
O Papa Francisco, primeiro pontífice latino-americano da história, foi também um torcedor apaixonado por futebol — e mais especificamente, pelo Club Atlético San Lorenzo de Almagro. O clube argentino, fundado por padres salesianos e com fortes raízes católicas, ganhou ainda mais destaque internacional ao ser revelado como o time do coração de Jorge Mario Bergoglio, desde a infância vivida no bairro porteño de Flores. A relação do Papa com o San Lorenzo transcendeu o campo e se confundiu com fé, a identidade e a memória afetiva.
Mas se o amor pelo clube sempre foi inabalável, em 2014 ele alcançou seu momento mais glorioso. Sob o comando do técnico Edgardo Bauza, o San Lorenzo conquistou pela primeira vez a tão sonhada Copa Libertadores da América — um título que parecia inalcançável até então. A equipe mostrou um futebol pragmático, eficiente e muito inteligente na época, marcado por uma defesa sólida e jogadas cirúrgicas no ataque. O time surpreendeu com a conquista inédita iniciada em seu emblemático estádio, Nuevo Gasómetro e concretizada no Paraguai diante do Nacional.
Jogadores como Leandro Romagnoli, símbolo da garra e da história azulgrana, foram fundamentais. Ídolo da torcida e um dos grandes nomes da campanha, Romagnoli representava o elo entre a tradição e aquele time histórico. Ao seu lado, nomes como Ortigoza, Cauteruccio, Piatti, o goleiro Torrico e Mauro Mato também brilharam e fizeram história. A final contra o Nacional do Paraguai, vencida no agregado por 2 a 1, selou o feito que uniu fé e futebol como nunca antes. Muitos apontaram a conquista inédita como mérito do Papa. Mas ele mesmo reconheceu o mérito do trabalho que uma equipe que tinha muito de Bauza, um verdadeiro professor da escola argentina de treinadores.

Pouco depois da conquista continental, os jogadores do San Lorenzo foram recebidos no Vaticano por um emocionado Papa Francisco, que abençoou a taça da Libertadores — uma cena que virou símbolo máximo da comunhão entre o clube e seu torcedor mais ilustre. O San Lorenzo campeão de 2014 não foi apenas um time vencedor. Foi um capítulo inesquecível na vida de um torcedor que, mesmo vestido de branco e vivendo em Roma, nunca deixou de carregar no peito as cores azul e grená. Além disso, o Papa nunca se esqueceu dos ensinamentos que compartilhava em Boedo, bairro tradicional de Buenos Aires onde o San Lorenzo está.
Francisco foi o primeiro Papa do nosso continente, representando durante seu papado muito de seu legado propagado em vida na Argentina, nação sempre aguerrida e batalhadora como ele. Mesmo no Vaticano, Jorge nunca deixou que o futebol se tornasse apenas uma lembrança distante. Em encontros com jogadores e personalidades do esporte, como o inesquecível Diego Maradona, o pontífice mostrava sua paixão pelo jogo com a mesma leveza com que fala sobre a vida.
Maradona, aliás, o reverenciava, mesmo sendo torcedor do rival Boca Juniors — numa daquelas cenas que só o futebol e a fé conseguem proporcionar. Em outro encontro marcante do Papa com grandes nomes do esporte, Oscar Schmidt encontrou o Papa em 2013, para receber a benção na luta contra um câncer no cérebro. E ele venceu essa doença, assim como todos aqueles que tiveram Francisco como aliado em momentos decisivos, dentro e fora de campo. Agora, o histórico pontífice vai se reencontrar com “la mano de Diós”.
