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Maior banda de pagode do planeta, Raça Negra fica apenas em 4º na lista sem noção da Billboard

“Oh flor, cê gosta de Raça Negra??”

A Billboard Brasil, sem nada de útil pra fazer na vida, decidiu fazer uma lista com as 25 maiores bandas de pagode do país. E sinceramente? Eu não consigo entender a lógica por trás desse ranking. A começar pela posição de alguns grupos que, ao meu ver, foram completamente negligenciados ou colocados fora de contexto. Não dá pra levar a sério uma lista dessas quando ela ignora critérios fundamentais como impacto cultural, influência no gênero e relevância histórica. É quase como se tivessem feito a seleção a partir de uma playlist aleatória, sem levar em conta a verdadeira trajetória do pagode no Brasil.

Até dá pra reconhecer um ponto positivo: ao menos lembraram do grupo Kiloucura, que ficou em 15º lugar. Um dos grandes sucessos do Kiloucura foi a música “Pela vida inteira” do compositor Riquinho. Uma grata surpresa ver o nome deles ali, porque geralmente são deixados de lado nessas listas mais comerciais. Mas aí você olha pro topo e leva um susto: Exaltasamba em 1º lugar. Com todo o respeito, o Exalta tem sua grandeza, mas é top 3 com folga. Não dá pra aceitar que Exaltasamba e Sorriso Maroto estejam acima do Raça Negra. O grupo não é só o maior do pagode — é simplesmente o grupo que inventou o conceito de pagode popular como o conhecemos. Sem eles, não haveria nem espaço pra que outros grupos dessem continuidade ao movimento.

O Raça Negra é, simplesmente, o grupo top1 do planeta em qualquer ranking que se faça. Eles foram a porta de entrada, a semente de um gênero inteiro. Sabe o que representa Chitão & Xororó para o sertanejo e a Calcinha Preta para o forró? O Raça Negra é isso para o pagode! Abriram caminho quando o samba romântico ainda era olhado com desconfiança e transformaram o pagode num fenômeno nacional. O vocal do Luiz Carlos, os arranjos, o carisma, as composições dele com Elias Muniz… nada ali é por acaso. É um grupo que ultrapassa gerações e continua relevante até hoje. Colocar qualquer outro grupo acima deles é ignorar toda a base do que é o pagode brasileiro.

Agora, se formos falar de sonoridade, aí sim, o grupo Revelação entra com força e representatividade. Porque se o Raça Negra criou o terreno, o Revelação plantou outra árvore ali — trouxe uma sonoridade mais refinada, mais voltada ao samba de raiz, com arranjos mais complexos e letras que elevaram o nível da composição dentro do pagode. As composições de Xande de Pilares e Mauro Jr, em especial, são a essência do legado do Revelação. Pra mim, eles são o grupo mais relevante do ponto de vista musical. Estão no top 2, sem sombra de dúvida.

O Exaltasamba fecha esse pódio com justiça no top 3, pelo sucesso comercial e pela renovação da linguagem do gênero nos anos 2000. O grupo só chegou onde chegou pelo talento de cada um no grupo, como Chrigor e Péricles, os arranjos de Isaías e produções de Bira Hawaí e Prateado. O sucesso do Exalta passa principalmente pelo trabalho do Pinha, que não por acaso tem o apelido de “presidente” como o Bira Presidente do Fundo de Quintal. Claro que nunca esqueço dele na banheira do Gugu, dançando a “Vem pra ficar comigo”. Aliás, mencionando os produtores, além de Bira e Prateado, Arnaldo Saccomani fecha a trindade do pagode nas produções que mudaram a história do gênero.

Enfim, a Billboard precisa parar de querer se enfiar em todos os gêneros como se tivesse a autoridade pra isso. Com todo o respeito, nem tudo precisa passar pelo crivo de um ranking estilo americano ou com metodologia duvidosa. O pagode tem sua própria história, sua própria hierarquia construída nas ruas, nas rodas de samba, nos programas de TV populares. E atualmente tem pessoas capacitadas para falar do gênero com propriedade, como Leandro Brito do maior podcast de pagode e samba do Brasil. Quem vive e sente o pagode sabe muito bem quem são os verdadeiros gigantes dessa história — e, nesse pódio, o Raça Negra nunca vai perder o trono.