“Viver Sertanejo” é excelente, mas precisa de ajustes

Foto: Giu Pera

O programa Viver Sertanejo, apresentado pelo cantor Daniel, é uma das melhores surpresas das manhãs de domingo na TV. Com um cenário aconchegante e intimista, a produção é uma celebração à música sertaneja e aos artistas que ajudaram a construir sua história. A cada episódio, o cantor Daniel já recebeu grandes nomes do gênero, como Chitãozinho & Xororó, Gian & Giovani, Lourenço & Lourival, entre muitos outros. Eu mesma já espero pelo programa com minha dupla favorita, Rick & Renner. Além disso, o Viver Sertanejo abre espaço para compositores que embora sejam menos conhecidos pelo público, possuem uma importância gigantesca para o sertanejo, como foi o caso de Zé Henrique e Fátima Leão, uma das maiores compositoras do Brasil.

Daniel, sempre carismático e acolhedor, conduz as conversas com muita propriedade, relembrando histórias de bastidores, sucessos marcantes e momentos que definiram o sertanejo. Não é sua primeira experiência apresentando um programa. Na época em que Xuxa esteve de licença maternidade, ele assumiu o comando do “Planeta Xuxa” em um domingo no ano de 1998. Agora, no Viver Sertanejo, Daniel conecta gerações e reforça o valor do movimento sertanejo que está profundamente enraizado na cultura brasileira.

No entanto, apesar de todas essas qualidades, o programa esbarra em alguns problemas que comprometem parte de sua proposta. O tempo de duração e alguns convidados não permitem a conversa se aprofundar em assuntos mais interessantes para o público. Com pouco mais de 50 minutos de programa e muitos convidados em cada edição, o ritmo acaba ficando apressado. Tudo está atropelado, não justificando a presença de certos convidados. Muitas vezes o convidado de renome está contando algo bem legal, mas é interrompido por um artista que começou esses dias e nem tem assunto para agregar no programa. Nem um bom roteiro salva essas coisas.

A sensação é de que as conversas não fluem como poderiam e histórias riquíssimas acabam sendo atropeladas. Um exemplo muito comentado por internautas no dia em que foi ao ar é o episódio da participação de Fátima Leão, compositora de sucessos como “Dormir na Praça” e “Alô”. Apesar de sua relevância e do enorme repertório que ela tem, não houve tempo suficiente para que ela contasse suas histórias e sequer cantar o maior sucesso dela, justamente a “Dormir na Praça”, que chegou a ser gravada. No entanto, a música foi cortada na edição no episódio, cheio de gente para falar. Caberia naquele programa somente ela junto com Zé Henrique & Gabriel, por exemplo. Que fizessem outro episódio com Tierry, Grelo e Day & Lara, dando até para colocar mais um compositor relevante da atual geração.

A crítica, portanto, não é ao conteúdo ou à ideia do programa, que é maravilhosa e tem funcionado de certa forma, mas sim à execução, que poderia ser ajustada. Quem não ficou sentindo falta de boas histórias que Rionegro & Solimões no domingo passado? Inclusive, aquela famosa história em que um fã encontrou o Rionegro sozinho em um hotel e perguntou: “Cadê aquele altão que canta com você?”. Ao invés disso, foi preciso aguentar Luan Pereira com uma conversa sem pé, nem cabeça. Já aquele episódio dos Menotti com Lourenço & Lourival, mesmo com ambas às duplas sendo de diferentes gerações, funcionou porque eles realmente possuem uma ligação. Carregam história de sobra pra contar conhecendo um a carreira do outro.

Talvez reduzir o número de convidados por edição ou ampliar a duração do programa fosse o ideal. Dá pra cortar alguns minutos daquele chatíssimo Auto Esporte para dar mais espaço na grade da manhã dominical. Assim, os artistas teriam mais espaço para se expressar e o público poderia mergulhar mais a fundo nas conversas entre os ídolos que fizeram e fazem parte de sua vida. Dava para descobrirmos mais histórias inéditas, coisas que movimentam os bastidores ou detalhes de discos que mudaram a carreira de cada artista.

O Viver Sertanejo tem tudo para ser um marco na TV brasileira, mas precisa desses ajustes de separar geração com geração para alcançar todo o seu potencial. Nem sempre um episódio com um artista renomado agrada porque no meio tem um recente. O programa pode funcionar muito bem com artistas dessa atual geração se encontrando entre si. Talvez será possível ver essa melhoria nos próximos programas que serão gravados, já que agora os episódios são fixos nas manhãs da Globo.

Com mais tempo e menos pressa, Daniel e seus convidados poderiam proporcionar uma experiência ainda mais rica e emocionante para os telespectadores. Afinal, a música sertaneja não merece ser contada às pressas – ela merece ser vivida como o próprio nome Viver Sertanejo propõe. Sem contar que tem sido ótimo acordar aos domingos e tomar aquele café, ouvindo uma prosa boa na fazenda de Daniel com os maiores nomes do gênero mais popular do país.

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