Categoria: Carnaval

Após 1 ano, Grande Rio volta a ter rainha de bateria

Anitta vai reinar em Caxias, onde também é compositora do samba favorito para a escola cantar em enredo sobre Gana

Foto: Revista Quem

Após um ano de ostracismo, a Grande Rio finalmente volta a ter uma rainha de bateria. E, na minha opinião, a comunidade de Caxias pode respirar aliviada: a escola volta a ter uma verdadeira rainha de Carnaval à frente da Invocada. Anitta, que já foi rainha da Mocidade Independente, exigiu que não houvesse passagem da coroa. No máximo deve receber a faixa pelas mãos de David Brazil, num momento que marca uma nova fase para a bateria de Mestre Fafá.

E não poderia existir momento mais simbólico. O enredo da Grande Rio para 2027 é sobre Gana, sobre a força da África e sobre o Candomblé. É um enredo que carrega ancestralidade, axé, tambor, terreiro e toda essa raiz que atravessou o oceano. E Anitta tem uma ligação direta com essa temática, inclusive por ser uma religião que faz parte da sua vida. Ela não vai ter receio de cantar um samba que fale de incorporar, de axé, de tambor e de terreiro. Ela entende essa linguagem e pode levar essa energia para a avenida.

Mais do que isso: a bateria merece uma rainha presente. Uma mulher que esteja nos ensaios, que acompanhe a preparação, que esteja preocupada com o Carnaval e que viva a escola durante todo o ciclo. E Anitta ainda pode protagonizar uma história que seria especial demais: ela é uma das compositoras do samba favorito na disputa da Grande Rio. Já imaginou? Além de rainha de bateria, compositora do samba escolhido para ir à avenida?

Seria uma combinação perfeita de música, Carnaval, ancestralidade e axé. A Grande Rio tem tudo para apresentar um desfile lindo, colorido, vibrante e cheio de energia. E, depois do que aconteceu no ano passado, talvez seja exatamente disso que a escola precisava: voltar às suas raízes, se reconectar com a sua comunidade e fazer um Carnaval à altura da força de Caxias. Seria uma bela forma de se redimir — e de lembrar por que a tricolor é uma das escolas mais especiais do Carnaval carioca.

Caso escolha o Samba 8, Mangueira terá o melhor samba-enredo de 2027

A verde e rosa fará carnaval sobre Oyá, o que trouxe para a escola uma energia diferente com possibilidade de sonhar com o título

Para quem não acompanha tão de perto o mundo do samba, agosto e setembro são meses de uma das fases mais deliciosas do Carnaval: as disputas de samba-enredo. É quando as escolas de samba começam a escolher aquela obra que vai embalar seus desfiles na Marquês de Sapucaí. E, na Mangueira, chegamos à reta final com duas obras na disputa: o Samba 8, da parceria liderada por Lequinho, e o Samba 10, de Arlindinho e cia.

Mas eu preciso dizer uma coisa: se a Mangueira escolher o Samba 8, ela não estará apenas escolhendo um samba vencedor dentro da sua quadra. Na minha opinião, estará escolhendo um dos grandes candidatos a melhor samba-enredo do Carnaval de 2027. Desde o primeiro dia em que esse samba foi cantado, ele parece ter encontrado a comunidade. Existe uma energia diferente ali, uma força que faz a gente imaginar imediatamente a Mangueira tomando conta da Sapucaí.

E talvez isso tenha tudo a ver com o momento da escola. A Mangueira vai levar para a Avenida o enredo “Oyá Por Nós”, uma homenagem a Oyá, ou Iansã, ligada aos ventos, às tempestades e às transformações. É um daqueles enredos que já nascem com uma força visual, musical e espiritual enorme. E, ouvindo o Samba 8, eu consigo enxergar exatamente essa Mangueira: vibrante, popular, quente, para cima, com aquela capacidade que a escola tem de transformar a Sapucaí em uma grande celebração.

É impossível não lembrar da energia de 2016, da Mangueira que levou Bethânia para a Avenida e apresentou um dos desfiles mais marcantes da história recente do Carnaval. Não estou dizendo que 2027 será igual — e nem precisa ser. Mas existe uma vibe parecida, aquela sensação de que enredo, samba e identidade da escola podem se encaixar perfeitamente. O Samba 8 tem cara de Mangueira. Tem refrão para a arquibancada cantar, tem força para a bateria carregar e, principalmente, tem alma.

Por isso, se a comunidade escolher o Samba 8, eu já coloco a Mangueira entre as escolas que largam na frente na briga pelo título de 2027. Carnaval não se ganha em setembro, obviamente. Ainda existem fantasias, alegorias, comissão de frente, bateria, harmonia, evolução e uma infinidade de detalhes que serão julgados. Mas uma escola que chega à Avenida com um grande enredo e um samba que levanta sua comunidade já começa com uma vantagem enorme.

Se for o Samba 8, Lequinho e companhia podem não estar apenas vencendo uma disputa. Podem estar entregando à Mangueira o combustível para fazer um daqueles desfiles que fazem a Sapucaí levantar. E, se isso acontecer, guardem um daqueles momentos históricos que ficam marcados para sempre no carnaval carioca.

Luiz Antônio Simas e parceiros assinam samba-enredo da Gaviões para 2027

Escola é uma das favoritas ao título no Carnaval paulistano do ano que vem

Foto: SRZD

A vitória do samba-enredo da Gaviões da Fiel para o Carnaval de 2027 representa muito mais do que o fim de uma disputa. A obra, assinada por Grandão, José Rifai, Luciano Costa, Sukata, Fadico, Marcelo Paschoal JB, Gabriel Lima, Alex Biro Morganti, Oliveira, Neck, Andrezinho, Cláudio Russo, Luiz Antônio Simas e Chico Poeta, emociona pela força da mensagem e pela beleza de sua construção. Entre os autores, Luiz Antônio Simas e Cláudio Russo levam para o Carnaval paulistano toda a experiência acumulada em sambas consagrados, enriquecendo ainda mais um enredo de enorme significado.

A escolha desse samba reforça a ambição da Gaviões da Fiel de voltar ao topo do Carnaval de São Paulo. Desde 2024, a escola vem batendo na trave e mostrando que está cada vez mais próxima de conquistar mais um campeonato no Anhembi. Com um enredo poderoso sobre Ogum e um samba que já nasce com cara de clássico, a Gaviões desponta como uma das grandes favoritas ao título de 2027, reunindo todos os ingredientes para realizar um desfile memorável.

Falar de Ogum é falar de coragem, proteção, caminhos abertos e fé. É impossível não estabelecer uma conexão com São Jorge, devoção tão presente entre os corintianos e na própria identidade da Gaviões. O samba consegue transformar essa força espiritual em poesia, respeitando a tradição do Carnaval e exaltando uma figura que representa luta, resistência e esperança para milhões de brasileiros.

A presença de compositores experientes, como Luiz Antônio Simas, ao lado de toda a parceria vencedora, valoriza ainda mais esse projeto. Simas é o botafoguense mais incrível do Brasil. Seus ensinamentos são únicos a cada aula e conversa. A participação dele engrandece ainda mais esse samba. Historiador, escritor, professor e um dos maiores pesquisadores da cultura popular brasileira, Simas construiu uma obra respeitada por seu olhar profundo sobre o Carnaval, as religiões de matriz africana e a história do Rio de Janeiro. Autor de diversos livros, entre eles uma obra dedicada a São Jorge, ele reúne um conhecimento raro sobre as manifestações culturais e a formação da identidade brasileira.

Ver um intelectual desse porte também assinando sambas-enredo é a prova de que erudição e cultura popular caminham juntas, tornando sua contribuição para a Gaviões da Fiel ainda mais especial. O resultado de seu lado compositor é um samba marcante, que consagra o trabalho desenvolvido pela escola do Timão e traduz com emoção um dos enredos mais aguardados do Carnaval de 2027. Se a Gaviões conseguir levar para a avenida toda a energia que o samba transmite, tem tudo para viver um ano histórico e voltar a conquistar o tão sonhado título no Anhembi.

Existem 89 cidades mais violentas do que o Rio no país

Parem de demonizar a cidade mais bonita do mundo

Foto: Arquivo pessoal

Todos os anos, quando um novo ranking das cidades mais violentas do Brasil é divulgado, muita gente imagina que o Rio de Janeiro ocupará uma das primeiras posições. Afinal, a cidade está diariamente nos noticiários nacionais por causa de operações policiais, confrontos e episódios de violência. No entanto, os dados mais recentes mostram um cenário diferente: entre os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, o Rio de Janeiro aparece apenas na 90ª posição do ranking de cidades violentas. Em outras palavras, existem 89 cidades com índices mais elevados de violência do que a capital fluminense.

Isso não significa que o Rio de Janeiro não tenha problemas graves de segurança pública. Tem, e eles precisam ser enfrentados. Mas os números mostram que a percepção criada em torno da cidade muitas vezes não corresponde ao retrato estatístico do país. A líder do ranking é Maranguape, no Ceará (famosa por ser citada na Escolinha do Professor Raimundo). Seguida por diversos municípios do Nordeste, enquanto outras grandes cidades brasileiras também apresentam indicadores mais altos do que o Rio em determinados levantamentos. Os dados reforçam que a violência é um desafio nacional e não um problema exclusivo da capital fluminense.

A enorme exposição do Rio de Janeiro na mídia ajuda a explicar essa percepção. Por ser um dos principais cartões-postais do Brasil e uma cidade conhecida internacionalmente, qualquer ocorrência de grande impacto ganha repercussão imediata dentro e fora do país. Isso acaba fazendo com que muitas pessoas associem automaticamente o Rio à cidade mais perigosa do Brasil, quando os levantamentos estatísticos mostram uma realidade mais complexa e distribuída por diferentes regiões do país. A própria metrópole paulistana está à frente do RJ nesse ranking.

Ao mesmo tempo, reduzir o Rio de Janeiro apenas aos seus problemas de segurança é ignorar tudo o que a cidade representa. Sua combinação de praias, montanhas, florestas urbanas, patrimônio histórico e paisagens naturais continua sendo única. O Rio tem desafios importantes, como tantas outras cidades brasileiras, mas também possui uma beleza singular que o transformou em um dos destinos mais admirados do mundo. Reconhecer seus problemas é necessário, mas isso não impede de reconhecer que existe uma energia e uma beleza absoluta na cidade maravilhosa. O Rio tem problemas que qualquer outra cidade tem, mas só o Rio tem belezas que nenhuma outra no mundo tem.

Mocidade Independente terá a obra “América Invertida” de Joaquín Torres García como enredo

Escola de Castorzinho vai levar pra avenida desfile intitulado “Latinamente Independente – Nosso norte é o Sul em Remanifesto”

(Mascote faz referência a Bad Bunny) Foto: Instagram

A Mocidade Independente de Padre Miguel escolheu um caminho ousado, político e extremamente simbólico para o Carnaval 2027. Inspirada na obra “América Invertida”, do artista uruguaio Joaquín Torres García, a escola levará para a Sapucaí o enredo “Latinamente Independente – Nosso norte é o Sul em Remanifesto”, assinado pelo carnavalesco Jack Vasconcellos. A ideia nasce justamente do famoso desenho criado em 1943, que inverte o mapa da América do Sul e coloca o Sul no topo, como forma de questionar a visão eurocêntrica do mundo e afirmar a identidade latino-americana.  

O mais interessante é que a Mocidade parece recuperar justamente aquilo que sempre fez dela uma escola tão especial: a coragem de provocar. Historicamente, a verde e branca brilhou quando decidiu sair do óbvio e apostar em desfiles críticos, modernos e cheios de personalidade. E esse novo enredo conversa diretamente com essa essência. A proposta de “nosso norte é o Sul”, frase eternizada por Joaquín Torres García em seu manifesto, transforma o desfile em uma grande defesa da cultura latino-americana, da autonomia artística e da valorização das próprias raízes.  

Além do discurso político e cultural, existe também um potencial visual gigantesco. Jack Vasconcellos costuma trabalhar com conceitos muito imagéticos, e um desfile baseado em geopolítica, arte, resistência cultural e identidade latina pode render alegorias extremamente criativas e impactantes. A obra “América Invertida” virou um símbolo cultural justamente porque desafia a lógica tradicional dos mapas e reposiciona a América Latina como centro do olhar. E poucos lugares no mundo conseguem transformar reflexão política em espetáculo visual como o Carnaval carioca.  

No fim, o anúncio do enredo passa uma sensação importante: a de que a Mocidade quer voltar a ser protagonista. Depois de anos oscilando no Grupo Especial, a escola parece buscar novamente uma identidade forte e autoral. E talvez não exista escolha melhor do que olhar para a América Latina, suas raízes e sua potência cultural justamente em um momento em que o Carnaval também disputa narrativas. A Mocidade não quer apenas desfilar em 2027. Quer provocar, fazer pensar e lembrar que, para nós, o Sul também pode ser o centro do mundo. E com um desafio extra, que é o de ser tão emblemático quanto a Vila Isabel 2006, com o “Soy Loco Por Ti, America”. ¡Mucho éxito!

Viradouro terá enredo afro sobre Griôs no Carnaval 2027

Atual campeã vai em busca do bicampeonato com o que sabe fazer de melhor

Foto: Arquivo Pessoal

Depois de emocionar a Sapucaí com um desfile arrebatador sobre Mestre Ciça e conquistar mais um título, a Unidos do Viradouro já mostrou que não pretende entrar em 2027 apenas para “cumprir tabela”. A escolha de homenagear os griôs, figuras fundamentais na preservação da memória e da tradição oral africana, parece muito mais do que um enredo bonito: é uma declaração artística. A Viradouro entendeu há tempos que carnaval campeão não vive só de luxo ou tecnologia. Vive de narrativa, emoção e identidade.  

E talvez esse seja justamente o maior diferencial da escola hoje. Enquanto muita gente ainda tenta descobrir qual é a fórmula para vencer no Grupo Especial, a Viradouro parece ter encontrado um caminho muito próprio: transformar cultura afro-brasileira em espetáculo sem perder profundidade. Foi assim em “Viradouro de Alma Lavada”, foi assim com Mestre Ciça e tudo indica que será novamente agora. O tema dos griôs abre possibilidades gigantescas para um desfile poético, ancestral e extremamente sensível visualmente.  

O mais interessante é perceber como a escola de Niterói vem construindo uma identidade artística muito sólida nos últimos anos. Existe uma assinatura nos desfiles da Viradouro. Você bate o olho e entende a proposta. Há emoção, há teatralidade, mas também existe pesquisa e respeito histórico. E isso pesa demais num carnaval em que o público está cada vez mais exigente. O sambista quer se emocionar, mas também quer sair da Sapucaí sentindo que aprendeu algo, que viveu uma experiência. A Viradouro vem entregando exatamente isso.

Se o samba vier forte — e normalmente vem —, a sensação é de que a escola já larga como uma das favoritas naturais para 2027. Porque quando um enredo consegue unir ancestralidade, potência visual e uma mensagem universal sobre memória e transmissão de saberes, o impacto costuma ser enorme na avenida. E sinceramente? A Viradouro parece viver aquele momento raro em que tudo encaixa: gestão, comunidade, bateria, identidade e confiança. É aquele tipo de fase em que a escola entra na Sapucaí já com cara de protagonista.