Bruno & Marrone deveriam seguir Leonardo e não gravar mais nada inédito

Foto: @iamluiz

Não dá pra agradar a todos, mas não agradar ninguém é complicado. Bruno e Marrone, sem dúvidas, são uma das duplas sertanejas mais icônicas do Brasil. Para muitos, a melhor voz e o melhor repertório do gênero vieram desses 30 anos que Bruno & Marrone estão na estrada. Eles têm uma carreira sólida, uma história incrível e músicas que atravessaram décadas tocando o coração de muita gente. Mas, nos últimos anos, a dupla parece ter entrado em um caminho perigoso, tentando conquistar um público jovem que, sejamos sinceros, nunca foi o público deles. E, nesse processo, estão desagrando quem sempre esteve lá, acompanhando cada passo da trajetória deles.

É impossível falar de Bruno e Marrone sem lembrar do renomado Acústico, de 2001, gravado em Uberlândia. Ou da genialidade do AcústicoAmarelinho” feito no ano anterior. Ambos foram um marco na carreira da dupla, daqueles discos que você ouve do começo ao fim sem pular uma faixa. O Acústico de Uberlândia foi o trabalho que colocou a dupla em outro patamar, conquistando uma audiência nacional e eternizando músicas como “Vida Vazia”, “Um Bom Perdedor” e “Por Um Minuto”. Bruno & Marrone quebraram o monótono mercado sertanejo que vinha da hierarquia da tríade formada pelo “Amigos”. Não é exagero dizer que foi um divisor de águas no sertanejo toda sonoridade daquele disco. É uma obra que até hoje se tornou referência de qualidade, principalmente pelos violões de Marco Abreu.

Mantendo a áurea de Bruno & Marrone, outros discos como o Inevitável, de 2003, o Viagem produzido por Paulo Debétio em 1998 com um repertório impecável e canções que se tornaram trilha sonora de muitos romances e desilusões. Sucessos dali entraram na carreira de outras duplas anos depois, como “Mil Razões para Chorar” e “Tem Nada a Ver”. E quem teve o privilégio de assistir a um show deles no Olympia, em São Paulo, sabe do que eu estou falando. Aquela casa de shows, tão emblemática, foi palco de momentos inesquecíveis da música brasileira. Bruno & Marrone eram presença constante, sempre lotando o lugar e entregando apresentações emocionantes. Podemos ver isso no DVD ao vivo de 2004. Eram shows intimistas, com uma energia única, onde cada música era cantada em coro pelo público. Eles não precisavam de pirotecnia ou de grandes produções: era só a voz do Bruno, a sanfona do Marrone e aquelas letras que falavam direto ao coração tocadas pela banda de excelentes músicos. Como esquecer o grande álbum “De Volta aos Bares”, de 2009.

E é justamente por isso que é tão frustrante ver a dupla tentando se reinventar de forma tão desconectada do que sempre foram atualmente. É claro que todo artista tem o direito de experimentar, de buscar novos caminhos. Mas Bruno & Marrone já encontraram o deles há muito tempo. Eles são mestres no que fazem, e a fórmula sempre foi simples: Músicas boas, arranjos diferenciados das produções de Maluly e Dudu Borges, e aquela conexão única com o público. Hoje as pessoas saem do show reclamando dos arranjos em sertanejo universitário que algumas músicas já clássicas da dupla ganharam no último DVD de regravações. Se essas não agradaram por terem mexido com o que não precisava, o que dizer dos novos lançamentos? Uma música pior que a outra nos últimos anos, que dava pra fazer uma lista infinita de “Piores do Ano” como o Dudu Purcena faz.

Se a ideia é buscar inspiração em algo, que tal olhar pro Leonardo? Ele entendeu o jogo. Hoje, ele vive dos clássicos, lota shows, canta as mesmas músicas que o público ama desde os tempos de Leandro & Leonardo e de sua carreira solo que teve até momentos pop quando tentaram fazer dele o Ricky Martín brasileiro. Leonardo não grava nada novo e não tenta agradar um público que não é o dele. E sabe o que é mais interessante? Ninguém reclama, porque todo mundo sabe que é isso que se espera de um artista com uma carreira tão rica. Leonardo gravou um EP inédito em 2021. Mas alguém se lembra? Pois bem… Nem no repertório do show essas músicas devem ter entrado, porque ele tem repertório de sobra para horas de show sem ter que inventar moda. Recentemente, Leonardo declarou que não pretende gravar mais nada inédito em sua carreira. E ele está certo!

Bruno & Marrone têm um legado incrível, construído com trabalho duro e talento inquestionável. Não precisam correr atrás de tendências ou tentar agradar uma geração que provavelmente nunca vai se interessar pelo sertanejo deles. Músicas como “Namorando” ou “Nana” não fazem sucesso, nem quando vão pra rádio. O ouvinte liga nos programas pra pedir “Ligação Urbana”, de vinte anos atrás. O público fiel deles está ali, esperando por mais daqueles momentos mágicos que só eles sabem proporcionar nos shows com as guitarras do Márcio Kwen e o baixo do Giuliano Ferraz. As pessoas não querem hits descartáveis ou tentativas de viralizar no TikTok. O público de B&M quer as músicas que fazem parte da história que todos viveram ao som da dupla.

A verdade é que a grandeza de Bruno & Marrone está justamente no que eles já fizeram. O sonho de muitos é um projeto dos boleros gravados pela dupla, ou uma regravação daquele Acústico, mas sem arranjos de sertanejo modinha. Aproveitar o repertório onde se tem composições da Fátima Leão, do Elias Muniz, da parceria Bruno e Felipe (Falcão), do Luiz Cláudio e do Giuliano. Às vezes, o melhor caminho é olhar pra trás, valorizar o que já se construiu e continuar emocionando o público que sempre esteve ao lado deles desde os tempos da barraca Abobrão nas exposições agropecuária de Rio Verde. Afinal, pra quê mexer no que já é perfeito?

7 comentários sobre “Bruno & Marrone deveriam seguir Leonardo e não gravar mais nada inédito

  1. Vc escreveu sobre o Atemporal esses dias. O projeto do Calcinha é exemplo do que o público queria e eles fizeram. Será que uma dupla como Bruno e Marrone nao enxergam o simples?

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