Categoria: Música

Eduardo Costa é o único que mantém o legado de Piska no sertanejo

Foto/Reprodução

Nos últimos anos, Eduardo Costa tem se consolidado como um dos poucos artistas que mantém viva a tradição do sertanejo em sua forma mais autêntica. Em uma indústria que frequentemente se reinventa e se moderniza, ele segue um caminho distinto: resgatando a essência do gênero por meio de projetos acústicos que valorizam a música de qualidade, a melodia e a profundidade das letras, além dos arranjos fiéis de guitarras e violão que Eduardo também manteve em seus trabalhos. Esse compromisso não é por acaso. O cantor carrega consigo uma herança musical de enorme peso, sendo o único artista atual a manter vivo o legado do lendário produtor, compositor e multi-instrumentista Carlos Roberto Piazzolli, o Piska.

Para quem conhece a história da música sertaneja, Piska não precisa de introduções. Considerado o multi-instrumentista mais importante e relevante do gênero, ele deixou uma marca indelével nas canções que moldaram a identidade sertaneja ao longo das décadas. Sua genialidade musical ultrapassava os limites de um único instrumento – ele dominava diversos e contribuía diretamente para o som característico que definiu gerações. Seu trabalho não se restringia apenas à execução; Piska era um maestro dos bastidores, criando arranjos, produzindo discos icônicos e ajudando a dar vida às canções que se tornariam hinos para o público.

Músicas como “Pra Não Pensar Em Você”, “Minha Estrela Perdida”, “Antes de Voltar Pra Casa”, “Mentira Que Virou Paixão”, “Preciso Ser Amado”, entre tantos outros sucessos reconhecidos pela emblemática guitarra, fizeram história. O sertanejo moderno muitas vezes se distancia dessa riqueza instrumental e emotiva, apostando em produções eletrônicas e letras voltadas para o entretenimento. No entanto, Eduardo Costa se mantém fiel à escola de Piska, preservando a musicalidade artesanal e a profundidade interpretativa que marcaram a era de ouro do sertanejo. E não é de hoje que Eduardo tem se dedicado a projetos acústicos que são verdadeiras obras de arte.

Desde o início de sua carreira, quando seu disco era vendido como “Zezé di Camargo Acústico” nos camelôs, o artista se destaca por fazer o simples bem feito. Ao despir suas músicas dos excessos da produção contemporânea e apresentá-las em versões mais puras, ele consegue destacar o que realmente importa: sua voz, seu sentimento e os instrumentos básicos para um arranjo tocar o coração do público. Seu trabalho nesse formato não apenas resgata a nostalgia dos tempos áureos do sertanejo e de seu próprio trabalho, mas também serve como um tributo ao legado deixado por Piska. Aliás, o melhor disco ao vivo de Eduardo, competindo com seu primeiro DVD em Belo Horizonte (2007), é o Acústico de 2013 feito no Brook’s Bar.

A sonoridade de Eduardo Costa nesses projetos é carregada de emoção e técnica trazendo a guitarra, a bateria e o violão como protagonistas, exatamente como Piska sempre defendeu. Eduardo ainda acrescenta a sanfona em músicas que foram determinantes em sua carreira e ganharam releituras como “Na Saideira”, sua composição com Maestro Pinocchio. Cada acorde, cada pausa e cada interpretação são pensados por Eduardo para transmitir verdade. Em um mercado onde a música sertaneja muitas vezes se dilui em batidas genéricas e modismos passageiros, ele se firma como um guardião da qualidade que ouvíamos nos anos dourados do gênero.

A importância de Eduardo Costa para a preservação da essência do sertanejo vai muito além de seus próprios sucessos. Ele carrega consigo a responsabilidade de manter viva uma história musical construída por mestres como Piska, que moldaram o sertanejo com talento e dedicação incomparáveis. Ao seguir essa linha, ele não apenas homenageia seu mentor indireto, mas também assegura que futuras gerações tenham acesso à verdadeira música sertaneja, aquela que fala à alma e ao coração. Hoje em dia é impossível deixar Eduardo fora das playlist’s.

Em um mundo musical de constante transformação e cada vez mais eletrônico cheio de autotune, Eduardo Costa segue firme como uma ponte entre o passado e o presente, mostrando que a essência do sertanejo pode e deve conviver com a modernidade. Sua música, em formato acústico e genuíno, é mais do que um resgate: é um testemunho da grandiosidade do sertanejo e da genialidade que Piska deixou. Eduardo parece ser o único artista atualmente que consegue manter o legado do maestro. Ele sabe regravar sem estragar, sabe mencionar a importância de Piska sem precisar de ocasiões especiais e mantém vivo o nome de um pioneiro que jamais deve ser esquecido ou comparado.

Confira os últimos projetos de Eduardo Costa no link a seguir: Canal Oficial

Leonardo segue recebendo críticas por seus shows

Muita bebida, pouca voz. Não seria hora de passar mais tempo com a Floflô na Talismã?

Foto: G1

Leonardo sempre foi sinônimo de alegria, irreverência e claro, boa música. Desde os tempos da dupla com Leandro, ele construiu uma trajetória sólida, cheia de sucessos que marcaram gerações. O álbum do sucesso “Talismã”, lançado em 1990, ainda ostenta o título de disco mais vendido da história da música sertaneja. Naquela época, o show da dupla no Canecão, no Rio de Janeiro, foi um divisor de águas levando o sertanejo para um público que antes torcia o nariz para o gênero. Seguiu uma carreira solo impecável após a perda do irmão que teve até uma fase pop onde ele vivia gravando clipes para a MTV e cantava parecendo o Ricky Martín nos programas de TV. Mas o tempo passa para todos, e, nos últimos anos, o cantor tem sido alvo de críticas que colocam em xeque sua permanência nos palcos.

Quem acompanha os vídeos dos últimos shows de Leonardo percebe que algo mudou. A voz, naturalmente desgastada pelo tempo e pelo estilo de vida, já não tem o mesmo brilho. Os deslizes nas letras e o esforço para alcançar certas notas deixam claro que os dias de auge vocal ficaram no passado. Mas o que mais tem chamado atenção – e causado preocupação – é o estado em que ele sobe ao palco. Em várias apresentações recentes, o cantor parece estar embriagado, tropeçando nas palavras, rindo sem motivo e, às vezes, até errando trechos inteiros das músicas. O que antes era visto como parte do seu carisma e descontração agora soa como exagero e descuido.

Leonardo nunca escondeu seu gosto por uma boa bebida. Sempre foi o mais brincalhão do sertanejo, aquele que faz piada de tudo, que transforma qualquer entrevista em um momento divertido. Mas existe uma linha tênue entre o bom humor e o descontrole, e, para muitos fãs, essa linha tem sido cruzada. Os comentários nas redes sociais refletem essa insatisfação: “Cadê aquele Leonardo que emocionava?”, “Ele está se tornando uma caricatura de si mesmo”, “Alguém da família precisa intervir”, são algumas das mensagens que se repetem.

Diante desse cenário, surge a inevitável pergunta: será que não é hora de parar? Leonardo tem uma carreira consolidada e já declarou no início desse ano que não pretende gravar músicas novas. Ele nem precisa, pelo grande repertório que ten. Inclusive, se fosse pra gravar música nova e fazer um estrago igual Bruno & Marrone, melhor viver das antigas mesmo. O cantor também tem um excelente patrimônio garantido e uma família linda. Sua neta, Maria Flor – carinhosamente chamada de Floflô – é um sucesso na internet e está crescendo rápido. Por isso, talvez seja o momento de Leonardo aproveitar mais essa fase da vida. A Fazenda Talismã, seu refúgio particular, parece o lugar ideal para isso. Lá, longe dos compromissos exaustivos da estrada, ele poderia se dedicar à família, curtir os filhos, os netos, os amigos, e viver com a tranquilidade que merece.

Claro, decidir encerrar uma carreira não é simples. A música está no sangue, e o palco é um espaço difícil de largar para qualquer artista. Mas há diferentes formas de seguir presente no universo sertanejo sem precisar se expor a apresentações em que a decadência acaba falando mais alto que o talento. Poderia apostar em participações especiais, projetos acústicos ou até mesmo apenas nos bastidores, ajudando a nova geração – como o próprio Zé Felipe, que, apesar de seguir um estilo diferente, ainda carrega o DNA do pai e seus artistas no escritório Talismã, como Thiago Carvalho, Valéria Barros e Cezar & Paulinho.

O que ninguém quer é ver um ícone da música sertaneja terminar sua trajetória de forma melancólica. Leonardo merece ser lembrado por sua voz inconfundível, sua história de superação após a perda de Leandro, seus sucessos que nunca sairão do repertório dos apaixonados por sertanejo. Mas, para isso, talvez seja hora de refletir sobre o próprio caminho e entender que, às vezes, saber parar também é um gesto de respeito à própria história. Deslizes no palco hoje em dia saem mais caro, pois a militância na internet está sempre pronta para atacar qualquer artista que erre uma nota.

“Revelação – 30 anos” é uma aula de cultura brasileira

O Grupo Revelação acaba de lançar o primeiro volume do DVD comemorativo de seus 30 anos de carreira, e o resultado não poderia ser diferente: um espetáculo grandioso, repleto de sucessos que marcaram gerações produzido por Bira Haway e Marquinhos dos Santos. Com uma trajetória sólida e inquestionável no pagode, a banda reafirma sua relevância com esse projeto, celebrando três décadas de inovação e influência dentro do gênero. O DVD, gravado com uma produção impecável, reúne clássicos que embalaram o público ao longo dos anos desde “Na Palma da Mão” a “Deixa Acontecer”, trazendo ainda o sucesso que até a milícia gosta: “Zé do Caroço”, eternizado na voz de Leci Brandão, mas que ganhou outro patamar através do grupo.

O Revelação sempre se destacou pela sonoridade única, combinando uma base percussiva marcante com arranjos sofisticados e um swing irresistível. Essa identidade sonora diferenciada ajudou a redefinir o pagode, tornando o grupo ainda mais acessível e conquistando fãs de todas as idades. Eles trouxeram uma nova roupagem ao gênero, sem perder a essência do samba de raiz, e esse equilíbrio é um dos fatores que garantiu a longevidade e sucesso contínuo do grupo. E claro que quem fez parte dessa história, como Xande de Pilares também marca presença nesse álbum especial. Ele divide o palco com a atual formação do grupo que tem Jonathan Alexandre no vocal e segue com integrantes lendários como Mauro Júnior, Sérgio Rufino, Beto Lima e Rogerinho.

Ao longo dessas três décadas, o impacto do Revelação no cenário musical é inegável. Eles abriram caminhos para uma nova geração de artistas, influenciando a maneira como o pagode é produzido e consumido. Muitos grupos e cantores que surgiram nos últimos anos se inspiraram na musicalidade e na estrutura melódica que o Revelação popularizou. Seu repertório, recheado de canções inesquecíveis, tornou-se referência para quem busca entender a evolução do pagode moderno.

Dentro do pagode, poucos grupos podem ser considerados tão influentes e representativos quanto o Revelação. Junto ao Exaltasamba, e ao pai de todos, Raça Negra, formam uma verdadeira tríade do gênero nos últimos 30 anos, seguindo no caminho de se consagrar como algo único no alto do panteão musical como o Fundo de Quintal. Enquanto o Exaltasamba trouxe uma pegada mais romântica e envolvente e o Raça Negra popularizou a fusão entre o pagode e outros estilos musicais dando ainda estrutura ao gênero no cenário nacional; o Revelação consolidou uma estética rítmica única, valorizando a percussão e criando um som que é imediatamente reconhecível.

O lançamento do DVD de 30 anos é, portanto, um marco não apenas para o grupo, mas para o pagode como um todo. É um testemunho de sua capacidade de se reinventar sem perder a essência, de continuar relevante em um mercado que se transforma constantemente. A recepção do público tem sido extremamente positiva, evidenciando o carinho e a admiração que os fãs mantêm pela banda ao longo do tempo. Esse projeto reforça o papel do Revelação como um dos pilares fundamentais do pagode contemporâneo.

Com esse DVD, o Revelação reafirma seu status de gigante do pagode, trazendo uma celebração à altura de sua trajetória e uma aula de cultura brasileira. Mais do que um registro audiovisual, trata-se de um presente para os amantes do gênero, um lembrete do legado construído ao longo desses 30 anos e da importância do grupo na história da nossa música. Quem acompanha a boa música sabe que de samba ou pagode nos últimos tempos sem citar o Revelação, é simplesmente impossível.

Seu Jorge retorna com “Baile à la Baiana” mais genial do que nunca

Após uma década sem um álbum de inéditas, Seu Jorge prova mais uma vez por que é um dos artistas mais completos da música brasileira. Cantor, compositor e ator de talento inquestionável, ele retorna ao cenário musical com Baile à la Baiana, um trabalho vibrante, cheio de brasilidade e que não dá vontade de pular uma faixa sequer. Com sua voz inconfundível e um repertório que passeia por diversos ritmos, ele reafirma sua genialidade e sua capacidade de se reinventar sem perder a essência que o fez ser reconhecido.

O álbum transborda a alegria e a riqueza cultural do Brasil, misturando elementos do samba, MPB, lambada e carimbó em uma fusão irresistível do Norte ao litoral. Seu Jorge entrega um trabalho sofisticado e, ao mesmo tempo, acessível, daqueles que envolvem qualquer ouvinte logo nos primeiros acordes. A sonoridade é contagiante e reforça sua versatilidade como artista, sempre equilibrando tradição e modernidade.

Entre os destaques, “Sábado à Noite” se sobressai como uma música perfeita para relaxar e curtir enquanto viaja ou se arruma pra sair. A faixa tem um groove delicioso e convida ao balanço, transportando o ouvinte para uma noite animada e cheia de energia boa. A produção esbanja qualidade, com arranjos bem construídos e aquela interpretação envolvente que só Seu Jorge sabe entregar. O mesmo acontece com a faixa de abertura do álbum, “Sete Prazeres”.

Outro momento marcante do álbum é “Shock”, que traz uma mistura irresistível de lambada e carimbó, remetendo a Luiz Caldas e algo meio ‘Chorando se Foi’. A faixa exala brasilidade e reforça a conexão do artista com ritmos populares que fazem parte da identidade musical do país. A batida dançante e o refrão cativante fazem dessa música um verdadeiro convite para celebrar e se deixar levar pelo som.

Mas a faixa que mais conquistou meu coração foi “Gente Boa Se Atrai”, uma canção que transmite uma mensagem extremamente positiva. Seu Jorge acerta em cheio ao trazer uma letra que exalta as boas energias e a importância de cercar-se de pessoas do bem. É aquele tipo de música que eleva o astral e deixa qualquer dia mais leve, com uma melodia gostosa e um refrão que gruda na cabeça.

Com Baile à la Baiana, Seu Jorge mostra que o tempo só aprimorou seu talento e sua capacidade de criar músicas que tocam a alma e fazem o corpo se mexer. O álbum não é apenas um retorno triunfal, mas uma reafirmação do seu lugar como um dos grandes nomes da música brasileira. Quem já era fã se encanta ainda mais, e quem ainda não conhecia bem seu trabalho tem aqui a oportunidade perfeita para se render ao seu talento. Confira o álbum completo: Baile à la Baiana !

Léo Magalhães: 20 anos de história e um legado inconfundível

Foto: Vander Salarini (@vandersalarini)

O cantor do topete mais bem cuidado do sertanejo, Léo Magalhães, chega a um momento especial da carreira em 2025. Ele gravou nesta quarta-feira (12) o novo DVD, celebrando os 20 anos de sua grande trajetória na música. Um caminho que começou no Nordeste e conquistou o Brasil inteiro, fez seu nome ser sinônimo de respeito e credibilidade no meio sertanejo. Algo que foi conquistado com muito trabalho, talento e uma voz que, mesmo carregando influências, se tornou única e inconfundível. Provável que esse seja seu maior legado até aqui.

Desde seu início, Léo teve como referência a escola de cantores como Zezé Di Camargo e Eduardo Costa, mas nunca foi uma cópia de nenhum deles. Sua voz tem uma identidade própria, um timbre marcante que o destacou mesmo em um mercado onde muitas vozes pareciam seguir um padrão com o estouro de Jorge & Mateus na época. Mas nem sempre esse reconhecimento foi imediato. No começo, seu sucesso caminhava lado a lado com os teclados e regravações de Zezé di Camargo & Luciano em seu primeiro DVD, gravado em São Luís, Maranhão. O estado, junto à Bahia, foram os primeiros a abraçarem sua carreira.

Em uma realidade que afetava os artistas de forma curiosa, era comum que discos de Léo Magalhães fossem vendidos com a capa de Eduardo Costa e vice-versa. Isso acontecia porque o público via semelhanças no estilo dos dois e, muitas vezes, nem sabiam exatamente quem estavam ouvindo. Mas com o tempo, o mercado se ajustou. Léo conquistou seu espaço com uma identidade própria após direcionar sua carreira de forma nacional. Assim como Eduardo Costa, que no início dos anos 2000 era vendido nos camelôs como “Zezé di Camargo Acústico”, mas também passou a ser reconhecido pelo próprio estilo. Outra coincidência na carreira de Léo e Eduardo é a música “Primeiro de Abril”, composta por Carlos Randall, Joel Marques e Serginho Pinheiro. Eles gravaram ela praticamente no mesmo ano. Quem ligava o rádio tinha a chance de reviver aquela fase, em que os dois artistas eram os mais vendidos do mercado informal e em seguida colheram o sucesso nos palcos. Inclusive, teremos o reencontro deles em um feat nesse novo projeto dos ‘20 anos de História’.

O grande ponto de virada na carreira de Léo veio em 2009, quando ele gravou seu segundo DVD ao vivo. Foi o primeiro nos moldes sertanejos, feito em Goiânia, com a produção do renomado Maestro Pinocchio. A capital goiana conhecida como o coração do sertanejo, foi o cenário perfeito para essa consagração. Léo estava chegando em Goiás para o seu primeiro show na região. Foi quando Pinocchio o conheceu e disse: “Olha, se você for cantar numa casa lotada só com esse teclado você não volta mais.” Ele precisava de estrutura, uma banda, arranjos e tudo que pudesse explorar melhor o talento que tinha para mostrar. Na noite da gravação, a casa de shows ficou lotada e o Brasil, enfim, passou a conhecer a voz pela qual o Nordeste já havia se encantado. Esse projeto elevou Léo a outro patamar, trazendo sucessos que se espalharam pelo país e consolidando seu nome entre os grandes da música romântica.

Foi a partir daí que o meio sertanejo passou a olhar para ele com outros olhos, e o público passou a reconhecer de fato aquela voz que tantas vezes havia sido confundida, pertencia a um artista que tinha luz própria. Navegando assumidamente pelo sertanejo 90, Léo foi um tesouro encontrado, para a geração que consumia o sertanejo universitário, ouvir o romantismo que ele carregava com tanto conhecimento desse nicho do gênero. Léo é o artista moderno que transita pelo clássico com propriedade. Canções renomadas como “O cara Errado”, “Primeiro de Abril”; “Fala Comigo (Alô)”, “Cd’s e Livros”, “Onde Anda Meu Amor”; fazem parte do repertório consolidado que o artista tem nesses anos de sucesso e provam suas qualidades.

Hoje, com duas décadas de trajetória, Léo Magalhães se firma como um dos grandes nomes dessa vertente do sertanejo somando sucessos na sua brilhante carreira. Seu respeito foi conquistado não só pelo talento, mas pela consistência. Ele não foi um fenômeno passageiro que muitos achavam que seria cantando apenas a “Locutor” – escrita por Bruno Caliman. Léo se tornou um artista muito enfático em cada passo que deu e construiu uma base sólida de fãs que o acompanham por onde for.

Sua voz segue sendo uma de suas marcas registradas e sua história prova que, com dedicação, é possível sair do improvável para se tornar uma referência de qualidade no acirrado mercado musical. Nesses 20 anos de carreira, Léo Magalhães merece todo o sucesso que conquistou por ter plantado com elegância algo que foi contra a maré desde seu auge. Ele já demonstrou que não é apenas mais um entre tantos. Como artista ele continuará sendo reverenciado, pela verdade que carrega e pelo romantismo que atravessa o tempo a cada geração. Seus trabalhos ainda representam a “escola” de Piska, Zezé, Fátima Leão e Randall. “Escola” que ainda é referência de como fazer boa música sem fórmulas vazias, mas sim, com muito sentimento nas letras interpretadas pela voz icônica de Léo.

(Video gravado no projeto “20 anos de História”, por Vander Salarini, praticamente meu correspondente no DVD do Léo!)

O que se sabe sobre o DVD de João Carreiro & Capataz gravado em Cuiabá?

Foto: Reprodução

O sertanejo na sua vertente raiz e bruta teve muitos representantes ao longo dos anos, mas poucos conseguiram cravar seu nome como João Carreiro & Capataz. Com uma pegada rústica, letras autênticas e uma sonoridade que mesclava a raiz do sertanejo com o peso diferenciado na viola junto às guitarras, fizeram da dupla a maior de seu nicho no mercado musical. Desde o início, João Carreiro se destacava por sua voz inconfundível, pela habilidade na viola e suas composições intensas, enquanto Capataz complementava com sua segunda voz marcante e talento no violão, além das presenças de palco que ambos dominavam como ninguém naquela geração. Juntos, eles trouxeram um som que fugia do modismo e se consolidaram como referência no gênero.

A caminhada da dupla começou a ganhar força entre 2008 e 2009, período em que lançaram hits que caíram no gosto popular, como a “Bruto, Rústico e Sistemático”, trilha da novela de temática rural, Paraíso. As músicas de JC&C representavam bem o estilo que os diferenciava de outras duplas, trazendo letras que falavam da vida no campo, das dificuldades e do orgulho de ser caipira. Aos poucos, eles foram conquistando espaço, participando de programas de TV, grandes eventos sertanejos e lotando shows por onde passavam. Ganham força principalmente no interior do país, com a galera jovem que não queria saber de “Chora me Liga” ou arrocha. Na época, o sertanejo universitário dominava as rádios, mas João Carreiro & Capataz se mantinham firmes na proposta de um som mais raiz com a sonoridade rockeira, conquistando um público fiel que ansiava por esse tipo de música.

O grande momento da carreira veio em 2010, com a gravação do primeiro DVD da dupla, João Carreiro & Capataz – Xique Bacanizado ‘Ao Vivo em Maringá’, produzido por Zé Renato Mioto. Esse trabalho foi um marco, reunindo os maiores sucessos do duo até então e mostrando a força da dupla no palco. O DVD trouxe um repertório de respeito como “Oi Nóis Travéis”, “Campo Grande / Cuiabá” e “Faculdade da Pinga”, consolidando João Carreiro & Capataz como os principais representantes do sertanejo bruto. Eles abriram as porteiras para os demais que vieram em seguida nessa vertente do gênero. Com um show vibrante e um público apaixonado, o registro de Maringá capturou a essência do que a dupla representava: autenticidade, energia e uma entrega total à música sertaneja com direito a regravação de Ronaldo Viola (Desatino) e Pena Branca & Xavantinho (Cio da Terra).

Após o sucesso do primeiro DVD, a expectativa para um novo projeto só aumentava. A dupla surpreendeu a todos com o disco “Lado A Lado B”, em 2012. Um disco em estúdio com simplesmente 40 faixas se tornou o maior legado de João Carreiro & Capataz até hoje. Um álbum elogiado, digno de prêmios e que impressionou pelas composições de João nas modas românticas. Foi com base nesse repertório do “Lado A Lado B”, que no dia 5 de julho de 2013, João Carreiro & Capataz subiram ao palco, em Cuiabá, para gravar o que seria o segundo DVD da carreira. Como sabemos, ele acabou de tornando o último projeto da dupla. O DVD tinha como abertura nada menos que o sucesso “Volta pro meu Coração”, música também marcada pela despedida de João Carreiro no ano passado por dizer no refrão “doeu demais ver você partir…”.

O show contou com uma produção grandiosa e um repertório que prometia consolidar de vez a dupla no topo do sertanejo bruto. No entanto, esse DVD nunca chegou ao público. Apenas aqueles que estavam presentes no evento tiveram o privilégio de assistir à gravação, já que, por razões nunca completamente explicadas, o material nunca foi lançado oficialmente. Segundo Marcão Blognejo em seu blog na época, aquele DVD tinha tudo para ser o projeto mais bonito da dupla até ali, pela estrutura utilizada, pelos figurinos de João, Capataz e banda, além do grande momento que eles viviam na carreira mais do que promissora. O cancelamento desse projeto foi um golpe duro para os fãs, principalmente porque João Carreiro & Capataz estavam “na cara do gol” para se tornarem a principal dupla do segmento, como disse o próprio Marcão em uma entrevista.

No entanto, pouco tempo depois veio a separação. Foi no início de 2014 que a parceria da dupla chegou ao fim, mesmo sem um fim anunciado oficionalmente, deixando uma enorme lacuna no sertanejo bruto. Como se sabe, foi após alguns meses que João Carreiro decidiu não subir mais aos palcos para tratar uma forte depressão. Após se recuperar, seguiu carreira solo, mas enfrentou dificuldades de saúde que impactaram seu trabalho. Nos últimos ano foi que ele voltou a se dedicar de maneira mais íntegra a música e vivia uma fase incrível na sua carreira tendo o próprio escritório. Capataz, por sua vez, formou uma nova dupla ainda naquele ano de 2014. Seu primeiro show junto a Gustavo, atual Carreiro, foi em Barretos. Carreiro & Capataz conseguiram rapidamente se reposicionarem no mercado, contando com amigos talentos como Matogrosso & Mathias, Marcos & Belutti e Gusttavo Lima. Recentemente lançaram o DVD “Essência Bruta”, com produção de Zé Renato Mioto, que fez parte da carreira de Capataz desde o início do sucesso.

João Carreiro também deixou projetos solos que se tornaram diamantes para o sertanejo. Um dos álbuns mais marcantes foi o “Brutos de Verdade”, em parceria com Jads & Jadson, dupla referência para o segmento. Mas o legado João Carreiro ao lado de Capataz permaneceu insubstituível para os fãs. Em janeiro de 2024, a notícia da morte de João pegou a todos de surpresa. O cantor faleceu aos 41 anos – quase na mesma idade do ídolo Ronaldo Viola (42); após complicações em uma cirurgia no coração que em tese era muito simples. João acabou deixando precocemente uma legião de admiradores órfãos de sua música e de sua presença marcante. Citando novamente Marcão Blognejo, o público e o sertanejo em si só terá noção da falta que João está fazendo daqui uns anos. Sinceramente, nesse primeiro ano já sentimos muito a ausência dele nesse meio que o tinha como referência máxima, mas não o valorizou como deveria.

A perda de João Carreiro trouxe de volta à tona a questão do DVD ao vivo de Cuiabá: Será que algum dia esse material verá a luz do dia? Os fãs terão a chance de assistir ao último grande registro da dupla no auge? Essas perguntas seguem sem resposta, e enquanto isso, resta apenas assistir ao DVD de Maringá e lembrar com carinho da trajetória de João Carreiro & Capataz. Por enquanto, pode-se afirmar que esse material ainda existe e está guardado, desmistificando de que teria sido deletado ou sumido por alguém. O que consegui saber de uma fonte, que na época fazia parte da produção da dupla na estrada, é que atualmente para esse DVD sair necessita-se de muitos pontos. A família de João autorizaria esse DVD ser lançado? Capataz também estaria de acordo? Em que canal esse DVD seria disponibilizado, no de João Carreiro & Capataz? No de João Carreiro solo? Ou no de Carreiro & Capataz? E se chutando o balde, alguém com esse material em mãos colocasse ‘clandestinamente’ na internet para os fãs terem o merecido acesso?

O legado da dupla continua vivo nas vozes da atual geração que tenta ser “bruta”. Mais vivo ainda nas canções que marcaram época na vida do público. João Carreiro & Capataz não foram apenas uma dupla sertaneja; foram a essência de um segmento, de forma pioneira, trazendo uma identidade única em um cenário cada vez mais dominado pelo comercial ao longo dos anos. A história deles pode ter sido interrompida antes do esperado, mas a memória e a saudade permanecem intactas. Quem sabe, em um belo dia o tal DVD engavetado de Cuiabá finalmente seja liberado, permitindo que o público reviva esse momento inesquecível. Até porque, o sonho de revermos a formação dessa dupla, nem que fosse fazendo as pazes por um momento em alguma mesa tomando cerveja, não é mais possível. Resta aos fãs seguir celebrando a música e a autenticidade de João Carreiro e de Capataz, com a nostalgia que seus trabalhos carregam.

Confira abaixo o setlist do DVD gravado em Cuiabá. A matéria finaliza com a música “Xique Bacanizado”, que deu nome ao DVD de Maringá.

  1. Volta pro meu Coração 
  2. Oi nóis travêis 
  3. Ela é muito boa/ Tá bagunçado, mas tem gerência/ Campo Grande Cuiabá/ Judiação 
  4. Prefácio 
  5. Audácia Pura (inspirada em um samba da Portela)
  6. Lampião/ Cada um com seus problemas/ Do jeito que eu penso/ Não toca em minha vitrola Lágrimas de Crocodilo/ Prefiro os Tubarões 
  7. Disgramô o Goiás
  8. Preta / Papel Branco 
  9. Viola e Cantador / Casinha Verde / Maldade de um falso amor / Se é amor não tem nada que apague
  10. Primeiro brinquedo
  11. O que essa moça fez aqui?
  12. É pra cabá (Pequi do Goiás)
  13. Sete Sentidos 
  14. Melhor do Brasil / O que será que nóis não tem / Mangueira 
  15. Cadê?
  16. Cêmo porque cêmo 
  17. Bom Demais – Faculdade da Pinga/ Xique Bacanizado 
  18. Tudo em nome do poder 
  19. Tributo a Raul Seixas: Aluga-se / Trem das Sete / Rock das Aranhas