Categoria: Música

O que se sabe sobre o DVD de João Carreiro & Capataz gravado em Cuiabá?

Foto: Reprodução

O sertanejo na sua vertente raiz e bruta teve muitos representantes ao longo dos anos, mas poucos conseguiram cravar seu nome como João Carreiro & Capataz. Com uma pegada rústica, letras autênticas e uma sonoridade que mesclava a raiz do sertanejo com o peso diferenciado na viola junto às guitarras, fizeram da dupla a maior de seu nicho no mercado musical. Desde o início, João Carreiro se destacava por sua voz inconfundível, pela habilidade na viola e suas composições intensas, enquanto Capataz complementava com sua segunda voz marcante e talento no violão, além das presenças de palco que ambos dominavam como ninguém naquela geração. Juntos, eles trouxeram um som que fugia do modismo e se consolidaram como referência no gênero.

A caminhada da dupla começou a ganhar força entre 2008 e 2009, período em que lançaram hits que caíram no gosto popular, como a “Bruto, Rústico e Sistemático”, trilha da novela de temática rural, Paraíso. As músicas de JC&C representavam bem o estilo que os diferenciava de outras duplas, trazendo letras que falavam da vida no campo, das dificuldades e do orgulho de ser caipira. Aos poucos, eles foram conquistando espaço, participando de programas de TV, grandes eventos sertanejos e lotando shows por onde passavam. Ganham força principalmente no interior do país, com a galera jovem que não queria saber de “Chora me Liga” ou arrocha. Na época, o sertanejo universitário dominava as rádios, mas João Carreiro & Capataz se mantinham firmes na proposta de um som mais raiz com a sonoridade rockeira, conquistando um público fiel que ansiava por esse tipo de música.

O grande momento da carreira veio em 2010, com a gravação do primeiro DVD da dupla, João Carreiro & Capataz – Xique Bacanizado ‘Ao Vivo em Maringá’, produzido por Zé Renato Mioto. Esse trabalho foi um marco, reunindo os maiores sucessos do duo até então e mostrando a força da dupla no palco. O DVD trouxe um repertório de respeito como “Oi Nóis Travéis”, “Campo Grande / Cuiabá” e “Faculdade da Pinga”, consolidando João Carreiro & Capataz como os principais representantes do sertanejo bruto. Eles abriram as porteiras para os demais que vieram em seguida nessa vertente do gênero. Com um show vibrante e um público apaixonado, o registro de Maringá capturou a essência do que a dupla representava: autenticidade, energia e uma entrega total à música sertaneja com direito a regravação de Ronaldo Viola (Desatino) e Pena Branca & Xavantinho (Cio da Terra).

Após o sucesso do primeiro DVD, a expectativa para um novo projeto só aumentava. A dupla surpreendeu a todos com o disco “Lado A Lado B”, em 2012. Um disco em estúdio com simplesmente 40 faixas se tornou o maior legado de João Carreiro & Capataz até hoje. Um álbum elogiado, digno de prêmios e que impressionou pelas composições de João nas modas românticas. Foi com base nesse repertório do “Lado A Lado B”, que no dia 5 de julho de 2013, João Carreiro & Capataz subiram ao palco, em Cuiabá, para gravar o que seria o segundo DVD da carreira. Como sabemos, ele acabou de tornando o último projeto da dupla. O DVD tinha como abertura nada menos que o sucesso “Volta pro meu Coração”, música também marcada pela despedida de João Carreiro no ano passado por dizer no refrão “doeu demais ver você partir…”.

O show contou com uma produção grandiosa e um repertório que prometia consolidar de vez a dupla no topo do sertanejo bruto. No entanto, esse DVD nunca chegou ao público. Apenas aqueles que estavam presentes no evento tiveram o privilégio de assistir à gravação, já que, por razões nunca completamente explicadas, o material nunca foi lançado oficialmente. Segundo Marcão Blognejo em seu blog na época, aquele DVD tinha tudo para ser o projeto mais bonito da dupla até ali, pela estrutura utilizada, pelos figurinos de João, Capataz e banda, além do grande momento que eles viviam na carreira mais do que promissora. O cancelamento desse projeto foi um golpe duro para os fãs, principalmente porque João Carreiro & Capataz estavam “na cara do gol” para se tornarem a principal dupla do segmento, como disse o próprio Marcão em uma entrevista.

No entanto, pouco tempo depois veio a separação. Foi no início de 2014 que a parceria da dupla chegou ao fim, mesmo sem um fim anunciado oficionalmente, deixando uma enorme lacuna no sertanejo bruto. Como se sabe, foi após alguns meses que João Carreiro decidiu não subir mais aos palcos para tratar uma forte depressão. Após se recuperar, seguiu carreira solo, mas enfrentou dificuldades de saúde que impactaram seu trabalho. Nos últimos ano foi que ele voltou a se dedicar de maneira mais íntegra a música e vivia uma fase incrível na sua carreira tendo o próprio escritório. Capataz, por sua vez, formou uma nova dupla ainda naquele ano de 2014. Seu primeiro show junto a Gustavo, atual Carreiro, foi em Barretos. Carreiro & Capataz conseguiram rapidamente se reposicionarem no mercado, contando com amigos talentos como Matogrosso & Mathias, Marcos & Belutti e Gusttavo Lima. Recentemente lançaram o DVD “Essência Bruta”, com produção de Zé Renato Mioto, que fez parte da carreira de Capataz desde o início do sucesso.

João Carreiro também deixou projetos solos que se tornaram diamantes para o sertanejo. Um dos álbuns mais marcantes foi o “Brutos de Verdade”, em parceria com Jads & Jadson, dupla referência para o segmento. Mas o legado João Carreiro ao lado de Capataz permaneceu insubstituível para os fãs. Em janeiro de 2024, a notícia da morte de João pegou a todos de surpresa. O cantor faleceu aos 41 anos – quase na mesma idade do ídolo Ronaldo Viola (42); após complicações em uma cirurgia no coração que em tese era muito simples. João acabou deixando precocemente uma legião de admiradores órfãos de sua música e de sua presença marcante. Citando novamente Marcão Blognejo, o público e o sertanejo em si só terá noção da falta que João está fazendo daqui uns anos. Sinceramente, nesse primeiro ano já sentimos muito a ausência dele nesse meio que o tinha como referência máxima, mas não o valorizou como deveria.

A perda de João Carreiro trouxe de volta à tona a questão do DVD ao vivo de Cuiabá: Será que algum dia esse material verá a luz do dia? Os fãs terão a chance de assistir ao último grande registro da dupla no auge? Essas perguntas seguem sem resposta, e enquanto isso, resta apenas assistir ao DVD de Maringá e lembrar com carinho da trajetória de João Carreiro & Capataz. Por enquanto, pode-se afirmar que esse material ainda existe e está guardado, desmistificando de que teria sido deletado ou sumido por alguém. O que consegui saber de uma fonte, que na época fazia parte da produção da dupla na estrada, é que atualmente para esse DVD sair necessita-se de muitos pontos. A família de João autorizaria esse DVD ser lançado? Capataz também estaria de acordo? Em que canal esse DVD seria disponibilizado, no de João Carreiro & Capataz? No de João Carreiro solo? Ou no de Carreiro & Capataz? E se chutando o balde, alguém com esse material em mãos colocasse ‘clandestinamente’ na internet para os fãs terem o merecido acesso?

O legado da dupla continua vivo nas vozes da atual geração que tenta ser “bruta”. Mais vivo ainda nas canções que marcaram época na vida do público. João Carreiro & Capataz não foram apenas uma dupla sertaneja; foram a essência de um segmento, de forma pioneira, trazendo uma identidade única em um cenário cada vez mais dominado pelo comercial ao longo dos anos. A história deles pode ter sido interrompida antes do esperado, mas a memória e a saudade permanecem intactas. Quem sabe, em um belo dia o tal DVD engavetado de Cuiabá finalmente seja liberado, permitindo que o público reviva esse momento inesquecível. Até porque, o sonho de revermos a formação dessa dupla, nem que fosse fazendo as pazes por um momento em alguma mesa tomando cerveja, não é mais possível. Resta aos fãs seguir celebrando a música e a autenticidade de João Carreiro e de Capataz, com a nostalgia que seus trabalhos carregam.

Confira abaixo o setlist do DVD gravado em Cuiabá. A matéria finaliza com a música “Xique Bacanizado”, que deu nome ao DVD de Maringá.

  1. Volta pro meu Coração 
  2. Oi nóis travêis 
  3. Ela é muito boa/ Tá bagunçado, mas tem gerência/ Campo Grande Cuiabá/ Judiação 
  4. Prefácio 
  5. Audácia Pura (inspirada em um samba da Portela)
  6. Lampião/ Cada um com seus problemas/ Do jeito que eu penso/ Não toca em minha vitrola Lágrimas de Crocodilo/ Prefiro os Tubarões 
  7. Disgramô o Goiás
  8. Preta / Papel Branco 
  9. Viola e Cantador / Casinha Verde / Maldade de um falso amor / Se é amor não tem nada que apague
  10. Primeiro brinquedo
  11. O que essa moça fez aqui?
  12. É pra cabá (Pequi do Goiás)
  13. Sete Sentidos 
  14. Melhor do Brasil / O que será que nóis não tem / Mangueira 
  15. Cadê?
  16. Cêmo porque cêmo 
  17. Bom Demais – Faculdade da Pinga/ Xique Bacanizado 
  18. Tudo em nome do poder 
  19. Tributo a Raul Seixas: Aluga-se / Trem das Sete / Rock das Aranhas

Sem invenções mirabolantes de diva pop, Kendrick Lamar leva rap de verdade ao Super Bowl

Foto: Reuters

A apresentação de Kendrick Lamar no show do intervalo do Super Bowl LIX foi um marco histórico para o rap. Como o primeiro rapper solo a liderar o evento mais assistido da TV mundialmente, Lamar entregou uma performance poderosa que destacou a essência do rap, sem os excessos frequentemente associados aos shows pop. Ele precisou apenas de seu talento e de uma abertura incrível feita por Samuel L. Jackson, que dessa vez não precisou aparecer numa cena pós-crédito como nos filmes da Marvel.

O setlist de Kendrick foi uma jornada através de sua carreira, iniciando com “Bodies” e “Squabble Up”, passando por mega sucessos como “HUMBLE.” e “DNA.”, e incluindo colaborações com SZA em “Luther” e “All the Stars”. A apresentação culminou com “Not Like Us”, música que lhe rendeu cinco prêmios Grammys na semana anterior, incluindo ‘Gravação do Ano’ e ‘Canção do Ano’. Se a plateia do Grammy cantou junto no domingo passado, o estádio em peso ajudou a enterrar Drake de vez entoando a diss.

A escolha de Lamar por uma produção minimalista ressaltou a autenticidade do rap. Sem trocas de roupa extravagantes ou cenários elaborados, ele manteve o foco na música e na mensagem, reafirmando sua posição como um verdadeiro representante do gênero. A presença de Samuel L. Jackson, vestido como Tio Sam, adicionou uma camada de crítica social, enquanto Serena Williams, conterrânea dele de Compton, fez uma aparição especial durante “Not Like Us”. Para quem não sabe, ela é ex-namorada de Drake. Dizem que ele não a superou até hoje… 

Mas falando do que realmente interessa, a ascensão do rap ao palco do Super Bowl simboliza uma vitória monumental para um gênero que enfrentou décadas de preconceito e adversidade. Originado nas esquinas das cidades americanas, o rap frequentemente esteve associado a narrativas de violência e marginalização. Seu público sofreu mais do que qualquer outro de gêneros musicais, por puro preconceito. Sabemos que muito sangue foi derramado dentro e fora da cena do rap, inclusive entre os rappers no auge da guerra entre gângsters. Ver Kendrick Lamar, um artista que personifica a essência do rap, ser protagonista do maior evento esportivo dos Estados Unidos é uma prova do impacto cultural e da aceitação que os rappers conquistaram.

Com seus 22 Grammys ao longo de sua carreira, Kendrick continua a redefinir os “limites” do rap. Sua performance no Super Bowl não foi apenas um espetáculo musical, mas também uma declaração poderosa sobre a jornada e a resiliência do hip-hop. Ao evitar o glamour excessivo e focar na autenticidade, Lamar mostrou ao mundo o verdadeiro espírito do rap. Seu pai musical, Dr. Dre provou mais uma vez que seu feeling para revelar grandes estrelas do rap segue mais apurado que nunca. Inclusive, o show de Lamar já era esperado pela grande entregra que teria graças a sua participação no “Dre Day” em 2022, no Super Bowl liderado pelo seu produtor musical.

Em um cenário onde muitos artistas buscam apelo comercial através de produções grandiosas em um intervalo de futebol americano, Kendrick Lamar optou por uma abordagem que honrou as raízes do rap, das ruas e seu povo. Sua performance no Super Bowl LIX será lembrada como um momento decisivo que celebrou a profundidade, a história e a importância cultural do hip-hop na sociedade contemporânea. Sua forma de se expressar, sua ironia e seu jeito irreverente em mandar recados diretos foi o que fez valer o show.

A presença do rap de verdade no Super Bowl é mais do que entretenimento. E isso incomoda a muitos. Essa presença é uma validação de um movimento cultural que influenciou gerações e segue cada vez mais forte na sociedade. Kendrick Lamar, com sua autenticidade e talento inegável, proporcionou uma performance que será lembrada como um marco na história do gênero que tanto sofreu para chegar ao topo. Aliás, mais difícil do que chegar lá, é se manter. O rap consegue isso com voz, talento e muita luta, precisando se provar mais do que as divas pop – que são exaltadas por qualquer performance meia boca cheias de efeitos mirabolantes.

Confira a apresentação de Kendrick Lamar em seu segundo SB: Halftime Show Super Bowl LIX !

“Descancelamento” de Paula Fernandes ganha força nas redes

Foto: Reprodução

Ela é um dos nomes mais talentosos da música sertaneja e, sem dúvida, uma das artistas mais completas do gênero. Com uma carreira marcada por sucessos e prèmios, Paula Fernandes teve sua trajetória injustamente atravessada por críticas que, em muitos momentos, pareciam mais um linchamento virtual do que um debate justo sobre sua música ou comportamento nos bastidores. No entanto, o tempo tem mostrado que sua qualidade artística sempre falou mais alto, e aos poucos, ela vem sendo redescoberta e resgatada pelo público carente de músicas marcantes.

Uma fase delicada de sua carreira começou quando virou alvo de piadas nas redes sociais, especialmente com o episódio do dueto de “Shallow”, na sua versão “Juntos e Shallow Now…”. O que deveria ser apenas uma versão nacional de um sucesso global, se transformou em um meme que reduziu sua trajetória a um episódio isolado. No entanto, quem conhece sua obra sabe que Paula Fernandes é muito mais do que isso. Dona de um repertório sofisticado, arranjos impecáveis e uma voz inconfundível, poucos artistas do sertanejo conseguem atingir o nível de excelência que ela sempre manteve.

Para além das redes sociais, críticas infundadas sobre sua personalidade também contribuíram para esse período na sua carreira. Paula sempre teve uma postura firme, algo que não deveria ser um problema, mas que, em muitos casos, acabou sendo interpretado como um traço negativo. Enquanto diversos artistas masculinos são elogiados por terem personalidade forte, mulheres ainda sofrem com julgamentos duros por esse fato. Tem artista homem que mal olha para o fã e sempre dãl a justificativa de “ah, ele tava com pressa…”.

O fato é que nunca houve provas concretas sobre qualquer tipo de comportamento problemático que justificasse o boicote que Paula sofreu, o que torna tudo ainda mais absurdo. Os fãs da cantora, por exemplo, sempre a elogiaram pela atenção dada a cada um. Ela já foi julgada até mesmo por cantar com Roberto Carlos usando um vestido curto. Mas ela cantou ao vivo, sem errar, isso não é mais importante do que a roupa?

A verdade é que, em termos de talento, Paula Fernandes se destaca como poucos de seu gênero musical. Ela é bicampeã do Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum Sertanejo, um feito que raríssimos artistas da atual geração conseguiram. Além disso, suas composições são densas e carregadas de emoção, um diferencial absoluto nesse mercado cada vez mais pautado por produções rápidas e esquecíveis em uma semana. Seu dueto em “Jeito de Mato” com Almir Sater é um exemplo claro de sua sofisticação artística, pois não é qualquer intérprete que tem o privilégio e a capacidade de dividir canções com uma lenda como Almir. Sem contar em seu feat com Taylor Swift que marcou uma geração.

Foto: Rolling Stone

Infelizmente, dentro do próprio meio sertanejo, Paula também enfrenta críticas gratuitas de colegas. Roberta Miranda, por exemplo, tem um histórico de ataques à cantora, muitas vezes sem justificativa aparente. Até parece o “César Augusto de saias”, dando entrevistas somente para atacar. Outros artistas já passaram por situações semelhantes, mas a impressão que fica é que algumas mulheres enfrentam mais resistência do que os homens ao expressarem suas opiniões ou tomarem as rédeas de suas carreiras. No caso de Paula, isso foi usado como combustível para alimentarem uma rejeição que nunca teve base sólida.

O que precisa ser ressaltado é que a música fala mais alto do que qualquer rumor ou polêmica forçada. Paula Fernandes é uma artista respeitada dentro e fora do Brasil, com uma carreira consolidada e um repertório que resistiu ao tempo. Canções como “Se o Coração Viajar, “Voar”, “Pra que Conversar?”, “Pássaro de Fogo”, “Sensações”, entre outros tantos sucessos nunca saem da memória do público. Seu retorno ao centro das atenções não depende de modismos, pois ela nunca precisou disso para se manter relevante. Se houve um período de baixa, foi motivado mais por narrativas externas do que por qualquer deficiência em seu trabalho.

Contudo, o público sempre volta para aquilo que é de verdade. O “descancelamento” de Paula Fernandes tem movimentado a rede Tiktok. E isso não é um favor, mas sim um reconhecimento tardio de uma artista que nunca deveria ter sido reduzida a fofocas ou memes. Sempre bato na tecla de que nós consumimos o artista, não o CPF. O que a pessoa faz ou é fora dos palcos e dos estúdios não interessa a ninguém. A obra é o que precisa se sobressair nesse meio. E o sertanejo ainda precisa de vozes como a dela.

Por parte de quem realmente aprecia o gênero, sabe-se que sua presença entre os grandes é essencial para manter a qualidade e a profundidade que existem em suas canções. Paula carrega no seu violão e na voz inconfundível um sentimento que só ela consegue apresentar, graças a uma brilhante trajetória que construiu junto à essência e sensibilidade da grande artista que se tornou até aqui!

Video: Reprodução/Tiktok

Retorno de Victor & Leo merecia algo melhor, mas não aconteceu

Foto: Villa Country

Quando Victor & Leo anunciaram a volta aos palcos no final de 2023, o mercado sertanejo e o público receberam a notícia com entusiasmo. Afinal, a dupla marcou uma geração com seu estilo único misturando folk, pop e sertanejo de um jeito que poucos conseguiram. Depois de anos separados, a promessa de um reencontro parecia grandiosa, e a expectativa era de uma turnê histórica, revivendo sucessos que atravessaram o tempo nos últimos 20 anos. Mas, na prática, o que se viu foi uma volta que não teve o retorno esperado.

Em 2024, os irmãos voltaram aos shows, mas rapidamente encontraram obstáculos que mostraram que a aceitação não seria tão simples. Apesar de lotarem algumas apresentações, o nome da dupla começou a ser retirado de grandes eventos após pedidos do próprio público. Outras festas tentaram contratar a dupla, mas para evitar protestos e boicotes do público preferiram nem sondar Victor & Leo na grade de programação. Isso não aconteceu por falta de qualidade musical. É que para muita gente, o passado pesou mais do que o legado artístico. A rejeição veio mais forte do que o saudosismo, e o que poderia ter sido um grande triunfo se transformou em um problema.

Mesmo com dificuldades, a dupla gravou um mega DVD no Estádio do Morumbi (Morumbis), um feito grandioso para qualquer artista do sertanejo. No entanto, o material não teve a repercussão esperada durante as gravações. Detalhe, vai completar 1 ano que essa gravação foi feita e até hoje ninguém teve acesso. Em um cenário musical onde o modismo e a efemeridade ditam as regras, o trabalho de qualidade deles poderia ser um diferencial, mas acabou na gaveta (por enquanto). O grande paradoxo é que, ao mesmo tempo em que muitos consideram o sertanejo atual “descartável” e sentem falta de artistas com identidade, quando uma dupla essencial ao gênero tenta retomar seu espaço, não recebe o apoio necessário.

É como se houvesse um desejo nostálgico pelas músicas, mas sem a disposição de abraçar os artistas que as criaram. Separar a obra do artista se tornou um dilema para o público, e Vitor & Léo acabaram sendo vítimas desse comportamento. A verdade é que eles mereciam um retorno muito maior. Se analisarmos a qualidade musical, a trajetória e a importância que tiveram para o sertanejo dos anos 2000, era de se esperar que a volta fosse triunfal.

Mas o que aconteceu foi justamente o contrário: mais se falou sobre o cancelamento do que sobre a música. O que deveria ser um resgate da boa fase do gênero virou uma batalha perdida contra o tribunal da internet. O episódio de Vitor & Léo escancara a fragilidade do atual consumo de música no Brasil. Hoje, não basta ter talento ou um repertório sólido; é preciso estar em sintonia com um público que cada vez mais julga o artista além do palco. Isso gera um cenário contraditório, pois criticam a baixa qualidade do sertanejo atual, mas boicotam aqueles que poderiam trazer algo melhor. E ninguém sabe o que esperar em 2025 se tratando da dupla.

No fim, a volta de Vitor & Léo não foi um fracasso, mas sim um reflexo do público e do mercado de hoje. Eles entregaram o que sempre fizeram de melhor, mas não encontraram um cenário disposto a recebê-los. Dava para ter sido algo muito maior. E o DVD do Morumbi, vamos conseguir ver um dia ou vai se tornar uma lenda como aquele do João Carreiro & Capataz em Cuiabá? – que só o Marcão Blognejo viu porque estava lá – já que até hoje o material está numa gaveta obscura. O sertanejo precisava das irretocáveis composições de Victor Chaves e da bela voz de Leo, tanto com suas obras conhecidas quanto com um material inédito. Mas o público preferiu seguir no mesmo caminho dos hits descartáveis.

De Luis Miguel a Zezé: Carlos Colla se tornou um dos maiores da história

Foto: Instagram

Quando se fala em grandes compositores da música brasileira, o nome de Carlos Colla merece um lugar de destaque. Autor de inúmeros sucessos, sua trajetória se confunde com a história da música romântica e sertaneja, tendo suas composições interpretadas por ícones que vão de Roberto Carlos a Chrystian & Ralf. Dono de um talento inquestionável para transformar sentimentos em versos e melodias inesquecíveis, Colla se consolidou como um dos maiores letristas do país pelo seu estilo inconfundível de fazer música.

Sua carreira na década de 70 foi atrelada à parceria que fez com Maurício Duboc em composições gravadas pelo Rei Roberto Carlos, como a “Falando Sério”, um dos maiores sucessos da MPB. Já nos anos 80, Carlos Colla produziu à vinda ao Brasil da boy band Menudos, para o qual fez versões em português dos seus sucessos – entre as quais a que resultou em “Hoje a noite não tem luar”. O compositor também produziu o jovem astro mexicano Luis Miguel, no início de sua carreira em seus primeiros discos.

A carreira de Carlos Colla começou a ganhar notoriedade a partir daí. quando passou a escrever canções para artistas de renome além da MPB. Foi quando ele entrou no mundo sertanejo em parceria com compositores como Chico Roque, Elias Muniz e Michael Sullivan. Colla ajudou a moldar o romantismo da música sertaneja moderna, criando canções que se tornaram verdadeiros hinos do gênero sem perder a essência raiz. Um dos maiores exemplos é “Fogão de Lenha”, gravada por Chitãozinho & Xororó, uma música que evoca a nostalgia e os valores familiares com uma melodia que emociona gerações.

Outro grande sucesso de sua autoria foi “Bijuteria”, interpretada por Chrystian & Ralf,  o mesmo disco que tem outra incrível composição sua, “Olhos de Luar”. A “Bijuteria” foi conhecida pela geração seguinte na regravação de Bruno & Marrone, nove anos após o disco de Chrystian & Ralf. A letra melancólica e profunda, que fala sobre a dor de um amor para quem não merecia fez com que a música conquistasse um espaço definitivo no coração dos fãs sertanejos. Esse estilo sentimental e poético se tornou uma marca registrada do trabalho de Colla.

Entre suas composições memoráveis com artistas do sertanejo estão “Um Degrau na Escada” (Chico Rey & Paraná), “Você Vai Ver” (Zezé di Camargo & Luciano), “Meu Disfarce” Chitãozinho & Xororó), “Sonho por Sonho” (Leandro & Leonardo), “Na Hora do Adeus” (Matogrosso & Mathias), “Viola Caipira” (Gian & Giovani), “Tem Nada a Ver” (Bruno & Marrone/Jorge & Mateus); sem falar nas versões “Cara ou Coroa” (ZC&L) e “Estou Apaixonado” (João Paulo & Daniel). Sua capacidade de criar letras marcantes e envolventes fez com que suas músicas atravessassem gerações. Com uma carreira que se estendeu por décadas, Carlos Colla se tornou referência para novos compositores e para a indústria da música como um todo.

Seu legado vai muito além dos sucessos comerciais, pois suas letras contam histórias, despertam emoções e traduzem sentimentos universais de amor, saudade e histórias fora da curva. Cada nova geração de artistas encontra em suas composições uma inspiração para manter viva a tradição da música romântica brasileira. Além do sertanejo, outro sucesso da MPB de Carlos Colla é “Bye bye Tristeza”, da Sandra Sá. Sua amizade com Xororó também o levou para o repertório pop de Sandy & Jr, assim como no pagode o sucesso “Mel na Minha Boca” fez a carreira do Grupo Desejo mudar.

Perdemos esse gênio da música há 2 anos. Mas ele continua reverenciado como um dos maiores compositores do Brasil. Seu nome está eternizado não só em suas obras, que continuam sendo cantadas e sentidas por milhões de pessoas, mas na história de grandes clássicos que ganhamos na música. Como o artista completo que foi, o brilhante compositor era prova de que boas canções não envelhecem — pelo contrário, se tornam eternas nas vozes que acompanham a vida dos fãs, marcando momentos inesquecíveis e reafirmando a força de Carlos Colla como uma verdadeira expressão dos sentimentos. Saudades sempre do mestre de todos!

30 anos do consagrado álbum de Chitãozinho & Xororó

A dupla Chitãozinho & Xororó lançou em 1995 um álbum homônimo que respira e respeita o sertanejo, mesmo com suas inovações para a época. O projeto consolidou ainda mais a posição da dupla no cenário da música sertaneja como sendo a mais relevante de todos os tempos. Este trabalho destacou-se pela diversidade musical, mesclando letras românticas com canções para dançar e instrumentos do country-rock, refletindo-se na versatilidade de CH&X comprovada ao longo dos anos.

Naquele período em que esse álbum surgiu para o mercado, Chitãozinho & Xororó já faziam parte do projeto ‘Amigos’ e se consolidava como uma das mais importantes do cenário sertanejo, ao lado de Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano e Gian & Giovani. Com uma carreira repleta de sucessos, a dupla continuava a inovar e emocionar o público, mantendo-se no topo das paradas e ajudando a moldar o sertanejo romântico que dominava os anos 90.

O álbum abre com a faixa “Vez Em Quando Vem Me Ver”, uma canção que captura a essência do sertanejo romântico e consolida a dupla de compositores Carlos Randall e Danimar como uma das mais talentosas daquela geração. O disco segue com “Um Homem Quando Ama”, que aprofunda temas de amor e dedicação às paixões, quando logo entra “Loira Gelada”. Ela traz uma energia contagiante para os bailes e festas, preparando o ouvinte para um clássico a seguir: “Página de Amigos”. Um dos maiores sucessos escrito pela parceria Rick e Alexandre, ela aborda de forma profunda o sofrimento amoroso e a relação de uma impossível amizade com quem se é apaixonado.

Ao longo do disco vemos outros arrebatadores sucessos como a “Feito Eu”, que apresenta uma melodia envolvente, e “Bailão De Peão”, que nunca pode faltar trazendo sua animação e celebrando as tradições das festas sertanejas. Essa, nem do repertório do ‘Amigos’ pode ficar de fora. Outras canção que chama atenção pelo arranjo é “Bandido é o Coração”, que se destaca também pela sua narrativa envolvente, enquanto “Cara A Cara, Frente A Frente” e “Chorei” mergulham nas emoções de confrontos e despedidas amorosas.

Esse trabalho de 1995 é uma demonstração da habilidade de Chitãozinho & Xororó em capturar as nuances das experiências humanas através da música. Ilustres músicos também fizeram parte desse emblemático álbum. A direção artística de Max Pierre ainda trouxe a produção musical de José Homero Bétio e César Augusto. O projeto marcou ainda o primeiro trabalho do produtor Luiz Carlos Maluly no sertanejo, que ficou responsável pela gerência artística. Os arranjos ficaram por conta de Julinho Teixeira, Maestro Martínez e Reinaldo Barriga.

As fotos do encarte foram feitas no Haras Nossa Senhora de Guadalupe, em Barretos. Aliás, Xororó tirou as fotos um dia antes de seu aniversário, para segundo ele, parecer mais novo na capa. Alguém avisa que ele está com a mesma cara desde 1990… Bom, o que vale é exaltar a importância desse disco, que permanece como um marco na discografia de Chitão e Xororó, evidenciando sua capacidade de inovar e impressionar os fãs mesmo com seus 30 anos de aniversário. O repertório que caiu como uma luva para a dupla, os consagraram mais uma vez e atualmente serve como escola para demais artistas.

O álbum completo – que recebeu Disco de Platina por mais de 900 mil cópias vendidas – e seus compositores estão nas faixas a seguir. Para ouvir clique aqui: CH&X (1995)

1. Vez Em Quando Vem Me Ver – Carlos Randall / Danimar

2. Um Homem Quando Ama – vs. Maulívio Pereira / Darci Rossi

3. Loira Gelada – Maria da Paz / Nino

4. Página de Amigos – Rick / Alexandre

5. Doce Pecado – Carlos Randall / Danimar

6. Só Quem Amou Demais – Fátima Leão / Alexandre / Netto

7. Feito Eu – Rick / Alexandre

8. Bailão De Peão – Maria da Paz / Nino

9. Bandido É O Coração – César Augusto / Piska

10. Cara A Cara, Frente A Frente – Chitãozinho / César Augusto

11. Chorei – Olinto Muniz / Danimar 

12. Só Mais Uma Vez – Tivas / Carlos Randall

13. Parece Sonho – Darci Rossi / Xororó

14. Ciumento Demais – Xororó / César Augusto