Série sobre o legado de Chico Anysio, maior humorista do país, estreia no Globoplay

Foto/Reprodução: Globoplay

Desde sua origem humilde em Maranguape (Ceará), Chico Anysio construiu uma carreira que ultrapassou fronteiras do riso fácil para se tornar uma referência artística multifacetada. Ele criou centenas de personagens — com traços exagerados, mas sempre com alguma ponta de humanidade — que permitiam caricaturar tipos brasileiros, criticar vícios sociais, explorar linguagens do humor (rádio, TV, teatro) e fazer reflexões sutis sobre identidade, desigualdade, poder. Sua versatilidade impressiona: ator, roteirista, cronista, radialista, ator de cinema e sempre reinventando formatos. É quase impossível contar a história do humor no Brasil sem passar por Chico: ele marcou o desenho do humor de massa, ajudou a formar plateias — gerar risadas, empatia, reconhecimento — e abriu espaço para que humoristas posteriores caminhassem sobre terreno fértil. Foi o primeiro a fazer stand-up quando esse termo nem era usado ainda.

No âmbito da televisão, Chico Anysio foi um dos pioneiros em construir estruturas de programas de humor em que os personagens eram centrais, mais do que as tramas propriamente ditas. Programas como Chico Anysio Show, Escolinha do Professor Raimundo, especiais de humor e quadros humorísticos diversos, permitiram que seu criador explorasse estereótipos regionais, sociais, de classe, expandindo o que se podia fazer em linguagem televisiva. Ele também foi importante na inovação de formatos — por exemplo no uso de videotape, de gravações externas, de personagens que “viviam” fora dos limites de cada programa, entrando em entrevistas, participações, crossovers — e tudo isso ajudou a moldar como o humor era entendido e consumido pela TV brasileira.

A série documental Chico Anysio: Um Homem à Procura de um Personagem, que estreou no Globoplay em cinco episódios, oferece uma visão renovada desse legado — não só celebratória, mas também crítica e humana. Dirigida e roteirizada por Bruno Mazzeo, filho de Chico, ela recua no tempo: infância no Ceará, primeiros passos no rádio, a chegada ao Rio, os desafios que ele enfrentou, os sucessos que consolidaram sua reputação. Segundo Bruno, “a série não é uma ‘homenagem’, um ‘especial’, mas um mergulho não só na obra, mas na alma de Chico Anysio.”  Ele diz também que esse documento lhe parece “o mais especial dos meus trabalhos”, “um filho juntando o quebra-cabeças da vida do pai”.  Ela mostra Chico como Francisco, com falhas, inseguranças, dificuldades pessoais, relações familiares complexas — não apenas o humorista eterno, mas também o homem por trás das máscaras. 

O que isso significa para o entretenimento brasileiro? Primeiro, que revisitar sua trajetória contribui para revalorizar o humor clássico, compreender de onde vieram muitas das nossas formas atuais — stand up, esquetes, comédia de personagens, sátira social. Segundo, permite uma reflexão sobre os limites do humor, sobre o que era aceitável em diferentes épocas, e como Chico soube adaptar-se, avançar, provocar — até despontar como ponto de referência para humoristas de hoje. Ter Bruno Mazzeo à frente desse projeto traz uma camada afetiva e de intimidade, uma memória de família que também serve como memória cultural. A série oferece ao público mais jovem o contato com vivências que talvez não conhecessem; para quem já era fã, a possibilidade de enxergar além do personagem, de entender decisões, contradições, sacrifícios. Em suma: a obra reforça que Chico Anysio não foi apenas um comediante de todas as classes e de muitas vozes, mas alguém cujo trabalho ajudou a moldar o Brasil que ri — e, nesse rir, se reconheceu em seu legado.

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