
Carlos Salvador Bilardo e a Seleção Argentina sempre estiveram profundamente entrelaçados, em uma relação de devoção, obsessão e glória. Como treinador, ele marcou época ao levar a Albiceleste ao título da Copa do Mundo de 1986, comandando Diego Maradona e um grupo de jogadores que ficaram eternizados na história do futebol. Mais do que um estrategista, Bilardo personificava uma filosofia de jogo e de vida, pautada pela busca incessante por vitórias que deu origem a “Escola Bilardista”. Seu estilo, muitas vezes polêmico, dividia opiniões, mas ninguém jamais questionou sua paixão e entrega pela camisa celeste e branca.
Mesmo após deixar o comando técnico da Seleção, Bilardo nunca se afastou da entidade. Trabalhou como dirigente, comentarista e seguiu sendo uma referência para treinadores e jogadores que vieram depois, principalmente para Alejandro Sabella, vice-campeão do Mundo em 2014 – bilardista como ele. Seu nome se tornou sinônimo de futebol argentino, sendo lembrado tanto pelo sucesso quanto pelo seu jeito peculiar de ver o jogo. Para muitos, Bilardo era mais do que um técnico vitorioso: era um pensador do futebol, um mestre que enxergava além das quatro linhas e sabia como transformar grupos em equipes vencedoras.
Nos últimos anos, Bilardo tem travado uma batalha contra uma doença degenerativa, que o afastou do protagonismo, mas não do amor pelo futebol e pela Seleção. Carlitos como o chamam seus familiares, teve idas e voltas no hospital. Desde o final de 2018 a época da pandemia, “El Doctor” precisou redobrar os cuidados com a saúde em longas internações que teve. Mesmo diante das dificuldades, ele nunca deixou de acompanhar a Albiceleste e seu clube Estudiantes de La Plata, sempre que pode, assistindo aos jogos pela televisão, com o mesmo brilho nos olhos de quem dedicou a vida ao esporte. Ver a Argentina em campo continua sendo um dos momentos que mais lhe trazem alegria, um elo inquebrável com a história que ele ajudou a construir.

Na semana passada, Bilardo completou mais um ano de vida, 87 carnavais muito bem vividos. Embora sua saúde não seja mais a mesma, o carinho que recebe de jogadores, torcedores e admiradores demonstra o quanto ele é querido e respeitado. Sua influência segue viva, não apenas nos bastidores do futebol porteño, mas também no coração dos argentinos que reconhecem sua importância na construção do DNA vencedor da Seleção. Para cantar o “feliz cumpleaños” ele recebeu a visita de seis campeões mundiais de 1986 comandados por ele. E claro, sua imagem com o bolo rodou o país e ficamos imensamente felizes em ver um registro seu inédito.
A vitória da Argentina sobre o Brasil no Clássico desta noite disputado no épico Monumental de Núñez é, sem dúvidas, um presente de aniversário atrasado para Bilardo. 4 vs 1 para a felicidade dos bilardistas e de seu mentor. Um presente que ele certamente recebeu com emoção, vibrando como nos velhos tempos assistindo pela TV em seu sofá azul. Diz o irmão de Bilardo, Jorge, que ele está encantado com essa nova geração, a geração que devolveu a Copa do Mundo ao país depois de 36 anos. Ver a Albiceleste campeã novamente, triunfando nos grandes jogos e consolidando sua força no cenário mundial, é algo que o eterno treinador mais do que ninguém merecia presenciar. O melhor é que ele assiste tudo pela TyC Sports, melhor emissora argentina – sem clubismo.
O tricampeonato da Argentina conquistado no Qatar em 2022 e as vitórias recentes da equipe, são a prova de que o legado de Bilardo segue vivo. Sua influência ultrapassa o tempo e continua inspirando aqueles que vestem a camisa celeste e branca, até mesmo Lionel Scaloni, que teve como um de seus mentores o Sabella. A Seleção de hoje carrega sua mentalidade vencedora, sua fome de glória e superação que nunca foram perdidas, mas agora é recompensada por títulos. E, enquanto houver futebol, Carlos Bilardo será lembrado como um dos grandes responsáveis por transformar a Argentina em uma potência mundial. Sem esquecer, claro, de uma mãozinha do Maradona nisso tudo.



