreira dele.

O acordo vai muito além de um programa semanal. Galvão assinou inicialmente para narrar a Copa do Mundo de 2026 pela emissora — um movimento estratégico e histórico. A Copa sem Galvão parecia estranha para o público brasileiro, e o SBT entendeu isso. Ao garantir a voz mais emblemática do futebol nacional, a emissora dá um passo gigantesco na disputa por audiência e prestígio esportivo. Para Galvão, é a chance de escrever uma nova narrativa, agora vestindo outras cores.

A diferença no semblante dele é visível. No período em que esteve na Band, parecia que havia uma certa obrigação no ar — como se estivesse cumprindo tabela. Faltava brilho, faltava leveza. No SBT, ao contrário, ele aparenta estar solto, confortável, feliz. Existe uma energia diferente. A emissora de Silvio Santos tem essa característica de ser um canal com clima mais familiar, mais acolhedor, quase caseiro. E isso combina muito com alguém que sempre foi intenso, emocional e apaixonado como Galvão.

No fim das contas, parece ter sido a escolha certa. O SBT ganha força, ganha tradição esportiva e ganha um nome que atravessa gerações. Galvão ganha liberdade, entusiasmo e um novo desafio à altura da sua história. Ele se mostra muito mais à vontade para ser como é. E a Globo? Perde uma de suas vozes mais icônicas e está sem narrador bom de verdade para esse Mundial. A televisão é feita de ciclos — e este novo ciclo promete ser barulhento, emocionante e, ao que tudo indica, muito feliz.

Eduardo Domínguez, de perfil bilardista, deixa o Estudiantes LP após vitoriosa trajetória

Para seu lugar, Alexander Medina, Martín Palermo e Martín Demichelis são os favoritos de Verón

Foto: TyC Sports

Foi embora pela porta da frente! Eduardo Domínguez, técnico argentino de 47 anos, encerrou seu ciclo no Estudiantes de La Plata depois de quase três temporadas marcantes no comando do clube. Sua saída já estava confirmada e ele caminha para assumir o comando do Atlético Mineiro, no futebol brasileiro, deixando um legado de títulos e identidade tática construída passo a passo no Pincha. 

Domínguez chegou ao Estudiantes em março de 2023 com a missão de devolver ao clube a competitividade que ele não vinha tendo havia anos — e conseguiu exatamente isso. Em pouco tempo, construiu um dos ciclos mais vitoriosos da história recente do clube, conquistando cinco títulos oficiais: Copa Argentina 2023, Copa de la Liga 2024, Trofeo de Campeones 2024 e 2025 e o Campeonato Argentino (Clausura 2025). Esses triunfos colocam Domínguez entre os técnicos mais vencedores da história do Estudiantes, atrás apenas de lendas como Osvaldo Zubeldía. 

Sua passagem pelo Estudiantes foi marcada por um crescimento tático claro. Domínguez montou uma equipe sólida, organizada e difícil de ser batida: a equipe tinha forte base defensiva, equilibrava bem as transições e nunca deixava de ser competitiva nos momentos decisivos — características que fizeram a torcida reverenciar sua gestão, mesmo nos momentos de dificuldade. 

Segundo analistas e quem acompanhou o futebol argentino, o estilo de jogo de Domínguez é mais alinhado com uma corrente pragmática e competitiva, algo que puxa mais para o perfil bilardista do que para uma filosofia menotista pura. Isso não significa um futebol negativo — longe disso — mas sim um time que prioriza organização, intensidade e equilíbrio, muito presente nos times que ele treinou. A ideia central parecia sempre ser conseguir o resultado com disciplina tática e solidez defensiva, características que ressoam com a escola de Bilardo, focada em organização e resultado. 

Treinar o Estudiantes, para ele, foi mais que uma etapa profissional: foi um projeto de reconstrução de identidade competitiva. Domínguez chegou num momento em que o clube vivia um jejum de títulos nacionais importantes e conseguiu devolver ao Pincha uma aura vencedora — títulos que não vinham há mais de uma década — e, principalmente, um estilo claro de jogo que uniu defesa e capacidade de decisão em fases cruciais. 

A decisão de sair nesse momento tem cara de oportunismo profissional: com os títulos já conquistados e uma oferta sólida do Atlético Mineiro, Domínguez entendeu que era o momento de buscar um novo desafio e avançar na sua carreira fora da Argentina. Além disso, fatores como a pressão natural de um desmantelamento de elenco e a vontade de experimentar o futebol brasileiro também influenciaram. 

No fim, sua passagem pelo Estudiantes fica como um dos capítulos mais vitoriosos e bem-construídos da sua carreira: títulos, estilo, legado e reconhecimento tático. Saída com a cabeça erguida, com a sensação de missão cumprida — e, claro, com a porta aberta para novos desafios. Para assumir a equipe pincha de La Plata, os candidatos principais são Martín Palermo, Alexander Medina e Martín Demichelis. Os três tem formação na tradicional escola de treinadores Vicente López.