Treinadores passam vergonha sobre o novo caso de racismo contra Vini Jr

Apenas Pep Guardiola e Vincent Kompany saíram em defesa do jogador

Foto: El País

O racismo no futebol está cada vez mais feio, mais escancarado e mais vergonhoso. Não é exagero, é constatação. O que antes era tratado como “caso isolado”, virou rotina constrangedora. Dentro de campo, se comete crime — porque racismo é crime — e muitas vezes a punição é simbólica, branda ou simplesmente inexistente. A sensação é de impunidade. De que o talento negro entretém, mas a dignidade negra segue sendo negociável.

Nesta última semana, mais uma vez, Vinícius Júnior esteve no centro de um episódio que expõe essa ferida aberta do futebol europeu. Um dos melhores jogadores do mundo, decisivo, protagonista, campeão — e ainda assim tratado como alvo. O silêncio constrangedor de muitos técnicos e dirigentes foi ensurdecedor. Alguns preferiram relativizar, outros minimizaram. É sempre o mesmo roteiro: pedem “calma”, falam em “contexto”, como se o contexto justificasse ofensa racial.

Poucos tiveram coragem de se posicionar de maneira firme. Pep Guardiola, no Manchester City, e Vincent Kompany, do Bayern de Munique, foram exceções ao condenar com clareza o racismo sofrido por Vini. Kompany ainda foi veemente sobre a vergonhosa atitude de José Mourinho, técnico do Benfica, no jogo contra o Real Madrid. Do outro lado, declarações como a de Filipe Luís, na noite de quinta (19) na Argentina, tratando o caso como “isolado”, soaram como um tapa na cara. Isolado? Quantas vezes mais vai ser “isolado”? Quantos episódios precisam acontecer para deixar de ser tratado como exceção e passar a ser reconhecido como estrutura? Ou Filipe Luís só disse isso porque estava no país do autor das falas racistas, Gianluca Prestianni?

E a contradição dói ainda mais quando olhamos para o Brasil. Em plena semana de Carnaval, exaltamos a cultura africana nas avenidas, nos enredos, nas baterias, na estética, na fé. O samba que ecoa na Sambódromo da Marquês de Sapucaí nasce da resistência negra. Antes mesmo da avenida existir, Tia Ciata já plantava as sementes do que viria a ser o maior espetáculo da Terra. O Carnaval só existe porque povos negros preservaram sua cultura, sua espiritualidade, sua musicalidade. E ainda assim há quem diga, com arrogância, que “tem muita África” ou “muita macumba”. Ora, a raiz do Carnaval é africana. A raiz do Brasil é negra. Quer que falem de quem? Da Branca de Neve?

O que acontece com Vini Jr. não é apenas sobre futebol. É sobre identidade, sobre poder, sobre quem pode brilhar e quem incomoda quando brilha demais. O Brasil é um país que ama a cultura negra, consome a cultura negra, lucra com a cultura negra — mas ainda falha vergonhosamente em proteger pessoas negras. O racismo no futebol é o espelho de uma sociedade que ainda precisa encarar sua própria história. E enquanto tratarmos crime como incidente isolado, continuaremos passando vergonha. Dentro e fora de campo.

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