Adriano da Nóbrega era muito superior a Ronnie Lessa

Foto/Reprodução: El País

Dentro do submundo do crime e das forças de segurança, Adriano da Nóbrega e Ronnie Lessa trilharam caminhos que, apesar de se cruzarem em certos momentos, apresentam diferenças notáveis. Ambos foram policiais militares, se envolveram em atividades ilícitas, mas enquanto Adriano construiu uma reputação de eficiência e respeito entre seus pares, Lessa teve uma trajetória marcada por menos reconhecimento dentro das corporações e do próprio meio criminoso.

Adriano da Nóbrega era um militar altamente qualificado. Seu ingresso no Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro não foi por acaso: ele conquistou o primeiro lugar no curso de formação, um feito que não apenas exigia preparo físico e mental extremo, mas também o destacava entre os melhores da corporação. Seu conhecimento técnico sobre armamentos era tão profundo que, segundo relatos, conseguia identificar e desmontar armas sem nunca ter tido contato prévio com elas. Essa habilidade, aliada à sua inteligência operacional, fazia dele uma peça valiosa dentro e fora das fileiras oficiais. Mesmo após Adriano sair do caminho certo e entrar na contravenção de vez, seguiu sendo admirado por colegas.

Já no comando do “Escritório do Crime”, tinha passe livre em grandes eventos, inclusive no Carnaval onde entrava com credencial da Vila Isabel no pescoço. Por outro lado, Ronnie Lessa, apesar de também ter uma trajetória policial e ligação com o crime organizado, nunca alcançou o mesmo nível de respeito e nem pisava na Sapucaí. Diferente de Adriano, ele não entrou no BOPE pelo curso, e sua presença no meio policial e criminoso não gerava a mesma admiração.

Sua atuação como pistoleiro de aluguel, embora letal, era mais associada à frieza e à execução mecânica do que a um planejamento sofisticado ou a uma presença dominante no cenário do crime. Enquanto Adriano tinha todo um planejamento quando recebia uma encomenda, gravando tudo a seu favor e guardando provas que jogava todos no ventilador, Lessa era descuidado nessa parte. O que o acabou prejudicando no fim da história de Marielle, por exemplo.

A comparação entre os dois pode ser sintetizada em uma analogia cinematográfica: se Adriano da Nóbrega fosse um personagem de “O Poderoso Chefão”, ele se assemelharia a Luca Brasi — um homem temido, calculista e altamente eficiente no que fazia. Um executor com inteligência estratégica, respeitado por aliados e temido por inimigos. Já Ronnie Lessa, apesar de seu histórico de violência, não atingiu esse mesmo patamar de influência ou reconhecimento, sendo mais uma peça funcional do que um nome de peso na hierarquia do crime. “Ah, mas o Lessa não seria o Al Neri do filme?” Jamais. Esse personagem se assemelha muito mais a Marcos Falcon, história já contada por aqui.

Essa diferença de status entre Ronnie Lessa e Adriano da Nóbrega também se refletiu nos desdobramentos de suas histórias. Enquanto Adriano passou anos fugindo, ganhando sem querer 1 ano sabático no litoral até ser morto em uma operação que levantou inúmeras suspeitas sobre queima de arquivo; Lessa acabou preso e exposto, sem a mesma rede de proteção ou prestígio para evitar sua queda. Sem contar que Adriano tem um livro dedicado a ele (Decaído), com sua foto na capa. Lessa foi tema de livro também, mas não tem um como protagonista. A vida de Adriano rende filmes que chegariam a Cannes e ao Oscar. Já a vida de Lessa rende no máximo colunas policiais que contam quais livros ele anda lendo na prisão (dizem que até livro de coach ele tem lido. Quer sair pior do que entrou do regime?)…

Bom, sabemos que Adriano causava pavor em qualquer bicheiro. Lessa quando foi bater de frente com o “Michael Corleone carioca”, perdeu a perna. E ainda tem gente que ousa a comparar ambos. Como disse Vera Araújo em uma entrevista ao Inteligência Ltda: “Lessa tinha inveja enorme de Adriano, por ser meio que um lobo solitário. Enquanto Adriano, mesmo depois de sua morte continua sendo cultuado pelos colegas de profissão”. Detalhe não menos importante, Ronnie Lessa foi praticamente expulso de Rio das Pedras pelo Adriano quando houve um “embate” que nem direto aconteceu, mas foi o suficiente pro ex-tatuador deixar a área onde o “brabão” era soberano.

No fim, a trajetória de cada um revela que no mundo do crime, nem todos são lembrados da mesma forma — e o respeito conquistado dentro desse universo faz toda a diferença, mesmo que para o mal caminho. E o final de ambos também deixa escancarado que o crime jamais compensa. O que nos rende são boas histórias para contarmos e rir igual o Delegado Vinícius George em “Vale o Escrito”.

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