Categoria: Carnaval

Mocidade Independente terá a obra “América Invertida” de Joaquín Torres García como enredo

Escola de Castorzinho vai levar pra avenida desfile intitulado “Latinamente Independente – Nosso norte é o Sul em Remanifesto”

(Mascote faz referência a Bad Bunny) Foto: Instagram

A Mocidade Independente de Padre Miguel escolheu um caminho ousado, político e extremamente simbólico para o Carnaval 2027. Inspirada na obra “América Invertida”, do artista uruguaio Joaquín Torres García, a escola levará para a Sapucaí o enredo “Latinamente Independente – Nosso norte é o Sul em Remanifesto”, assinado pelo carnavalesco Jack Vasconcellos. A ideia nasce justamente do famoso desenho criado em 1943, que inverte o mapa da América do Sul e coloca o Sul no topo, como forma de questionar a visão eurocêntrica do mundo e afirmar a identidade latino-americana.  

O mais interessante é que a Mocidade parece recuperar justamente aquilo que sempre fez dela uma escola tão especial: a coragem de provocar. Historicamente, a verde e branca brilhou quando decidiu sair do óbvio e apostar em desfiles críticos, modernos e cheios de personalidade. E esse novo enredo conversa diretamente com essa essência. A proposta de “nosso norte é o Sul”, frase eternizada por Joaquín Torres García em seu manifesto, transforma o desfile em uma grande defesa da cultura latino-americana, da autonomia artística e da valorização das próprias raízes.  

Além do discurso político e cultural, existe também um potencial visual gigantesco. Jack Vasconcellos costuma trabalhar com conceitos muito imagéticos, e um desfile baseado em geopolítica, arte, resistência cultural e identidade latina pode render alegorias extremamente criativas e impactantes. A obra “América Invertida” virou um símbolo cultural justamente porque desafia a lógica tradicional dos mapas e reposiciona a América Latina como centro do olhar. E poucos lugares no mundo conseguem transformar reflexão política em espetáculo visual como o Carnaval carioca.  

No fim, o anúncio do enredo passa uma sensação importante: a de que a Mocidade quer voltar a ser protagonista. Depois de anos oscilando no Grupo Especial, a escola parece buscar novamente uma identidade forte e autoral. E talvez não exista escolha melhor do que olhar para a América Latina, suas raízes e sua potência cultural justamente em um momento em que o Carnaval também disputa narrativas. A Mocidade não quer apenas desfilar em 2027. Quer provocar, fazer pensar e lembrar que, para nós, o Sul também pode ser o centro do mundo. E com um desafio extra, que é o de ser tão emblemático quanto a Vila Isabel 2006, com o “Soy Loco Por Ti, America”. ¡Mucho éxito!

Viradouro terá enredo afro sobre Griôs no Carnaval 2027

Atual campeã vai em busca do bicampeonato com o que sabe fazer de melhor

Foto: Arquivo Pessoal

Depois de emocionar a Sapucaí com um desfile arrebatador sobre Mestre Ciça e conquistar mais um título, a Unidos do Viradouro já mostrou que não pretende entrar em 2027 apenas para “cumprir tabela”. A escolha de homenagear os griôs, figuras fundamentais na preservação da memória e da tradição oral africana, parece muito mais do que um enredo bonito: é uma declaração artística. A Viradouro entendeu há tempos que carnaval campeão não vive só de luxo ou tecnologia. Vive de narrativa, emoção e identidade.  

E talvez esse seja justamente o maior diferencial da escola hoje. Enquanto muita gente ainda tenta descobrir qual é a fórmula para vencer no Grupo Especial, a Viradouro parece ter encontrado um caminho muito próprio: transformar cultura afro-brasileira em espetáculo sem perder profundidade. Foi assim em “Viradouro de Alma Lavada”, foi assim com Mestre Ciça e tudo indica que será novamente agora. O tema dos griôs abre possibilidades gigantescas para um desfile poético, ancestral e extremamente sensível visualmente.  

O mais interessante é perceber como a escola de Niterói vem construindo uma identidade artística muito sólida nos últimos anos. Existe uma assinatura nos desfiles da Viradouro. Você bate o olho e entende a proposta. Há emoção, há teatralidade, mas também existe pesquisa e respeito histórico. E isso pesa demais num carnaval em que o público está cada vez mais exigente. O sambista quer se emocionar, mas também quer sair da Sapucaí sentindo que aprendeu algo, que viveu uma experiência. A Viradouro vem entregando exatamente isso.

Se o samba vier forte — e normalmente vem —, a sensação é de que a escola já larga como uma das favoritas naturais para 2027. Porque quando um enredo consegue unir ancestralidade, potência visual e uma mensagem universal sobre memória e transmissão de saberes, o impacto costuma ser enorme na avenida. E sinceramente? A Viradouro parece viver aquele momento raro em que tudo encaixa: gestão, comunidade, bateria, identidade e confiança. É aquele tipo de fase em que a escola entra na Sapucaí já com cara de protagonista.

Faltam 2 títulos para Mocidade Alegre se igualar a Vai-Vai como maior campeã do Carnaval

Pela fase ruim da escola da Bela Vista, Mocidade tem a faca e o queijo na mão para alcançar marca

Foto: O Globo

A Mocidade Alegre escreveu mais um capítulo dourado em sua trajetória ao conquistar o 13º título no carnaval paulistano. Uma vitória construída com maturidade, comunidade e, principalmente, identidade. A Morada do Samba, que tem uma gestão exemplar de Solange Bichara, mostrou que tradição e inovação podem caminhar juntas quando há planejamento e amor pela escola. O Anhembi viu uma campeã segura, vibrante e consciente do que estava apresentando em cada quesito.

O enredo em homenagem a Léa Garcia foi um acerto histórico. Reverenciar uma artista gigante, símbolo de resistência e talento, elevou o desfile a um patamar cultural raro. A narrativa foi sensível, potente e emocionante, conduzindo o público por momentos de luta, arte e representatividade. Não foi apenas um desfile bonito: foi um manifesto em forma de samba, daqueles que justificam um título.

A bateria da Mocidade Alegre merece um capítulo à parte. Precisa, cadenciada e ao mesmo tempo explosiva, ela foi o coração pulsante da escola na avenida. Comandada por Mestre Sombra, sustentou o samba com firmeza, levantou arquibancada e mostrou por que a Mocidade costuma ser temida nesse quesito. Houve variações bem executadas, bossas inteligentes e uma sintonia impecável com o restante do desfile — ingrediente essencial para a conquista.

Com o 13º campeonato, a Mocidade se aproxima perigosamente da marca histórica da Vai-Vai, maior campeã do Anhembi com 15 conquistas. Os dois últimos títulos da Vai-Vai foram com enredos musicais: Maestro João Carlos Martins (2011) e Elis Regina (2015). Faltam apenas dois títulos para a Morada conseguir a igualdade. Enquanto isso, a tradicional escola da Bela Vista vive uma fase turbulenta, distante do brilho de outras décadas.

Se o cenário atual se mantiver, a hegemonia que parecia intocável pode, enfim, ser ameaçada. O carnaval de São Paulo ganha não apenas uma campeã, mas uma disputa histórica que promete esquentar os próximos anos. A missão na avenida do Carnaval paulistano há muito tempo se repete e deve permanecer, que é de quem consegue vencer a Mocidade Alegre.

Ninguém quer ver Pretinho da Serrinha no meio da bateria com imagem de Tecpix, nem ouvir rádio de Harmonia na transmissão do Carnaval

Só queremos ver os desfiles!

Foto: Marco Eusébio

A transmissão do carnaval pela TV Globo conseguiu a proeza de tirar o telespectador do clima da avenida em pleno 2026. Em São Paulo, a decisão de deixar os apresentadores fora do Sambódromo do Anhembi simplesmente não faz sentido. Carnaval é calor, é vibração, é suor, é reação ao vivo. Quando o apresentador não sente o chão tremer com a bateria, a transmissão perde pulso. Fica fria, distante, protocolar. Para quem acompanha escola por escola, que espera o ano inteiro por aquele desfile, essa escolha foi um banho de água fria logo na largada.

No Rio de Janeiro, o problema foi ainda mais grave. A cobertura no Sambódromo da Marquês de Sapucaí virou um festival de interrupções desnecessárias. Em pleno desfile, a transmissão foi cortada diversas vezes para ouvirmos o rádio do diretor de Harmonia. Carnaval não é corrida de Formula 1 para acompanharmos comunicação interna de equipe. Além de ser um áudio difícil de entender, quebra totalmente o ritmo do espetáculo. A emoção da evolução, da bateria entrando no recuo, da comissão de frente executando um efeito, tudo isso perde força quando o foco sai da escola para algo que nem agrega informação clara.

E como se não bastasse, colocaram Pretinho da Serrinha no meio das baterias com uma câmera de qualidade duvidosa pior que Tecpix, invadindo o espaço e interferindo até no quesito. Ele é ótimo músico, entende de ritmo como poucos, mas o comentário poderia ser feito no estúdio. No meio da pista, com imagem ruim e enquadramento confuso, virou mais distração do que contribuição. Enquanto isso, a transmissão insistia em planos longos apenas na bateria, acelerando a percepção do desfile e ignorando alas e alegorias. Não esperamos um ano inteiro para ver segundos de um carro alegórico ou um detalhe rápido de fantasia que levou meses para ser produzido.

E aí vem outro ponto que beira o inexplicável: Mariana Gross, uma das maiores jornalistas especializadas em carnaval, fica praticamente avulsa, restrita ao esquenta e à entrada das escolas. Ela tem repertório, história e leitura crítica para conduzir a transmissão inteira. Qual a dificuldade de centralizar a apresentação em quem realmente entende do assunto? No fim das contas, para quem ama carnaval e acompanha pela TV, foi mais um ano de frustração. A avenida entrega espetáculo. Falta a transmissão entender que o público quer ver a escola inteira — e não apenas recortes desconexos.

Só um enredo sobre Castor de Andrade salva a Mocidade

É hora de arriscar no tudo ou nada fazendo o enredo da vida e voltar a ter um nome forte na bancada da Liesa

Foto: Mocidade Independente

Mais um ano difícil para a Mocidade Independente de Padre Miguel. O 11º lugar no Carnaval deste ano pesa — e pesa muito. Não foi um desastre visual, não foi um desfile feio, não foi um vexame plástico. Pelo contrário: estava bonito, estava colorido, organizado dentro do possível. Mas Carnaval não se ganha apenas com estética. E esse 11º lugar escancara que está faltando algo que não se compra em barracão: alma. E dói ainda mais quando a gente olha para o resultado e vê a escola atrás da Portela, que, sinceramente, não apresentou algo superior a ponto de justificar a diferença na apuração.

A sensação que fica é que a Mocidade vem correta demais, comportada demais, genérica demais. Parece que falta aquela identidade forte, aquela personalidade que nos tempos áureos fazia a escola entrar na avenida com arrogância de campeã. O enredo de Rita Lee até tinha conceito, mas soava forçado, distante da essência da comunidade. Era bonito? Era. Mas embalou? Não. O samba era difícil, a arquibancada não comprou a ideia, e o desfile passou quase como um intervalo enquanto o público aguardava a avalanche que viria depois com Beija-Flor e outras protagonistas da noite.

A Mocidade precisa reencontrar a própria história. E não tem símbolo maior dessa identidade do que Castor de Andrade. Polêmico? Sem dúvida. Mas foi sob sua liderança que a escola viveu seus tempos mais gloriosos. Um enredo sobre Castor — assumido, sem medo, trazendo também o mascote Castorzinho como símbolo dessa reconstrução — poderia devolver à escola aquilo que está faltando: personalidade. Não é sobre exaltar ilegalidade, é sobre contar a própria história, sobre assumir quem foi e o que representou para a comunidade de Padre Miguel.

Porque do jeito que está, a Mocidade parece desfilar sem pulsação. Falta emoção, falta arrebatamento, falta aquele momento de arrepio que faz o Sambódromo levantar. O 11º lugar mostra que apenas “estar bonito” não basta. Se não houver uma virada de identidade, 2026 corre o risco de ser mais um ano para esquecer. A Mocidade não precisa de mais um enredo técnico; precisa de alma. E alma ela já teve — basta ter coragem de resgatar. Além disso, precisa ainda voltar a ter um presidente de nome forte para defendê-la na Liesa. No mais, vai plantar e colher bons frutos nesse caminho.