Major Messias de ‘Vitória’ deixa Rocha de ‘Tropa de Elite’ no chinelo

Foto: @marcioricciardi

No filme “Vitória”, a milícia também dá seu jeito de agir e estrelar o longa como típica vilã que é no dia a dia, além da ficção. Com o personagem Major Messias (Márcio Ricciardi), que opera como uma engrenagem invisível dentro do sistema, os milicianos garantem que os interesses do crime organizado sejam protegidos sob o manto da legalidade. Disfarçados de agentes da lei que combatem a violência urbana, os homens de Messias no batalhão da região onde vive Dona Nina (Fernanda Montenegro), estabelecem um império de terror e silêncio. Eles não apenas controlam comunidades inteiras com coerção e assassinatos seletivos, mas também se infiltram em órgãos oficiais para garantir que investigações contra traficantes aliados nunca avancem.

Dessa forma, eles transformam a própria estrutura policial em um escudo para criminosos, enquanto eliminam qualquer oposição com métodos brutais. A influência da milícia no filme pode ser vista principalmente quando Dona Nina vai fazer suas primeiras denúncias após ter seu apartamento atingido por tiros em uma noite de confronto no morro vizinho. Os policiais fazem corpo mole e exigem provas para que as coisas avancem para ela. Mas vemos também em suas gravações pela janela, os mesmos policiais do batalhão recebendo propina dos traficantes para que tudo ali continue como está. Até que numa bela tarde, o Major Messias vai buscar dinheiro e trocar armas de alto calibre com os traficantes que dominam a comunidade ao lado do prédio da senhora, em Copacabana.

Nesse momento do filme, sempre que um investigador independente ameaça expor o envolvimento de oficiais com o crime, Major Messias e seus homens entram em ação, utilizando desde a falsificação de provas até a intimidação direta. Quando necessário, assassinatos são encenados como confrontos legítimos, apagando qualquer rastro de suas operações ilícitas. Dessa maneira, a impunidade é mantida, e qualquer tentativa de investigação esbarra na própria estrutura corrompida da polícia.

Falando em intimidação, uma das cenas mais tensas do filme é quando Major Messias vai até o apartamento de Dona Nina dar um chega pra lá nela. Olha, onde já se viu hein, Major?? Vai mexer com alguém do seu tamanho, porra. Nada de pior acontece naquele momento porque o jornalista Flávio Godoy (Alan Rocha), chega para livrar Dona Nina do pior que o Major poderia fazer. Naquela hora, inclusive, ele estava trajado como um característico miliciano, tipo um Zé do Caroço em um dia comum. Ao assistir a atuação de Ricciardi como Major, nos lembramos de um outro personagem que poderia até ser super amigo de Messias: o Rocha de “Tropa de Elite”.

Vivido por Sandro Rocha, o Major que não tem tanta relevância no primeiro filme do Tropa, rouba a cena e o protagonismo para si no segundo longa. O que assemelha Rocha de Messias é o papel que fazem como milicianos, além das roupas cafonas que ambos usam para tocar o terror nas regiões que comandam. A diferença entre eles é que de alguma forma, Rocha mexeu com gente de igual pra igual, enquanto Messias foi bater de frente com uma idosa. No fim, Major Messias teve o que mereceu. Mas até achava digno ele ter a mesma conclusão de Rocha. Não acharíamos de todo ruim… Aliás, se você que está lendo ainda não foi conferir “Vitória” nos cinemas: VÁ LOGO, TÁ FAZENDO O QUÊ AQUI?!

Sem spoilers, mas à medida que a trama avança, fica evidente que a corrupção na alta cúpula da polícia não é um problema isolado, e sim, um sistema interligado em que todos os envolvidos tiram algum benefício. Major Messias é retratado como alguém que, apesar da farda e do discurso de ordem, não se diferencia dos traficantes que diz combater. O longa mostra como essa dualidade entre lei e crime se dissolve quando a própria polícia se torna o braço armado do poder paralelo. Não há heróis na estrutura corrompida, apenas aqueles que aprenderam a jogar o jogo e os que tentam sobreviver a ele.

No desfecho de “Vitória”, as provas contundentes contra Messias vêm à tona. O filme até oferece um final confortante para seu enredo, que aconteceu na vida real como relatada na obra escrita pelo jornalista Fábio Gusmão vivida por Joana da Paz. Mas seu final na telona ainda causa uma reflexão amarga sobre como a corrupção não se limita aos criminosos visíveis nas ruas. Ela está entranhada nos corredores do poder, sustentada por aqueles que deveriam combatê-la. A milícia hoje tem uma nova estrutura, bem mais avançada que há de 20 anos. Saímos da sala de cinema exaustos e mexidos com a história que “Dona Vitória” viveu e é muito bem retratada em cena. Também saímos com um ranço enorme de Major Messias, que ao contrário de Rocha, não nos faz rir em nenhum momento com suas escrúpulas atitudes. Por essas e outras, ele deixa o miliciano de Rio das Pedras no chinelo.

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