Não é apenas no futebol, como escrevi dias atrás. E não nos venha com florzinha dia 08

O Brasil vive uma pandemia que não apareceu em boletins epidemiológicos, mas que mata, dilacera e traumatiza todos os dias: a violência contra a mulher. Não é exagero, não é força de expressão — é uma realidade sustentada por números, manchetes e histórias que se repetem com uma crueldade quase automática. São atropelamentos propositais após discussões, são mulheres assassinadas por ex-companheiros inconformados, são estupros que acontecem à luz do dia e também dentro de casa. É uma rotina brutal que já deixou de chocar como deveria.
A cada semana, um novo caso absurdo ocupa os noticiários: mulheres perseguidas, agredidas em elevadores, mortas na frente dos filhos, queimadas, esfaqueadas, silenciadas. Muitas tinham medida protetiva. Muitas pediram ajuda. Muitas avisaram que estavam correndo risco. E mesmo assim, o desfecho foi o mesmo. O ciclo é perverso: ameaça, violência, omissão, luto. E depois, mais uma estatística. Como se a vida delas coubesse apenas em um número frio.
Quando se observa o cenário internacional, o alerta é ainda mais grave. O México aparece com frequência em rankings globais como um dos países mais perigosos para mulheres, especialmente pelos altos índices de feminicídio. Mas o Brasil parece disputar essa posição com uma constância assustadora. A sensação é de que estamos normalizando o inaceitável, como se fosse apenas “mais um caso” em um país que já se acostumou à barbárie.
É impossível não dizer com todas as letras: é um inferno ser mulher no Brasil. É viver com medo de voltar sozinha para casa, de aceitar um encontro, de terminar um relacionamento. É calcular roupa, horário, trajeto. É compartilhar localização em tempo real como estratégia de sobrevivência. É crescer aprendendo que a responsabilidade pela própria segurança é sempre sua — nunca de quem ameaça. Aí chega dia 08 de março é florzinha com adesivo: Feliz dia da mulher… Jura?
E o mais cruel é que essa pandemia não tem vacina simples. Ela exige educação, políticas públicas eficientes, punição rigorosa e, principalmente, mudança cultural profunda. Não basta indignação nas redes sociais depois de cada tragédia. É preciso romper o ciclo estrutural que permite que mulheres continuem sendo tratadas como propriedade, como alvo, como corpo disponível. Enquanto isso não acontecer, continuaremos enterrando sonhos, projetos e vidas. E continuaremos repetindo, com dor e revolta: não é normal. Não pode ser normal. Não aguentamos mais!