Fazer carreira fora, para quem pode, muitas vezes é uma válvula de escape

Ser mulher no futebol brasileiro é, muitas vezes, um exercício diário de resistência. O preconceito atravessa todos os setores: começa na arquibancada, ecoa nas redes sociais e se infiltra dentro de campo, especialmente quando falamos de árbitras e repórteres. A cobrança é sempre maior, a desconfiança é automática e o erro — que para os homens é “normal do jogo” — para a mulher vira sentença definitiva. No Jornalismo Esportivo, então, a barreira é ainda mais cruel: não basta estudar, entender de tática, mercado e bastidores. É preciso provar, todos os dias, que você “merece” estar ali. Neste fim de semana, foi a vez da árbitra, Daiane Muniz, sofrer com comentários horríveis por parte de um jogador no Paulistão.
Enquanto isso, países vizinhos mostram que é possível fazer diferente. Em mercados como o mexicano e o argentino, as mulheres conquistaram mais espaço diante das câmeras, nos estúdios e na beira do campo — e, principalmente, mais respeito. Não é que não exista machismo, ele está em toda parte. Mas há abertura real para crescimento profissional. Lá, repórteres e apresentadoras não são vistas como “enfeite” de transmissão. São jornalistas de verdade. São protagonistas. São vozes que analisam, opinam e pautam. E além disso, são muito respeitadas pelas torcidas.
Eu tive a sorte — e digo sorte mesmo — de construir carreira no futebol mexicano e argentino. Se dependesse exclusivamente do mercado brasileiro, talvez eu não tivesse nem 70% da trajetória que consegui consolidar. Trabalhar fora me deu rodagem, autoridade e reconhecimento que, muitas vezes, são negados aqui dentro. É duro admitir, mas o Brasil ainda trata a mulher no esporte como exceção, quando ela já deveria ser regra.
E o problema vai além do campo. O Brasil vive um retrocesso preocupante em relação à vida e ao respeito à mulher. Durante anos, apontaram o dedo para o México como o país com uma das maiores taxas de feminicídio do mundo. Hoje, o Brasil flerta perigosamente com esse topo vergonhoso. O machismo estrutural que deslegitima uma árbitra é o mesmo que silencia uma vítima. A pergunta que fica é simples e dolorosa: até quando vamos tratar a presença feminina no futebol — e na sociedade — como algo que precisa ser tolerado, e não respeitado?




