Categoria: Carnaval

Os Donos do Jogo: Realidade vivida no jogo do bicho faz a série parecer um tédio

Nenhum roteiro fictício chega aos pés da vida real dos bicheiros que comandam o Rio de Janeiro e o carnaval. Melhor assistir Vale o Escrito

Foto: Netflix

A série Os Donos do Jogo, da Netflix, é bem produzida, tem um elenco competente e entrega um enredo cheio de ritmo. Mas, mesmo com tudo isso, falta algo que a faça realmente vibrar. A trama tenta mergulhar no submundo do jogo e da ambição, porém o espectador que já viu Vale o Escrito sente que está assistindo a uma versão mais polida, menos visceral e distante da intensidade da vida real.

É inegável que o roteiro busca refletir as tensões e bastidores de um universo perigoso, onde dinheiro e poder ditam as regras. Ainda assim, quando colocamos lado a lado com a realidade do jogo do bicho — que, por si só, é um capítulo à parte da história brasileira —, nenhuma ficção consegue competir. A vida real é mais crua, mais contraditória e infinitamente mais imprevisível.

Vale o Escrito, o documentário que se tornou fenômeno no Globoplay, expõe essa realidade de maneira direta, quase brutal. As declarações do delegado Vinícius George, por exemplo, são um choque à parte: ele fala do jogo do bicho com a frieza de quem conhece as entranhas do sistema, descrevendo personagens reais que superam em complexidade qualquer vilão de série. As histórias como a de Maninho — o bicheiro lendário que viveu entre o luxo, a guerra e a devoção — são de um enredo cinematográfico impossível de inventar. Cada detalhe de sua trajetória, dos confrontos com rivais às alianças improváveis, mostra o quanto o Brasil real é mais fascinante que a ficção.

Foto: O Globo

O elenco de Os Donos do Jogo brilha, especialmente nos momentos de confronto e dilema moral, mas falta o peso da verdade que Vale o Escrito escancara sem pudor. O documentário nos faz entender que o jogo do bicho não é apenas uma atividade ilegal — é uma estrutura social, política e emocional enraizada na cultura carioca. Já Os Donos do Jogo, por mais competente que seja, não tem o mesmo impacto, nem a mesma coragem de encarar as sombras de frente.

No fim, é uma boa série, mas nada marcante ou inesquecível. A ficção tenta recriar o calor da roleta da vida, mas o jogo real — esse que move paixões, fortunas e tragédias — continua imbatível, escrito nas esquinas, nos becos e nas histórias que o tempo insiste em não apagar. E outra, aqui na vida real temos a Mocidade com o Castorzinho, grande mascote do carnaval. Na série falta alguém com o brilho dele, é claro. Falta um Piruinha pra gente rir. Tudo deixa a desejar, pois nenhum roteirista conseguiria escrever algo que só a cidade do Rio e seu carnaval foram capaz de produzir.

Vila Isabel e Beija-Flor saem na frente no quesito samba-enredo para o Carnaval 2026

Safra de bons enredos vem decepcionando nas escolhas dos sambas. Muita escola fará o povo dormir na avenida

Foto: Liesa

Os sambas-enredo para o Carnaval do Rio de Janeiro 2026 estão sendo anunciados, mas a safra vem decepcionando. Alguns sambas não empolgaram até então, com obras abaixo da média e que não corresponderam ao potencial dos enredos escolhidos. A sensação é de que as escolas não conseguiram transformar boas ideias em músicas que realmente traduzam emoção e força para a avenida. É um cenário fraco para o próximo ano, que preocupa quem espera 12 meses por um desfile marcado pela potência musical que sempre foi característica do carnaval carioca.

Nesse contexto, apenas duas escolas despontam de verdade: Vila Isabel e Beija-Flor de Nilópolis. Ambas largaram na frente no quesito samba-enredo, se destacando num mar de obras esquecíveis. Enquanto as demais ainda parecem buscar identidade e firmeza em suas escolhas erradas, essas duas escolas já mostraram consistência e entregaram sambas que caíram no gosto do público e ganharam corpo desde as primeiras apresentações.

O caso da Vila Isabel é especial: seu samba conquistou de imediato. Desde a primeira audição, ficou claro que a obra tinha alma, tinha força e tinha o povo do seu lado. É aquele samba que ecoa fora dos muros da quadra e se espalha naturalmente, algo raro nesta temporada. É o samba candidato a sair da bolha em 2026. Já a Beija-Flor, com sua conhecida competência, fez ajustes e junções que resultaram em um samba com cara de bicampeão. E só no primeiro ensaio com seus intérpretes que vão estrear na avenida sem Neguinho da Beija-Flor pela primeira vez, a escola já transmitiu a aura de quem briga por um bicampeonato — uma atmosfera que só a Beija-Flor consegue criar em seu terreiro de Laíla.

Diante desse quadro, a conclusão é inevitável: a Vila Isabel tem o samba do ano. É a obra mais vibrante, mais popular e mais comentada. É o samba que já nasce com status de favorito. Por enquanto, a Vila é a escola a ser batida no Carnaval de 2026, principalmente pela dupla de carnavalescos que comanda o enredo deste ano. A Beija-Flor corre logo atrás, com uma força que pode surpreender na avenida e um enredo cheio de energias positivas. As demais, infelizmente, ficam em dívida com o público, deixando a sensação de que poderiam ter entregue muito mais do que apresentaram.

Arlindo Cruz foi enredo em vida por duas escolas de samba, no Rio e em São Paulo

X-9 Paulistana fez desfile histórico no Anhembi com samba composto por Arlindinho

Foto/Reprod: O Globo

O samba perdeu hoje um de seus maiores mestres. Arlindo Cruz partiu, mas deixa um legado inestimável para a música e para a cultura brasileira. Um artista que viveu para o samba e, raridade entre os grandes, foi celebrado como enredo de escolas de samba ainda em vida — e não apenas uma, mas duas vezes.

A primeira homenagem veio em 2019, no Carnaval de São Paulo, pela X-9 Paulistana. O enredo ganhou ainda mais significado por ter o samba assinado por Arlindinho, filho de Arlindo. A escola foi a penúltima a entrar na avenida naquela noite de sexta para sábado, num amanhecer mágico que marcou a história do Anhembi. A X-9 e a família do cantor não mediu esforços para levá-lo à avenida: organizaram toda a logística para que ele chegasse de avião e pudesse viver aquele momento. E ele viveu intensamente. Visivelmente emocionado, sentiu a energia pulsante do Anhembi — na cidade onde começou sua trajetória como sambista. Foi, sem dúvida, um dos desfiles mais bonitos daquele carnaval.

Quatro anos depois, em 2023, veio a segunda homenagem, desta vez na escola do coração: o Império Serrano. Arlindinho, por escolha própria, não participou da composição do samva, deixando que a comunidade expressasse sua própria forma de celebrar o pai. Mais uma vez, Arlindo foi levado à avenida, agora na Marquês de Sapucaí, para viver um sonho de vida: ser enredo na verde e branco imperial. A emoção tomou conta, e o desfile ficou marcado na memória de quem ama o samba.

Apesar disso, o Império foi rebaixado naquele ano — uma decisão contestada por muitos, já que outras agremiações tiveram desempenhos muito mais fracos. Por coincidência, a Império desfilou naquele dia junto com a Portela e a Grande Rio (esta que tinha como enredo Zeca Pagodinho), proporcionando um domingo inesquecível na avenida para o carnaval carioca.

Arlindo Cruz foi o sambista perfeito: compositor, intérprete poeta, ícone. Viveu para o samba e, com a mesma grandeza, viveu para ver o samba contar a sua própria história. Em vida, sentiu o calor da arquibancada e o abraço da avenida — no Anhembi e na Sapucaí. Hoje, o samba chora, mas também celebra o privilégio de ter convivido com um mestre que soube transformar vida em melodia, e melodia em eternidade.

Nem a comunidade quer Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio

Escola tem nomes como Mileide Mihaile e Erika Januza entre opções, mas prefere alguém que nunca pisou numa quadra

Foto/Reprodução: G1

A possibilidade de Virgínia Fonseca assumir o posto de rainha de bateria da Grande Rio vem causando desconforto até entre os integrantes da comunidade da escola. A influenciadora pode substituir Paolla Oliveira, que se despediu da função após anos de dedicação e participação ativa, não só nos desfiles, mas também no dia a dia da agremiação. Paolla era presença constante nos ensaios, nas festas com os ritmistas e, acima de tudo, era respeitada por sua entrega à escola. A conexão construída com a comunidade e com a bateria de Mestre Fafá fez com que ela fosse considerada uma verdadeira integrante da Grande Rio, e não apenas uma celebridade no posto.

Mestre Fafá, inclusive, destacou nas últimas entrevistas o carinho e o respeito por Paolla, lembrando que ela esteve presente no momento mais glorioso da história da escola: o título de campeã do Carnaval de 2022. E também ajudou muito a escola na pandemia, fazendo doações e ajudando em tudo no que poderia os integrantes de sua bateria. Esse triunfo de 2022 ficou marcado pela força do enredo, pela potência da bateria e pela entrega da Rainha. Paolla viveu duas fases no posto, mas foi nesse retorno que consolidou seu nome como eterno símbolo da Grande Rio. Sua despedida em 2025 foi muito especial. Em 2024, vestida de onça, fez um desfile emblemática e emocionante para quem acompanhou de perto sua trajetória.

Diante disso, a possível escolha de Virgínia Fonseca como nova rainha tem sido vista como uma quebra de identidade. Ainda que tenha números expressivos nas redes sociais, ela não tem qualquer vínculo com o universo do samba ou com a comunidade de Duque de Caxias. Ela nem sambar sabe. Para muitos integrantes da escola e para a própria comunidade, trata-se de uma tentativa de transformar um posto conquistado com suor e afeto em vitrine midiática. A escolha de uma celebridade sem vivência na escola pode soar como desrespeitosa diante da história construída nos últimos anos.

Além disso, a Grande Rio tem alternativas que agradariam muito mais à sua comunidade. A escola conta com nomes como Mileide Mihaile, que desfila há anos, tem samba no pé, carisma e já é figura conhecida e respeitada internamente. Outra opção é Erika Januza, que deixou a Viradouro recentemente e seria recebida com entusiasmo em Caxias. São duas mulheres que, além da beleza e presença, carregam história e envolvimento com o Carnaval, exatamente o que se espera de uma rainha de bateria.

A escolha de Virgínia, se confirmada, poderá ser interpretada como uma ruptura com o legado deixado por Paolla Oliveira. Um legado de comprometimento, de pé no chão e de identidade comunitária, que fez da Grande Rio uma escola ainda mais respeitada e próxima de sua gente. Que o brilho do Carnaval não seja ofuscado por decisões puramente estratégicas ou comerciais. Afinal, na avenida, o que faz diferença é a verdade do samba. Uma influencer que não respeita nem seus seguidores, se veste de Suzane Von Richthofen para depor em uma CPI, não agrega em nada no Carnaval – muito menos ocupando o posto mais importante de uma musa em uma das escolas que, saiu do rótulo de “puxadinho do Projac”, para mudar de patamar na Liesa nos últimos seis anos. Agora, a Grande Rio está jogando fora tudo o que construiu, se apequenando novamente por pura engajamento barato.

Álbum ao vivo do Carnaval de São Paulo é muito superior ao do Rio

Foto/Reprodução

O álbum ao vivo do Carnaval do Rio 2025 chegou e, como sempre, causa expectativa entre os apaixonados por samba-enredo no pós-carnaval. Mas, na comparação com o álbum ao vivo do Carnaval de São Paulo, fica difícil sustentar que o carioca saiu na frente. Enquanto o do Rio parece mais uma lembrança protocolar da Sapucaí, o de São Paulo entrega emoção, intensidade e uma experiência muito mais completa para quem vive o Carnaval o ano inteiro e quer se sentir dentro do Anhembi.

A diferença começa no esquenta. No álbum paulista, ouvimos o esquenta das escolas, aquele momento de aquecimento que arrepia a todos, até com a fala dos presidentes das agremiações. É ali também que o intérprete se conecta com a comunidade, que a bateria esquenta de verdade e o público entra no clima. No álbum do Rio, nada disso aparece. O ouvinte cai direto na introdução da primeira passada do samba, sem esquenta, sem alma e sem o calor da preparação.

Outro ponto que pesa é a duração das faixas. No álbum de São Paulo, cada escola tem mais tempo para brilhar: a faixa ao vivo é mais longa, com três passadas completas do samba, além do esquenta e todo momento que antecede a arrancada da escola. Já no álbum do Rio, são apenas duas passadas rápidas, quase como se estivéssemos ouvindo uma versão compacta da Marquês de Sapucaí. Para quem quer sentir a energia do desfile, não é suficiente.

Ainda no ao vivo do Rio, coisas engraçadas acontecem. A Grande Rio, por exemplo, veio com um discurso forte sobre a valorização dos curimbós e jurando que a bateria foi despontuada injustamente porque dava pra ouvir o tal dos curimbós na apresentação em segundos no desfile. Mas na gravação oficial ao vivo, esses elementos praticamente não aparecem. Mal dá pra identificar os atabaques, quanto mais sentir a força dos pontos cantados. Se nem no álbum a gente ouve, dá pra imaginar o desafio de captar isso da cabine dos jurados — onde cada detalhe deveria ser ouvido com clareza e respeito.

O álbum ao vivo é mais que um registro: é a memória afetiva do desfile. E, em 2025, São Paulo entendeu isso melhor do que o Rio. Não basta ser tradicional e ter grandes escolas, é preciso entregar uma gravação à altura do espetáculo que se viu na avenida. Enquanto o álbum carioca soa apressado e protocolar, o paulista vibra com cada batida da bateria, com cada verso do samba e com a entrega das comunidades. O Carnaval também se ouve — e, nesse quesito, São Paulo levou a melhor mais uma vez. Ao menos, no álbum carioca temos o último samba cantado pelo Neguinho da Beija-Flor e a força da Viradouro, mesmo com seu desfile burocrático. Sambas da Tijuca e da Vila Isabel surpreendem no ao vivo sendo um dos melhores do ano direto da Sapucaí.

Ouça os álbuns dos sambas ao vivo de São Paulo e do Rio na Deezer!

(Neguinho da Beija-Flor é capa do Ao Vivo, em sua despedida com título em homenagem a Laíla)

Quem se deu bem no sorteio do Carnaval carioca 2026?

Foto: Rio Carnaval

O sorteio da ordem dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial para o Carnaval do Rio de Janeiro em 2026 foi realizado ontem na Cidade do Samba, marcando o início da contagem regressiva para o maior espetáculo da Terra. Com a presença de representantes das agremiações e entusiastas do samba, o evento definiu as datas e a sequência das apresentações que ocorrerão no Sambódromo da Marquês de Sapucaí nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro do ano que vem.

A expectativa é grande, especialmente após as mudanças implementadas nos últimos anos que visam tornar os desfiles ainda mais competitivos e emocionantes. Em 2025, a LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) inovou ao dividir os desfiles do Grupo Especial em três noites, com quatro escolas se apresentando por noite. Essa estrutura permitiu uma distribuição mais equilibrada das agremiações e proporcionou ao público uma experiência mais intensa e diversificada.

Espera-se que essa mesma configuração funcione novamente para 2026, com ajustes baseados nas avaliações e feedbacks recebidos. A ordem dos desfiles para o Carnaval de 2026 será crucial para as estratégias das escolas, influenciando desde a logística até a preparação dos componentes. A posição de desfile pode impactar a visibilidade e a percepção do público e dos jurados, tornando o sorteio um momento de tensão e expectativa para todas as agremiações envolvidas.

Além disso, o Desfile das Campeãs, programado para o sábado seguinte ao Carnaval, reunirá as seis escolas melhor colocadas, oferecendo ao público a oportunidade de rever as apresentações mais aclamadas. Este evento é tradicionalmente um dos mais aguardados, celebrando o talento e a dedicação das agremiações que se destacaram na competição, especialmente a campeã do ano.

Com a ordem dos desfiles definida, as escolas de samba intensificam seus preparativos, buscando superar os desafios e encantar o público com criatividade, ritmo e emoção. O Carnaval do Rio de Janeiro em 2026 promete ser uma celebração inesquecível da cultura e da paixão que movem o samba. Enredos inovadores devem ser anunciados em breve. Quem se deu bem no sorteio? Imperatriz no domingo, Viradouro e Beija-Flor na segunda e Grande Rio na terça; mas principalmente o Salgueiro, que encerra o carnaval no terceiro e último dia. Destaques para a Vila Isabel que também desfila na terça, estreando com sua dupla de carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad.

Desfilar domingo tem sido desafiador nesse novo formato, mas com o julgamento cada vez mais nivelado, tudo pode acontecer. Se uma escola desfila no domingo ou na segunda sobrando e riscando o chão da avenida, resta as outras superá-las. E nem sempre isso é fácil de acontecer. Ainda mais hoje com o título sendo decidido em mínimos detalhes. A sorte está lançada para 2026!