Categoria: Estilo de Vida

Discurso de Leonardo DiCaprio no Oscar completa nove anos e nada mudou

Foto: ABC News

Em fevereiro de 2016, Leonardo DiCaprio subiu ao palco do Oscar para, enfim, receber sua tão aguardada estatueta de Melhor Ator, por seu desempenho em O Regresso. Ao invés de se ater aos agradecimentos tradicionais ou fazer desabafos de vingança pelas indicações anteriores não vencidas, ele usou seu discurso para falar sobre um tema que sempre foi uma de suas principais bandeiras: o meio ambiente. DiCaprio alertou o mundo sobre o aquecimento global, a destruição de ecossistemas, o desrespeito às populações indígenas e a necessidade urgente de agir antes que fosse tarde demais.

Ele destacou que 2015 havia sido o ano mais quente da história e deixou um aviso claro: “Não tomemos este planeta como algo garantido”. Nove anos depois, a tragédia anunciada em seu discurso não só se confirmou, como se agravou. Se em 2016 a marca de 2015 como o ano mais quente da história parecia assustadora, os recordes de temperatura continuaram sendo quebrados ano após ano. Em 2024, o planeta enfrentou o ano mais quente já registrado, e as previsões apontam que 2025 pode ser ainda pior.

Ondas de calor extremo, incêndios florestais incontroláveis, secas prolongadas e furacões cada vez mais destrutivos tornaram-se a norma, não a exceção. Os mesmos cientistas que alertavam sobre isso na época do discurso de DiCaprio agora falam com desespero sobre a inação dos governos e a continuidade do modelo econômico baseado na exploração sem limites da natureza. No seu discurso, Leo foi infático ao dizer que era hora de parar a procastinação em relação ao cuidado do planeta.

A destruição das florestas tropicais, outro ponto mencionado por DiCaprio, também se intensificou nos últimos anos. A Amazônia continua sofrendo com desmatamentos recordes, incentivados por interesses econômicos e políticos que priorizam a expansão do agronegócio e da mineração em detrimento da preservação ambiental. Povos indígenas, que ele citou como “aqueles na linha de frente da luta para proteger nosso planeta”, seguem sendo assassinados e expulsos de suas terras em conflitos muitas vezes ignorados pela mídia global. Os compromissos assumidos por líderes mundiais em cúpulas ambientais continuam sendo pouco mais do que discursos vazios, sem mudanças estruturais significativas.

O alerta de DiCaprio sobre o aquecimento global também se provou mais urgente do que nunca. Na época, os líderes internacionais comemoravam o Acordo de Paris, assinado em 2015, como um marco na luta contra as mudanças climáticas. No entanto, nove anos depois, muitos países falharam em cumprir suas metas de redução de emissões de carbono. Aliás, muitos países já saíram do acordo firmado. A queima de combustíveis fósseis segue em alta, a transição para energias renováveis avança de forma desigual, e corporações continuam colocando seus lucros acima do futuro do planeta. A consequência disso é um cenário onde a temperatura global se aproxima perigosamente de um ponto irreversível.

A fala de DiCaprio em 2016 foi certeira ao dizer que o clima “está mudando agora, mais rápido do que qualquer cientista havia previsto”. Se naquele momento os sinais do colapso climático já eram visíveis, agora eles são impossíveis de ignorar. O problema não é mais um risco distante para as próximas gerações, mas uma realidade que já impacta milhões de pessoas com desastres naturais cada vez mais frequentes e intensos. Mesmo assim, a resposta global continua lenta e insuficiente. O mesmo alerta que DiCaprio fez há nove anos poderia ser repetido, palavra por palavra, hoje – só que agora em um contexto ainda mais grave. E pelo caminho que estamos seguindo, caso o ator volte a ganhar mais um Oscar, seu discurso nem mudará e será ainda mais desesperador.

Nove anos depois daquele discurso histórico, apenas o que mudou foi a intensidade da crise ambiental, não a postura da humanidade. Continuamos tratando o planeta como um recurso inesgotável, ignorando os avisos da ciência e deixando que interesses econômicos falem mais alto do que a necessidade de sobrevivência. Se em 2016 Leonardo DiCaprio pediu ação antes que fosse tarde demais, em 2025 a pergunta que fica é: ainda temos tempo para mudar o curso da história, ou já passamos do ponto de não retorno? Talvez o meteoro seja a única salvação!

Série Documental de Belo desconstrói persona e exalta o artista

Em dezembro do ano passado conhecemos a série documental “Belo: Perto Demais da Luz”. Uma produção em quatro episódios que mergulha na vida pessoal e profissional de Marcelo Pires Vieira, conhecido por todos como Belo. A série, fruto de uma parceria entre o Globoplay e a AfroReggae Audiovisual, oferece uma visão abrangente da trajetória do cantor, desde sua infância até os dias atuais, destacando momentos de glória e adversidades que marcaram sua carreira. Com polêmicas, amores, brigas, amizades no meio artístico e casos policiais, a série é melhor do que muita novela já feita. Até porque, tudo ali foi uma dura realidade vivida pelo artista, com momentos de glórias após quedas sofridas.

O documentário inicia com uma breve retrospectiva desde a infância humilde no bairro de Chácara Inglesa, na zona sul de São Paulo até as influências que moldaram seu interesse pela música. Imagens de arquivo e depoimentos de familiares e amigos próximos enriquecem a narrativa, proporcionando ao espectador uma compreensão profunda das raízes do artista. A produção utiliza técnicas inovadoras de realidade virtual para recriar cenários significativos da vida de Belo, oferecendo uma experiência imersiva e nostálgica. Logo o documental segue para seus tempos de músico, quando começa a frequentar rodas de samba e inicia sua trajetória com o grupo Soweto.

Um ponto alto da série é a abordagem da formação e a ascensão do grupo Soweto, que projetou Belo ao estrelato nos anos 1990. A turnê comemorativa de 30 anos do Soweto é amplamente destacada desde o início até o último episódio, com bastidores que revelam a dinâmica entre os membros que fizeram parte do reencontro do grupo em 2024 e a relação com os fãs. Depoimentos de colegas consagrados, como Alcione, Chrigor, Ludmilla, Péricles e Dudu Nobre, enriquecem a narrativa do artista que ele é, oferecendo perspectivas diversas sobre o impacto do grupo e da carreira solo de Belo no cenário musical brasileiro.

A parceria com o renomado produtor musical, Wilson Prateado, é outro aspecto relevante explorado no documentário. Prateado foi fundamental na definição da sonoridade que caracterizou o trabalho de Belo, contribuindo para a consolidação de sua carreira solo após a saída do Soweto e seu momento pós-prisão. Foi no estúdio de Prateado que Belo fazia trabalhos durante o dia ainda no regime semi-aberto. Mesmo com sua prisão, Belo esteve com mais de 13 músicas no TOP 50 das rádios na época, em meado dos anos 2000. Os fãs ligavam nas rádios para pedirem as músicas do cantor, gesto que se repetia especialmente no Rio de Janeiro, várias vezes ao dia.

Belo ao lado de Prateado (Foto: Instagram)

A parceria de Belo com Prateado resultou em sucessos que até hoje ressoam entre os admiradores do pagode romântico, como “Reinventar” e “Pra ver o sol brilhar”. Essa música, inclusive, Prateado fez para Belo e dizia pra ele assim que ganhou liberdade novamente: “Olha pro sol, você é gigante!”. Ainda no documental, é Prateado quem melhor define a voz de Belo: “No plano superior tem música. E sem tem música, os anjos cantam. O Belo tem o timbre da voz dos anjos. Ele é uma parada de lá convivendo entre a gente!”. Recentemente no cruzeiro do cantor, Prateado estava presente – atualmente ele integra a direção musical e o baixo na banda de Thiaguinho. Belo subiu ao palco e fez uma grande referência ao produtor, a quem tem muita gratidão por tudo que viveram juntos.

O documentário não se esquiva de abordar os momentos conturbados da vida de Belo, incluindo sua prisão, como já citada. Além disso, os desafios pessoais e financeiros que se seguiram dali em diante. Em um dos episódios mais emocionantes, é retratado o momento em que Belo, durante um show no Allianz Parque, emocionou-se ao interpretar a música “Reinventar”, poucos dias após anunciar sua separação com Gracyanne Barbosa. A cena captura a vulnerabilidade do artista e sua conexão profunda com o público, evidenciando a capacidade da música de traduzir emoções complexas.

A produção também destaca a resiliência de Belo diante das adversidades. Após cumprir sua pena, o cantor enfrentou desafios para reconstruir sua carreira e imagem pública. Depoimentos de figuras importantes como seu empresário e amigos próximos, oferecem uma visão íntima de sua jornada de redenção e busca por recomeços. O que senti falta um pouquinho foi de aprofundar um pouco mais na história de seu DVD em Salvador, o melhor trabalho de Belo ao vivo até hoje. Após cantar “Derê”, ele se emociona com o público gritando seu nome. Aquele álbum foi a prova de que Belo havia voltado a ser o maior artista do pagode nacional, mesmo passando por tudo que quase enterrou sua carreira. Ali ele se consolidava como o grande artista, dando a grande volta por cima.

“Belo: Perto Demais da Luz” é uma obra que oferece uma visão multifacetada da vida de um dos artistas mais emblemáticos da música brasileira. Um cara que canta e encanta dos pagodes clássicos, ao samba com Neguinho da Beija-Flor até os sambas-enredo do carnaval. Ao mesclar momentos de triunfo e queda, o documentário proporciona uma compreensão profunda das complexidades que permeiam a trajetória de Belo, celebrando suas conquistas e reconhecendo os desafios que enfrentou ao longo de sua jornada. A série documental humanizou o artista, que com seus erros e acertos na vida, se mostra mais um de nós, seres humanos. A diferença é que ele é um fenômeno, pelo talento, pela voz absoluta, pela persona e pelo artista que se tornou ao passar pela lama e pelo topo do mundo.

“Conclave” é favoritaço ao Oscar?

“Conclave” é uma obra de suspense dirigida por Edward Berger, baseada no romance homônimo de Robert Harris. A trama se desenrola após a morte inesperada do Papa, quando o Cardeal Lawrence, interpretado por Ralph Fiennes, é encarregado de organizar o conclave para eleger o novo líder da Igreja Católica. À medida que as intrigas políticas dentro do Vaticano se intensificam, Lawrence descobre segredos ocultos que podem mudar o rumo da eleição papal.

O elenco é composto por atores renomados, incluindo Stanley Tucci (eterno diretor da Runway de Miranda Priestly), John Lithgow, Isabella Rossellini e Lucian Msamati, que entregam performances marcantes, enriquecendo a narrativa com profundidade e complexidade que esse filme carrega. Fiennes, como protagonista, transmite uma dualidade fascinante: ao mesmo tempo em que mantém a compostura e a devoção esperadas de um cardeal, sua expressão revela um homem atormentado por dúvidas e dilemas éticos. Tucci e Lithgow, por sua vez, brilham em papéis que adicionam camadas à disputa política dentro da Santa Sé.

A direção de Edward Berger é precisa e envolvente. Ele consegue transformar um cenário essencialmente estático — as paredes solenes do Vaticano — em um palco de tensão crescente, onde cada olhar e cada palavra dita (ou não dita) carrega um peso significativo. A maneira como Berger conduz o suspense é digna de comparação com clássicos do gênero, tornando a experiência cinematográfica eletrizante, mesmo sem recorrer a exageros dramáticos.

Um dos grandes trunfos do filme é sua fotografia, que impressiona ao capturar tanto a grandiosidade da Basílica de São Pedro quanto a claustrofobia dos aposentos onde os cardeais deliberam. A iluminação sutil, muitas vezes evocando a luz de velas e reflexos dourados, reforça o clima solene e misterioso da narrativa. Cada enquadramento parece uma pintura renascentista, remetendo às obras de Caravaggio e Rembrandt, o que amplifica a sensação de que estamos testemunhando um evento histórico de magnitude épica. Surpreendentemente, a fotografia de “Conclave” não foi indicada ao Oscar, uma omissão difícil de justificar, considerando seu impacto visual e a riqueza estética que adiciona à trama.

Desde sua estreia no Festival de Telluride, “Conclave” tem sido aclamado pela crítica. Além disso, foi reconhecido pelo National Board of Review como um dos Top 10 Filmes do ano e recebeu o prêmio de Melhor Elenco. A produção oferece uma visão intrigante dos bastidores do Vaticano, explorando temas de poder, fé e moralidade, mantendo o espectador envolvido do início ao fim.

É um filme que não apenas entretém, mas também faz refletir sobre as complexidades das instituições e a natureza humana. Durante uma entrevista realizada no fim do ano passado para o site Hammer To Nail, Berger compartilhou detalhes do processo criativo de “Conclave”, revelando de onde saiu a ideia de adaptar a trama:

“A ideia para a adaptação surgiu de uma conversa que tive com Tessa Ross, a produtora; eu a conheci talvez sete anos atrás. E decidimos, ‘OK, vamos tentar encontrar o filme certo juntos.’ Ela tinha me enviado algumas coisas que eu achava que não eram certas – ou que eu não era certo para elas. E então, ela me ligou um dia e disse: ‘Eu tenho essa ideia e esse livro que é opcional.” E eu disse, “Sim, quem vai escrever o roteiro?” E ela disse: ‘Peter Straughan’”, contou Berger.

“E eu disse: ‘Peter Straughan é o melhor escritor do mundo.’ Porque o que ele faz é criar um tipo maravilhoso de enredo, como uma história de virar a página com muitas reviravoltas. Mas também, sempre há algo mais profundo por baixo, um motivo do porquê estamos fazendo o filme; uma alma para o filme, como um arco interno. Neste caso, é o arco interno de dúvida do personagem de Ralph Fiennes. Você conhece aquele sentimento de ser oprimido pela dúvida e se sentir liberto por ela. Isso me fez querer fazer o filme, seu discurso sobre a dúvida, basicamente.”, completa.

Portanto, “Conclave” surpreende ao entregar uma narrativa envolvente, atuações excepcionais e uma fotografia de tirar o fôlego até seu final arrebatador. Com sua abordagem única e execução impecável, é um forte candidato ao Oscar, merecendo o reconhecimento em diversas categorias e principalmente na de Melhor Filme. Até porque, ele se mostra o grande favorito da lista no momento e tem pontos parecidos com o vencedor de 2016, Spotlight – Segredos Revelados.

Como Flavinho Coelho fez história em uma década

Talvez você não o conheça, mas já ouviu o violão dele tocando várias vezes. Flavinho Coelho carrega um legado musical impressionante no sertanejo. O violonista se destacou nos arranjos que ajudaram a fazer o sertanejo universitário sucesso nacional, com sua trajetória musical começando de forma inusitada. O violonista iniciou sua carreira ao lado de João Bosco & Vinícius com apenas 14 anos. O primeiro projeto de Flavinho com a dupla foi o famoso disco “Acústico no Bar”, um trabalho que, na época, circulou muito em cópias piratas. Inclusive o Bruninho, da dupla com Davi, vendia bastante para a galera universitária. Estou citando ele aqui porque, mais tarde, a história dele com a de Flavinho irá se cruzar.

Apesar da venda informal, o disco se tornou um estouro e teve grande impacto no cenário sertanejo do Matogrosso do Sul. Esse disco ajudou a solidificar os primeiros arranjos de Flavinho na memória do público como as músicas “Magia e Mistério”, “Tatuagem”, “Faz de Conta” e “Quero provar que te Amo”. Ele ficou na estrada com a dupla por dez anos, conquistando espaço e muito respeito no meio musical. O violonista já fez diversos trabalho de gravações com outros artistas também, sempre destacando-se no violão, seu instrumento-chave.

Após essa fase com João Bosco & Vinícius, Flavinho decidiu seguir um novo caminho, trabalhando com o agronegócio. Mas nunca deixou a música de lado. Nesse novo momento da carreira, ele esteve em projetos incríveis que se tornaram marcas registradas em várias produções sertanejas. A sua contribuição não se limitou a grandes nomes como Michel Teló no programa especial ‘Bem Sertanejo’, mas também se estendeu a artistas como Gusttavo Lima (DVD 50/50), Munhoz & Mariano (Ao vivo em Campo Grande) e no projeto “Segura Maracaju”, acústico onde reviveu sua parceria com João Bosco & Vinícius. Inclusive, ele jamais pode tocar em algum lugar sem que peçam para ele tocar a música “Semi-luz”.

A trajetória de Flavinho Coelho também está intimamente ligada ao seu estado natal, o Mato Grosso do Sul. As influências da região transparecem em seu trabalho e no modo como ele contribuiu para o nascimento do sertanejo universitário. Sua linguagem no violão se tornou diferenciada por isso. Seu estilo, com influências da vaneira, do chamamé e do rasqueado se consolidou no Brasil durante a década de 2000 e Flavinho esteve ali, no epicentro desse movimento, responsável por hits atemporais que se tornaram grandes sucessos de uma geração.

Além de sua ligação com grandes nomes do sertanejo, Flavinho também tem um vínculo forte com sua família musical. Ele é irmão de Euler Coelho, um talentoso compositor que assinou hits como “Chora Me Liga” e “Voa Beija-Flor”. A influência musical em sua casa foi essencial para o seu desenvolvimento como violonista e para sua incursão no mundo da música. Flavinho esteve nos principais álbuns de JB&V de 2002 a 2012, entre eles o primeiro DVD da dupla, em 2005; e o marcante ao vivo de Ribeirão Preto, em 2010. Em uma década ele fez parte de um capítulo fundamental para a recente história do sertanejo.

Lembram que citei o Bruninho (Davi)? Foi também em 2010 que a jovem dupla estava começando a se lançar no mercado. Durante um show de João e Vinícius, em Campo Grande, eles invadiram o palco para cantar a música “Zona Sul”, primeiro hit deles. Decidiram naquele momento gravarem um video em cima da hora, na loucura. Até hoje está disponível no Youtube (Confira Aqui) e vez ou outra aparece como sugestão para eu ficar rindo do Flavinho, que estava na banda tocando a música que ele nem sabia… Eu brinco que ele fez parte do começo da carreira deles nesse sentido. Até porque, anos depois, Bruninho se tornou produtor musical de seus próprios projetos, convidando Flavinho para gravar faixas no DVD “Violada” e também na produção que Bruninho fez com a dupla Marco Antonio & Gabriel. A música “Presente do Vovô”, é praticamente um hino não-oficial de Campo Grande e tem o violão de Flavinho nela.

Nesses recentes trabalhos, ele demonstrou mais uma vez o quão único e talentoso é em cada acorde do violão, trazendo sua técnica refinada e sua sensibilidade musical para cada canção. Hoje, Flavinho não está mais na correria da estrada como antes, mas continua deixando sua marca na música. Atualmente, ele se dedica ao projeto Modão & Moagem, um trabalho que resgata a essência do sertanejo de raiz, mas com sua identidade musical refinada ao lado do parceiro Edson. Flavinho faz segunda-voz além de tocar. Sempre falo que ele só perde para o Santiago, do Guilherme, como melhor segundeiro do Brasil.

A gente fala isso brincando, pois é claro que temos a maior admiração pelo Santiago. E como gosto de elogiar o Flavinho, dizer que ele só perde para o Santiago é uma forma de elogio. Por curiosidade, eles são amigos, um dos tantos que Flavinho conquistou ao longo de sua lida na estrada. Guilherme & Santiago também já gravaram uma composição do Flavinho, feita com Euler. Sim, além de ótimo músico ele tem “o hobby” da composição.

Diferente da rotina intensa de turnês que ele vivia com João Bosco & Vinícius, o Modão & Moagem permite que ele continue fazendo música de forma mais tranquila, sem abrir mão da qualidade de vida e da paixão pelo violão. O projeto já contou com um feat de Fred & Fabrício e, em breve, terá um lançamento justamente com Guilherme & Santiago. Nada melhor que juntar o pai da segunda voz (Santiago) com seu pupilo (Flavinho), não é mesmo… Falando em pupilo, o violonista, como muitos de seus colegas, é muito fã de Marco Abreu, Paulinho Ferreira e Ivan Miyazato, outros três gênios do violão. Um ídolo à parte dele é o Almir Sater. Ele tem tanto bom gosto que assim como eu e Fátima Leão, Flavinho odeia A BOATE AZUL! (Saturaram essa música, vamos combinar…)

Com sua técnica impecável e um ouvido apurado para tirar qualquer música sem partitura, Flavinho Coelho é um músico diferenciado dos demais e nunca precisou buscar uma música no Cifras.com. Poucos sabem tirar onda tocando uma “Ligação Urbana” sem colar ou errar no acorde, por exemplo. Flavinho consegue isso e muito mais sendo o fenômeno que se tornou no violão. Mesmo longe dos holofotes, o violonista é considerado um dos melhores do país, sendo referência para quem entende de sertanejo e reconhece o valor de um grande músico como ele.

Foto: Arquivo

20 anos do emblemático “Limão com Mel – Ao Vivo no Olympia”

O forró nordestino escreveu um dos capítulos mais grandiosos de sua história em 2005. No coração de São Paulo, em um dos palcos mais icônicos do país, a banda Limão com Mel não apenas lotou o Olympia, mas transformou aquela noite em um espetáculo inesquecível. O resultado? Um emblemático DVD que mudou a história desse gênero musical. “Um Amor de Novela – Ao Vivo no Olympia” rompeu suas barreiras e consolidou a banda como uma das maiores do Brasil no cenário que colocou o forró como protagonista das rádios dentro e fora do Nordeste.

Hoje, duas décadas depois, a grandiosidade desse projeto continua ecoando e chama ainda mais atenção por tudo que foi realizado. O que parecia um desafio quase impossível – uma banda de forró vinda do Nordeste dominar o principal palco da capital paulista – se tornou uma consagração. Com um repertório recheado de sucessos autorais, ingressos esgotados e interpretações emocionantes de Batista Lima à frente dos vocais e da direção musical, guiou a Limão com Mel por um show impecável que nunca foi esquecido. Do início ao fim, a banda foi levando o público a momentos de pura euforia que ficaram registrados no melhor álbum ao vivo da Limão.

O Olympia, palco que já havia recebido lendas da MPB, do samba e do sertanejo, abriu suas portas para um gênero que, por muitos anos, lutou por reconhecimento nacional. Mas naquela noite, não havia dúvidas: o forró tinha conquistado de vez seu espaço. Com uma produção cinematográfica à la Hollywood, iluminação e estrutura de ponta, o DVD registrou o auge da banda e se tornou um dos trabalhos mais emblemáticos da história do ritmo nordestino. Músicos como o sanfoneiro Maestro Pica-pau, são lembrados até hoje pelo trabalho feito nesse projeto.

Canções como “Um Amor de Novela”, “Esse Amor É Mil”, “Toma Conta de Mim”, “Play Record” e “Tome Amor” se tornaram verdadeiros hinos. A energia daquela gravação, com aquela formação da banda, junto do repertório que emplacou sucessos, se perpetuou por gerações. O impacto desse disco foi tão grande que o projeto ajudou também a abrir portas para outras bandas do segmento, solidificando o forró como um movimento de alcance nacional podendo dominar os palcos fora da região de sua origem.

Em seus 20 aninhos, o “Ao Vivo no Olympia” da Limão segue sendo uma referência. Ele foi um verdadeiro divisor de águas que reafirmou a força do forró e da cultura nordestina, para quem ousava ainda duvidar que uma banda lotaria aquele sagrado lugar da música brasileira. Para os fãs da Limão com Mel – e para os amantes do gênero que só cresce a cada dia – esse DVD não é apenas um disco ao vivo bem feito: ele é uma celebração, uma obra-prima e um orgulho para os forrozeiros de plantão.

Confira o Ao Vivo completo na Deezer, onde também tem as melhores playlist’s de forró: Limão com Mel – Ao vivo no Olympia

Amargurado, César Augusto esquece do próprio legado em entrevista

Foto: Youtube

César Augusto é, sem sombra de dúvida, um dos maiores compositores e produtores da música sertaneja. Seu nome está gravado em álbuns icônicos, em canções que embalaram gerações e em parcerias que ajudaram a moldar o sucesso da música brasileira. No entanto, em sua mais recente entrevista, ele pareceu mais preocupado em ajustar contas com o passado do que em celebrar a grandiosidade de sua trajetória.

Foi uma conversa carregada de ressentimento, com indiretas, recados diretos e desabafos que, embora tenham seu lugar, acabaram deixando de lado algo muito mais importante: sua própria história. Ele tem todo o direito de falar o que pensa, por ser quem é. Mas o que poderia ser um registro riquíssimo de sua carreira virou um palco de mágoas ou uma sessão de terapia em Campinas, sem espaço para uma real imersão em tudo o que ele construiu.

Por exemplo, faltaram menções essenciais a nomes como Lucas Robles e Nil Bernardes, parceiros que tiveram participação ativa em sua jornada musical. O produtor Piska, figura fundamental no sertanejo, também não teve o devido reconhecimento, mencionado apenas em alguns minutos de uma resposta no início da entrevista. Assim como César Rossini, outro nome que esteve ao lado de César Augusto em momentos fundamentais de sua carreia, inclusive sendo parceiro na dupla Cesar & Cesar.

Além disso, o diálogo deixou de lado diversas composições memoráveis que mereciam uma explicação. A música “Mentira que Virou Paixão”, no disco de Leonardo em 1999, teve a gravação de todos os instrumentos pelo Piska? Por que a música repete o arranjo do início no meio? Leonardo só gravou a primeira parte e teve uma emenda? Como foi fazer a versão que foi o feat de Leonardo com Alan Jackson, “Meu grito de Amor”?

Outra música que merecia atenção era a “Felicidade, que Saudade de Você”. Por que ela é tão profunda e diferente da linguagem da época? Como foi feita? A música “Antes de Voltar pra Casa”, de quem foi a ideia de fazer um arranjo tão marcante? Ela tem uso de terça voz e ecos, isso a fez ser destaque naquele disco de 2000? Álbum considerado o melhor de Zezé di Camargo & Luciano por muitos críticos. Como foi a produção da “Tarde Demais” com Chrystian, autor da música, fazendo backing vocal no disco? A música “Irmão da Lua, Amigo das Estrelas” é muito a frente ao seu tempo, como ela foi feita na questão dos arranjos? Como a “Sonho de Amor”, uma regravação pop, entrou no repertório de Zezé e Luciano?

Esses são apenas alguns exemplos de canções que carregam a assinatura de César Augusto, seja na produção ou na composição, mas que foram ignoradas na conversa. Outro assunto que seria incrível abordar era sobre a produção do DVD de Zezé Di Camargo & Luciano Ao Vivo (2000), um marco na carreira da dupla, que sequer foi mencionada. Assim como os álbuns de 1995 (o mais vendido da dupla), de 1998 (considerado o mais conceitual de ZC&L), ou o disco Double Face que venceu o Grammy Latino em 2010. Todos esses projetos são verdadeiras referências no gênero até hoje.

Mais um ponto que merecia uma profundidade na sessão de terapia, ops, entrevista, foi seu trabalho com Eduardo Costa. A música “Anjo Protetor”, composta em parceria com o cantor, é um dos destaques dessa colaboração, mas passou despercebida. Músicas feitas por César Augusto e Cláudio Noam, como a “Eu Aposto” nem foram lembradas. E porquê não citar outras que fizeram parte, por exemplo, do disco “Pecado de Amor”, eleito por muitos o melhor trabalho de Eduardo Costa em estúdio. Parte desse repertório integrou o “Acústico” do cantor gravado no Brook’s Bar em São Paulo, que é um marco na carreira de Eduardo. O DNA das composições de César estão em muitos desses trabalhos do cantor mineiro.

O mesmo vale para clássicos como “Pare!”, que teve uma história bonita com uma fã, mas não teve detalhes do arranjo e da gravação contados. Piska também gravou todos os instrumentos nela? E a querida “Minha Estrela Perdida” – aliás, quando ele finalmente ia falar sobre essa obra, a entrevista tomou outro rumo e o assunto se perdeu. Só sabemos que a coitada levou nota 3 de um famoso cantor.

E não foi só com Zezé & Luciano e Eduardo Costa que faltou aprofundamento. Grandes discos de Gian & Giovani e Bruno & Marrone também ficaram de fora. O álbum “Cilada de Amor” (1999) e o icônico “Paixão Demais” (2000), que traz a gravação única de “Passou da Conta”, são registros importantíssimos do sertanejo e têm a marca de César Augusto, mas pouco (ou nada) foi dito sobre eles. A clássica “Agarrada em Mim”, nem preciso dizer que passou batida também. Assim como “Cansei de Namorar a Solidão”, feita para a dupla Gian & Giovani em 1993.

Outras obras que mereciam uma boa história contada para o público eram “Madrugada em meu Olhar” (ZC&L 1994), “Vem ficar Comigo” (ZC&L 1995), “Demorou Demais” (ZC&L 2000), “Alguém” (João Paulo & Daniel 1995), “Ela tem o dom de me fazer Chorar” (JP&D 1997), “Eu era Assim” (ZC&L 2002), “Diz pro meu Olhar” (ZC&L 2001) e “Loucura Demais” (Chrystian & Ralf 1993).

No fim das contas, a entrevista decepcionou por dois motivos. Faltou conhecimento e vontade por parte do host do podcast (como sempre), pois parece que ele aprendeu sobre sertanejo no Wikipédia. Mas também faltou o entrevistado olhar mais para seu grande legado na música, dentro e até mesmo fora do sertanejo, do que para os rancores do passado. Uma pena!

Fiquem aí com a “Antes de Voltar pra Casa” pra animar o dia de vocês, já que ela segue com segredos de sua produção guardados…