Autor: Opina Babi

Jornalista | Social Media, 31 anos.

Treinadores passam vergonha sobre o novo caso de racismo contra Vini Jr

Apenas Pep Guardiola e Vincent Kompany saíram em defesa do jogador

Foto: El País

O racismo no futebol está cada vez mais feio, mais escancarado e mais vergonhoso. Não é exagero, é constatação. O que antes era tratado como “caso isolado”, virou rotina constrangedora. Dentro de campo, se comete crime — porque racismo é crime — e muitas vezes a punição é simbólica, branda ou simplesmente inexistente. A sensação é de impunidade. De que o talento negro entretém, mas a dignidade negra segue sendo negociável.

Nesta última semana, mais uma vez, Vinícius Júnior esteve no centro de um episódio que expõe essa ferida aberta do futebol europeu. Um dos melhores jogadores do mundo, decisivo, protagonista, campeão — e ainda assim tratado como alvo. O silêncio constrangedor de muitos técnicos e dirigentes foi ensurdecedor. Alguns preferiram relativizar, outros minimizaram. É sempre o mesmo roteiro: pedem “calma”, falam em “contexto”, como se o contexto justificasse ofensa racial.

Poucos tiveram coragem de se posicionar de maneira firme. Pep Guardiola, no Manchester City, e Vincent Kompany, do Bayern de Munique, foram exceções ao condenar com clareza o racismo sofrido por Vini. Kompany ainda foi veemente sobre a vergonhosa atitude de José Mourinho, técnico do Benfica, no jogo contra o Real Madrid. Do outro lado, declarações como a de Filipe Luís, na noite de quinta (19) na Argentina, tratando o caso como “isolado”, soaram como um tapa na cara. Isolado? Quantas vezes mais vai ser “isolado”? Quantos episódios precisam acontecer para deixar de ser tratado como exceção e passar a ser reconhecido como estrutura? Ou Filipe Luís só disse isso porque estava no país do autor das falas racistas, Gianluca Prestianni?

E a contradição dói ainda mais quando olhamos para o Brasil. Em plena semana de Carnaval, exaltamos a cultura africana nas avenidas, nos enredos, nas baterias, na estética, na fé. O samba que ecoa na Sambódromo da Marquês de Sapucaí nasce da resistência negra. Antes mesmo da avenida existir, Tia Ciata já plantava as sementes do que viria a ser o maior espetáculo da Terra. O Carnaval só existe porque povos negros preservaram sua cultura, sua espiritualidade, sua musicalidade. E ainda assim há quem diga, com arrogância, que “tem muita África” ou “muita macumba”. Ora, a raiz do Carnaval é africana. A raiz do Brasil é negra. Quer que falem de quem? Da Branca de Neve?

O que acontece com Vini Jr. não é apenas sobre futebol. É sobre identidade, sobre poder, sobre quem pode brilhar e quem incomoda quando brilha demais. O Brasil é um país que ama a cultura negra, consome a cultura negra, lucra com a cultura negra — mas ainda falha vergonhosamente em proteger pessoas negras. O racismo no futebol é o espelho de uma sociedade que ainda precisa encarar sua própria história. E enquanto tratarmos crime como incidente isolado, continuaremos passando vergonha. Dentro e fora de campo.

Faltam 2 títulos para Mocidade Alegre se igualar a Vai-Vai como maior campeã do Carnaval

Pela fase ruim da escola da Bela Vista, Mocidade tem a faca e o queijo na mão para alcançar marca

Foto: O Globo

A Mocidade Alegre escreveu mais um capítulo dourado em sua trajetória ao conquistar o 13º título no carnaval paulistano. Uma vitória construída com maturidade, comunidade e, principalmente, identidade. A Morada do Samba, que tem uma gestão exemplar de Solange Bichara, mostrou que tradição e inovação podem caminhar juntas quando há planejamento e amor pela escola. O Anhembi viu uma campeã segura, vibrante e consciente do que estava apresentando em cada quesito.

O enredo em homenagem a Léa Garcia foi um acerto histórico. Reverenciar uma artista gigante, símbolo de resistência e talento, elevou o desfile a um patamar cultural raro. A narrativa foi sensível, potente e emocionante, conduzindo o público por momentos de luta, arte e representatividade. Não foi apenas um desfile bonito: foi um manifesto em forma de samba, daqueles que justificam um título.

A bateria da Mocidade Alegre merece um capítulo à parte. Precisa, cadenciada e ao mesmo tempo explosiva, ela foi o coração pulsante da escola na avenida. Comandada por Mestre Sombra, sustentou o samba com firmeza, levantou arquibancada e mostrou por que a Mocidade costuma ser temida nesse quesito. Houve variações bem executadas, bossas inteligentes e uma sintonia impecável com o restante do desfile — ingrediente essencial para a conquista.

Com o 13º campeonato, a Mocidade se aproxima perigosamente da marca histórica da Vai-Vai, maior campeã do Anhembi com 15 conquistas. Os dois últimos títulos da Vai-Vai foram com enredos musicais: Maestro João Carlos Martins (2011) e Elis Regina (2015). Faltam apenas dois títulos para a Morada conseguir a igualdade. Enquanto isso, a tradicional escola da Bela Vista vive uma fase turbulenta, distante do brilho de outras décadas.

Se o cenário atual se mantiver, a hegemonia que parecia intocável pode, enfim, ser ameaçada. O carnaval de São Paulo ganha não apenas uma campeã, mas uma disputa histórica que promete esquentar os próximos anos. A missão na avenida do Carnaval paulistano há muito tempo se repete e deve permanecer, que é de quem consegue vencer a Mocidade Alegre.

Marty Supreme: Filme feito só para Chalamet ganhar o Oscar

Foto: CBS Tv

Apesar de partir de uma história interessante, Marty Supreme é daqueles filmes que prometem intensidade, mas entregam lentidão. A premissa tem força, tem conflito, tem potencial dramático. Só que a narrativa parece patinar em câmera lenta, como se cada cena precisasse provar que é profunda demais para ser simples. O resultado é um longa arrastado, que exige paciência do espectador e testa a boa vontade de quem entrou na sala esperando algo mais pulsante.

Há uma sensação constante de que o filme foi construído sob medida para uma campanha de premiações. Cada enquadramento calculado, cada silêncio prolongado, cada close dramático parece sussurrar: “Oscar is coming”. Não é que a obra não tenha qualidades — tem. Mas o roteiro se perde em repetições emocionais e em diálogos que se alongam além do necessário, sacrificando ritmo em nome de “importância”.

É aí que entra Timothée Chalamet. A atuação dele, sim, é o motor que mantém o filme vivo. Chalamet entrega camadas, intensidade e vulnerabilidade com uma naturalidade impressionante. Ele sustenta cenas que, nas mãos de outro ator, poderiam desabar sob o próprio peso. Quando ele está em cena, o filme respira. Quando não está, a narrativa parece perder oxigênio.

Marty Supreme não é um desastre — longe disso. Mas é um daqueles casos em que o desempenho individual supera o conjunto da obra. Fica a impressão de que assistimos menos a um filme orgânico e mais a uma vitrine cuidadosamente montada para consolidar um nome na temporada de prêmios. E, no fim das contas, é Chalamet quem faz o longa andar. Sem ele, talvez nem saísse do lugar.

Ninguém quer ver Pretinho da Serrinha no meio da bateria com imagem de Tecpix, nem ouvir rádio de Harmonia na transmissão do Carnaval

Só queremos ver os desfiles!

Foto: Marco Eusébio

A transmissão do carnaval pela TV Globo conseguiu a proeza de tirar o telespectador do clima da avenida em pleno 2026. Em São Paulo, a decisão de deixar os apresentadores fora do Sambódromo do Anhembi simplesmente não faz sentido. Carnaval é calor, é vibração, é suor, é reação ao vivo. Quando o apresentador não sente o chão tremer com a bateria, a transmissão perde pulso. Fica fria, distante, protocolar. Para quem acompanha escola por escola, que espera o ano inteiro por aquele desfile, essa escolha foi um banho de água fria logo na largada.

No Rio de Janeiro, o problema foi ainda mais grave. A cobertura no Sambódromo da Marquês de Sapucaí virou um festival de interrupções desnecessárias. Em pleno desfile, a transmissão foi cortada diversas vezes para ouvirmos o rádio do diretor de Harmonia. Carnaval não é corrida de Formula 1 para acompanharmos comunicação interna de equipe. Além de ser um áudio difícil de entender, quebra totalmente o ritmo do espetáculo. A emoção da evolução, da bateria entrando no recuo, da comissão de frente executando um efeito, tudo isso perde força quando o foco sai da escola para algo que nem agrega informação clara.

E como se não bastasse, colocaram Pretinho da Serrinha no meio das baterias com uma câmera de qualidade duvidosa pior que Tecpix, invadindo o espaço e interferindo até no quesito. Ele é ótimo músico, entende de ritmo como poucos, mas o comentário poderia ser feito no estúdio. No meio da pista, com imagem ruim e enquadramento confuso, virou mais distração do que contribuição. Enquanto isso, a transmissão insistia em planos longos apenas na bateria, acelerando a percepção do desfile e ignorando alas e alegorias. Não esperamos um ano inteiro para ver segundos de um carro alegórico ou um detalhe rápido de fantasia que levou meses para ser produzido.

E aí vem outro ponto que beira o inexplicável: Mariana Gross, uma das maiores jornalistas especializadas em carnaval, fica praticamente avulsa, restrita ao esquenta e à entrada das escolas. Ela tem repertório, história e leitura crítica para conduzir a transmissão inteira. Qual a dificuldade de centralizar a apresentação em quem realmente entende do assunto? No fim das contas, para quem ama carnaval e acompanha pela TV, foi mais um ano de frustração. A avenida entrega espetáculo. Falta a transmissão entender que o público quer ver a escola inteira — e não apenas recortes desconexos.

Só um enredo sobre Castor de Andrade salva a Mocidade

É hora de arriscar no tudo ou nada fazendo o enredo da vida e voltar a ter um nome forte na bancada da Liesa

Foto: Mocidade Independente

Mais um ano difícil para a Mocidade Independente de Padre Miguel. O 11º lugar no Carnaval deste ano pesa — e pesa muito. Não foi um desastre visual, não foi um desfile feio, não foi um vexame plástico. Pelo contrário: estava bonito, estava colorido, organizado dentro do possível. Mas Carnaval não se ganha apenas com estética. E esse 11º lugar escancara que está faltando algo que não se compra em barracão: alma. E dói ainda mais quando a gente olha para o resultado e vê a escola atrás da Portela, que, sinceramente, não apresentou algo superior a ponto de justificar a diferença na apuração.

A sensação que fica é que a Mocidade vem correta demais, comportada demais, genérica demais. Parece que falta aquela identidade forte, aquela personalidade que nos tempos áureos fazia a escola entrar na avenida com arrogância de campeã. O enredo de Rita Lee até tinha conceito, mas soava forçado, distante da essência da comunidade. Era bonito? Era. Mas embalou? Não. O samba era difícil, a arquibancada não comprou a ideia, e o desfile passou quase como um intervalo enquanto o público aguardava a avalanche que viria depois com Beija-Flor e outras protagonistas da noite.

A Mocidade precisa reencontrar a própria história. E não tem símbolo maior dessa identidade do que Castor de Andrade. Polêmico? Sem dúvida. Mas foi sob sua liderança que a escola viveu seus tempos mais gloriosos. Um enredo sobre Castor — assumido, sem medo, trazendo também o mascote Castorzinho como símbolo dessa reconstrução — poderia devolver à escola aquilo que está faltando: personalidade. Não é sobre exaltar ilegalidade, é sobre contar a própria história, sobre assumir quem foi e o que representou para a comunidade de Padre Miguel.

Porque do jeito que está, a Mocidade parece desfilar sem pulsação. Falta emoção, falta arrebatamento, falta aquele momento de arrepio que faz o Sambódromo levantar. O 11º lugar mostra que apenas “estar bonito” não basta. Se não houver uma virada de identidade, 2026 corre o risco de ser mais um ano para esquecer. A Mocidade não precisa de mais um enredo técnico; precisa de alma. E alma ela já teve — basta ter coragem de resgatar. Além disso, precisa ainda voltar a ter um presidente de nome forte para defendê-la na Liesa. No mais, vai plantar e colher bons frutos nesse caminho.